Acervo Fido Nesti
Acervo Fido Nesti

Fido Nesti concorre ao Oscar dos quadrinhos com adaptação de '1984'

Cartunista brasileiro fez a primeira versão do romance de George Orwell adaptada para HQ

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2022 | 05h00

Fido Nesti soube que é um dos finalistas do prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, quando jogou seu nome no buscador do Google e, por acaso, lá estava ele entre a lista de indicados a melhor adaptação divulgada pelo site oficial da Comic Con, que distribuirá os troféus entre os dias 21 e 24 de julho, na cidade americana de San Diego. “É uma surpresa muito grande, pois, se alguém me falasse, ia achar que era trote, tipo quando ligam pro escritor avisando que ele ganhou o prêmio Nobel”, conta o cartunista durante uma conversa bem-humorada por telefone. Além de Fido, o desenhista brasileiro Mike Deodato também concorre ao prêmio nas categorias nova série e série de humor, com Nem Todo Robô

Fido adaptou para a linguagem da HQ o romance distópico 1984, do escritor inglês George Orwell (1903-1950), clássico da literatura que rodou o mundo em dezenas de traduções. Para transpor para o universo da HQ o romance de Orwell, o cartunista trabalhou em ritmo industrial por um ano e oito meses. A rotina solitária, por vezes caótica, se intensificava na medida em que o mundo exterior sucumbia à pandemia de coronavírus. “Na prática, meu dia a dia não mudou muito, continuei enclausurado, e o trabalho me ajudou a passar por tudo isso.” Incorporada à narrativa, a incerteza do momento sanitário e o terror das políticas de governo em busca da vacina foram refletidos no traço de Fido, que expôs a questão da angústia do protagonista de Orwell, Winston Smith. 

A perseguição a mentes esclarecidas, fio condutor do romance, se fez presente no cenário apocalíptico e desolador da pandemia, pondera o cartunista. “Durante o processo todo, o livro estava mais vivo do que nunca, uma distopia foi mergulhando em outras.” Cinzas e matizes de sépia se misturam dando ao cenário um clima de poeira, névoa típica da vigilância constante, um estado de espírito bélico e autoritário que embala um império fictício na Oceania que, no romance, busca dominar o mundo e aprisionar os que contestam as bravatas. 

Há anos na lista dos mais vendidos no site da Companhia das Letras, os romances mais conhecidos de George Orwell, 1984 e A Revolução dos Bichos, ganharam, a partir de 2020, edições luxuosas e adaptações para outros formatos, como a HQ de A Fazenda dos Animais (título original de A Revolução dos Bichos, em inglês Animal Farm) vertida pelo ilustrador gaúcho Odyr, em 2018. 

O primeiro contato de Fido com o romance de Orwell foi, justamente, no ano de 1984, aos 13 anos, em outro momento conturbado da história recente do País. Era o último ano da ditadura militar. “Mais uma vez, foi um momento estranho para ter Orwell em mãos, é engraçado como o livro, em momentos difíceis da democracia, vem como um sinal luminoso.” O jovem Fido só foi entender o que era ditadura, de fato, anos mais tarde; o tema, como costuma acontecer com as polêmicas familiares, sempre foi discutido em segundo plano. Mas os ensinamentos do romance de Orwell ficaram. Para a adaptação de 1984 para os quadrinhos, Fido releu o romance mais algumas vezes e buscou captar o espírito da época em que foi escrito, em 1949, e comparar com o atual. “Na primeira vez que li o 1984, eu fui despertado para aquilo que havia a minha volta.” 

A edição já teve os direitos adquiridos por mais de 20 países e, neste mês de junho, está prevista sua publicação no Japão. A literatura de Orwell, já bastante popular, com o feito da linguagem gráfica se estende cada vez mais ao público mais jovem. Em 2020, o espólio do autor entrou em domínio público e no mercado editorial brasileiro, por exemplo, pululou uma gama de edições de livros do inglês. À época da adaptação de Fido, seus originais eram aprovados pelo editor Emílio Fraia, que enviava para o herdeiro de Orwell conferir. “Ele gostou muito do resultado, ficou entusiasmado, então, meio que ganhei a confiança de quem tinha a palavra final”, lembra o cartunista. 

A trajetória internacional da HQ foi contada em imensos painéis na cidade de Angoulême, na França, com a exibição das páginas originais, em uma exposição que integrou as atividades do festival de quadrinhos da cidade, que recentemente premiou outro brasileiro, Marcello Quintanilha, pelo esmerado trabalho em Escuta, Formosa Márcia, que narra o desespero de uma mãe para salvar a filha do tráfico de drogas. Bons exemplos, como o francês, no entanto, não são regra. A China, que havia comprado os direitos da adaptação de Orwell, vetou o clássico orwelliano. 

Cartunista, ilustrador e artista plástico, Fido Nesti fez carreira ilustrando em jornais e revistas, além de livros, como a adaptação de Os Lusíadas, que foi adotada por muitas escolas. Nos últimos anos, ele tem trabalhado com o mercado editorial. Fido viu a criação de novas editoras, com tiragens menores e público nichado, o que deu a ele um novo horizonte: se aperfeiçoar em projetos gráficos, no objeto livro, uma arte menos perene do que a das publicações. “O Winston tem muitos pensamentos, abstrações, então eu aproveitava para recorrer às imagens da minha cabeça”. E completa: “A liberdade de criação faz parte da rotina de um cartunista, ilustrar 1984, que tem toda uma carga política, é receber o reconhecimento de que, de alguma forma, fiz um bom trabalho.” 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.