Wilton Júnior / Estadão
Wilton Júnior / Estadão

Ferreira Gullar via na poesia o reflexo de sua perplexidade com o mundo

O escritor, poeta e teatrólogo estava internado no Hospital Copa D'Or, na zona sul do Rio, com pneumonia, apontada como a causa da morte

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 20h49

Fazia cerca de 20 dias que o poeta Ferreira Gullar estava interno, com problemas respiratórios. O quadro de sua saúde seguia estável, ele provocava gargalhadas dos amigos que o visitavam no Hospital Copa D’Or, no Rio, e o recebimento da alta se avizinhava. Na madrugada de sexta para sábado, porém, uma pneumonia surpreendeu a todos, dominando o sempre frágil corpo do escritor. A medicação tornou-se impotente e, na manhã de domingo, 4, o poeta maranhense morreu. “Ele não aceitava ser entubado”, conta Maria Amélia Mello, amiga e editora de Gullar, com quem trabalhou durante mais de 30 anos. E de quem deverá publicar três trabalhos no próximo ano.

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Ferreira Gullar estava com 86 anos. Era membro da Academia Brasileira de Letras, entidade para o qual relutou entrar e cuja posse completa exatos dois anos nesta segunda-feira, 5. “Considero Gullar o mais importante nome da cultura brasileira contemporânea, não só pelo excepcional relevo de sua obra poética, como pelo fato de sua atividade se estender, com desassombro e inteligência, para diversas outras áreas do pensamento e da criação: as artes plásticas, a ficção, a dramaturgia, o ensaísmo, o debate político”, comentou o crítico e poeta Antônio Carlos Secchin, um dos mais vibrantes apoiadores da obra do poeta, a ponto de inscrever seu nome entre os concorrentes ao Nobel de Literatura de 2002. 

De fato, a poesia era, para Gullar, uma energia. Ele também era cronista, crítico, pintor, mas pareciam meros ofícios para garantir a sobrevivência – era na criação de poemas que ele se sentia realmente um homem livre. Seu primeiro livro, depois renegado, foi Um Pouco Acima do Chão, editado às suas expensas, em 1949. Passaram-se cinco anos até sair Luta Corporal, poderoso volume em que já ensaiava a poesia esteticamente ambiciosa com que trabalharia até o final – e quase sempre com forte ênfase política.

Luta impressionou escritores consagrados, como Oswald de Andrade, e o livro também serviu para aproximar Gullar de Decio Pignatari e dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. A insatisfação com o momento da poesia brasileira naquela época era um incômodo comum. Juntos, participaram da Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, considerada o marco inicial do movimento concretista, expressão poética fundamental do século 20. Mas logo a amizade tomaria novos rumos – em fevereiro do ano seguinte, Gullar publicou um artigo no Suplemento Dominical, do Jornal do Brasil, questionando as teses do movimento, e o rompimento viria em seguida, com Gullar abrindo espaço para os neoconcretos. A disputa se estendeu por anos, a ponto de Gullar e Augusto terem trocado farpas em artigos publicados na Folha de S.Paulo, em 2015. 

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Mesmo assim, o poeta maranhense reconhecia o valor da disputa ideológica. “O contato com Augusto de Campos e suas experiências poéticas me ajudou a sair do impasse a que chegara com A Luta Corporal”, escreveu ele em Experiência Neoconcreta. Nos anos 1960, sua poesia tornou-se ainda mais politizada. Com o golpe militar, é obrigado a se exilar em vários países até chegar a Argentina. A distância provoca-lhe uma dor forte, capaz de tornar turva a experiência do dia a dia. Apesar de colaborar com o Pasquim sob o pseudônimo de Frederico Marques, não consegue produzir com tranquilidade. Em uma rotina quase desesperada, Gullar passou seis meses do ano de 1975 escrevendo o que imaginava ser a última obra de sua vida. 

Poema Sujo foi o resultado desse mergulho interior e chegou ao Brasil por meio de uma gravação feita por Vinícius de Morais. A densidade da obra despertou uma onda de admiração até chegar ao editor Ênio Silveira, na época à frente da Civilização Brasileira, que o publicou. Gullar atingia uma linguagem viva com Poema Sujo, considerado por Vinicius a mais importante obra poética brasileira já publicada. “Sujo” porque expressa um desabafo e expõe as vísceras em forma de poesia. Gullar voltou ao Brasil em 1977, época em que foi preso pelo “crime” de suas ideias contrárias à ditadura militar.

Sempre garantindo que não havia inspiração (“A poesia nasce do espanto”), Gullar publicou ainda vários livros, como Em Alguma Parte Alguma (José Olímpio), em 2011. No ano passado, lançou Autobiografia Poética e Outros Ensaios, pela Autêntica, editora que promete, para 2017, uma coletânea de críticas de arte, o relançamento do infantil Dr. Urubu e Outras Fábulas e o DVD do filme O Canto e a Fúria, de Zelito Viana. O corpo do poeta deverá ser enterrado hoje no cemitério São João Batista, no Rio.

 

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