Wilton Júnior / Estadão
Wilton Júnior / Estadão

Ferreira Gullar relutou por mais de 20 anos para aceitar o posto na Academia Brasileira de Letras

Depois de eleito, em outubro de 2014, poeta se tornou "um acadêmico exemplar"

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 16h56

RIO - Eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em outubro de 2014, depois de mais de 20 anos relutando a aceitar o posto, o poeta Ferreira Gullar mantinha com prazer a rotina de participar das reuniões e conferências da casa, às terças e quintas-feiras, contaram ontem amigos acadêmicos. Havia um mês que não aparecia, por causa de problemas pulmonares. Discreto e recolhido - morava sozinho na Rua Duvivier, em Copacabana, próximo da mulher, a poeta Cláudia Ahimsa, que vivia em outro apartamento -, ele não queria receber visitas, tampouco que fosse divulgado seu estado de saúde. 

"Gullar hesitou muito, mas a partir momento em que topou entrar para a ABL, tornou-se um acadêmico exemplar, que se interessava por tudo. Tinha a certeza de que ia encontrar pessoas que gostavam dele. Ia sempre ao ciclo de palestras, inclusive sua última palestra foi no dia 20 de outubro, sobre 'Dom Quixote e os perigos da leitura'", disse o acadêmico Antônio Carlos Secchin, amigo próximo e um dos artífices de sua candidatura, na sucessão de Ivan Junqueira (1934-2014). 

"Eu percebi que para ele aceitar, teria de haver um contexto muito propício. Formou-se um triângulo do afeto, pois ele sucederia o Ivan, alguém muito amigo dele, e eu também o era. A mim coube fazer essa costura imaginária", lembrou Secchin. Ele também levou o nome de Gullar para a Academia Sueca que concede o Prêmio Nobel de Literatura - Gullar foi indicado em 2002. Na ocasião, o poeta deu declarações modestas sobre o assunto. Disse que a possibilidade de ser escolhido era "estratosférica". "Isso é coisa pra (Jean Paul Sartre), pra (Albert) Camus", brincou.

Gullar era convidado para se candidatar à ABL desde os anos 1990. Quando morreu o escritor Moacyr Scliar, em 2011, amigos da academia insistiram uma vez mais. Ele chegou a dizer que aceitaria, mas logo depois voltou atrás. "Não sou uma pessoa com espírito acadêmico, institucional. Sou um questionador. Concordei com uma proposta muito generosa. Se eu dissesse 'não' ali, eu ia me sentir arrogante, pretensioso. Comecei a me sentir realmente deprimido, porque tinha feito uma coisa contrária a mim", admitiu então. Quem acabou ocupando a vaga deixada por Scliar foi o jornalista Merval Pereira.

+ Ferreira Gullar: 'Se você me ama, me deixa ir em paz'

"Ele (Gullar) se reencontrou na academia. Foi eleito por unanimidade, acolhido num ambiente amigo e cordial, de estudo, de pesquisa, de reuniões em que se discutia a literatura brasileira, a poesia", contou o acadêmico Cicero Sandroni, outro amigo. "Era um homem recluso e estava muito frágil fisicamente. Um grande poeta que tinha seu grupo de amigos, do qual eu fazia parte, que gostava muito da sua turma. Era como um gato, animal que ele adorava, que gosta da sua família."

Nos encontros na academia, Gullar falava não só de literatura, mas também de política. O poeta fez campanha para José Serra em 2010 e era crítico exacerbado do PT, o qual chamava de "partido da mentira", e dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Em seus artigos no jornal "Folha de S. Paulo", falava do momento controverso da política nacional, das investigações dos escândalos de corrupção e do cenário na América Latina frequentemente. 

Em março, quando Lula foi conduzido coercitivamente pela Polícia Federal a depor sobre o sítio em Atibaia investigado na Operação Lava Jato, Gullar disse, em entrevista ao Estado, que a ação sepultava o populismo no País. "O passado do Lula é impossível de negar ou apagar. Ele usou o Estado, ajudou no fortalecimento de seu partido com propina. O populismo deslavado está chegando ao fim. Chegou na Argentina, está chegando à Bolívia, à Venezuela."

À época, ele disse não ser favorável ao impeachment da presidente Dilma, que seria aprovado pelo Senado em agosto - argumentava não vislumbrar um substituto com "prestígio nacional, de plena confiança, capaz de empunhar o poder num momento de tantas dificuldades". Pouco depois, deu entrevistas rechaçando a tese de "golpe" contra a presidente. 

"Ele dizia que não tinha problema em mudar de opinião, que só não mudava quem não tinha opinião a dar", contou Sandroni.

SAIBA MAIS: Ferreira Gullar deixa uma obra-prima: 'Poema Sujo'

Na coluna que publicou em 20 de novembro na "Folha", intitulada "Romper com o discurso poético não é como romper com o processo social", o poeta começa afirmando que "mudar é próprio da existência" para discorrer sobre mudanças sociais vividas no mundo desde o século 19. " 

Na academia, posicionava-se, era apoiado por uns e nem tanto por outros, mas não havia discussões acaloradas. "Em 1897, quando a ABL foi fundada, havia acadêmico favorável a Abolição, outros não, monarquistas, republicanos. Diferentes opiniões sempre foram discutidas na casa", disse Sandroni.

Em maio, Gullar abriu uma retrospectiva com fotos, livros, pinturas, colagens e memorabilia, como a Olivetti onde foi escrito o "Poema Sujo" (1975), e páginas do original, com rasuras e anotações sob o amarelado do tempo. A organização foi de sua mulher, e o mote foram seus 85 anos, completados em setembro de 2015.

SAIBA MAIS: Veja repercussão da morte do poeta Ferreira Gullar

A exposição tinha colagens em relevo da série recente "Revelação do Avesso", que nasceu em papéis coloridos na mesa da sala de seu apartamento, como “uma forma de ocupar o tempo”, e foi reproduzida em metal. Além das duas crônicas semanais, das reuniões na ABL e dos filmes que assistia no cinema com Claudia, essa era uma de suas ocupações prediletas. As horas dedicadas ao trabalho, mantidas até semanas atrás, incluíam tratativas para reedições de livros.

“Eu não tinha pretensão de fazer obra de arte. Hoje, a arte é jogar cocô na tela, rato morto, que o artista faz para colocar na casa nos outros, não na dele. As pessoas tiveram interesse pelo que eu fiz. Acharam bonito e original”, contou Gullar ao Estado ao falar da mostra. “Arte é aquilo que transforma tristeza em alegria, é uma forma de superar a tragédia. Botar três urubus num gaiola não é arte, é sacanagem. Tanto que não existe mais crítica, como existia quando eu era crítico. Acabou porque hoje não há o que se dizer.”

Gullar já não escrevia mais poesia. Dizia que os versos secaram junto com seu espanto com a vida. “Gostaria de saber por que não me espanto mais, mas não posso me espantar de propósito. Não vou escrever bobagem. Não tem a ver com a idade. Rimbaud parou com 19 anos. O que eu escrevi está bom.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.