Ferroado pela Ferrante

Editor executivo do ‘Estadão' explica por que gosta da obra da misteriosa escritora italiana: 'Com Ferrante, as palavras voltaram a viver, a sair das páginas para serem ditas em nossos ouvidos'

* Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 10h00

Elena Ferrante escreve bem, a temática de suas obras é digna, seus livros têm profundeza psicológica, amplitude social e densidade intelectual. Resumidamente, são bons na forma e no conteúdo. 

Claro, uns leitores podem gostar mais, outros, menos, outros podem nem gostar. Mas é boa literatura e isso não se discute. Ponto. A menos que o conceito de literatura seja medido apenas pelas réguas do experimentalismo radical, do academicismo sectário ou do fracasso inebriante que tantas vezes sobe à cabeça de alguns críticos e escritores. 

Até aqui, nada de muito especial na obra de Ferrante porque sempre há literatura de qualidade sendo produzida em qualquer canto (no Brasil, por exemplo, vejam só) por gente jovem ou velha, homens, mulheres ou transgêneros, ricos ou pobres, apocalípticos ou integrados. Então, o que diferencia os livros de Elena Ferrante e os torna especiais? Eles possuem algo que falta para muitos outros, muitos: eles são lidos, são devorados em todo o mundo por nuvens de ávidos gafanhotos-leitores. As mensagens de Ferrante alcançam receptores e a mágica se completa. 

Em suma, são um sucesso, palavra que dá calafrios em gente avessa a ver a literatura ficcional pareando com as novelas, as séries e demais produções audiovisuais que arrastam fãs noites adentro. Como se o fato de ser consumida em larga escala simplesmente bastasse para decretar o status de uma obra: muita gente gosta? Então, fuja, não presta. O exclusivismo sempre foi e será um refúgio de pseudointelectuais.     

Elena Ferrante, seja lá quem ela for, encontrou no conteúdo uma temática tocante, a vida composta de sangue menstrual, suor de operárias e lágrimas apaixonadas das mulheres dos séculos 20 e 21. Na forma, fincou sua prosa no ultrarrealismo, que andava meio esquecido após décadas de uma literatura voltada ao esoterismo fútil numa ponta e às divagações intelectuais sobre seu próprio umbigo na outra. Com Ferrante, as palavras voltaram a viver, a sair das páginas para serem ditas em nossos ouvidos. 

Não tenho dúvidas de que o correr do tempo atropelará divergências e servirá para envernizar o que ainda parece rústico aos olhos desatentos. Reservará à Tetralogia Napolitana o merecido título de um dos mais belos painéis literários sobre o pós-guerra europeu. Fui ferroado pela Ferrante, assim como foram minha mãe, minhas tias, minha sogra, minhas amigas do trabalho, meu dentista, o porteiro do edifício... Eis a mágica da literatura.

  * É editor executivo no ‘Estadão’  

 

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