Leo Aversa/Divulgação
Leo Aversa/Divulgação

Fernando Scheller escreve histórias de amor no império dos sentimentos

Em sua estreia na ficção, autor leva para a capital argentina a sua trama de afetos e desejos

Wilson Alves-Bezerra, ESPECIAL PARA O ESTADO

28 Julho 2016 | 20h13

“O amor é a mais interessante das matérias narrativas”, diz a socióloga argentina Beatriz Sarlo, em seu livro O Império dos Sentimentos, de 1985. E prossegue: “Os textos de felicidade desenham um vasto império dos sentimentos, organizado segundo três ordens: a dos desejos, a da sociedade e a da moral”. Sarlo estava falando dos folhetins que circulavam em Buenos Aires nas primeiras décadas do século 20, que consumo massivo entre a população, contemporâneos a autores de vanguarda, mas alheio a eles.

O jornalista do Estado Fernando Scheller, em sua estreia na ficção, revisita tal “império dos sentimentos”, justamente na Argentina. Seu romance O Amor Segundo Buenos Aires flerta com o folhetim. Em 1920, seria uma escolha evidente; em 2016, um ousado anacronismo. O livro se inicia com um poema, que ou exige do leitor uma total adesão ou uma leitura irônica: “Se você já amou demais (...) Este livro é para você/ ele foi feito com amor e é sobre todas as formas de amor”.

O protagonista é Hugo, um brasileiro de 30 anos, não muito brilhante, vivendo suas inseguranças amorosas e intelectuais em Buenos Aires. A estrutura do livro é a seguinte: cada capítulo tem um ponto de vista diferente, um personagem falando sobre outro anteriormente apresentado, sempre com a fórmula “x, segundo y”. Na própria literatura argentina, este já foi um procedimento ousado, em autores como Julio Cortázar, que trocava de narrador no meio de uma mesma frase; em Scheller, reaparece sob a chave do jornalismo, mais didático, com título explicativo, para esclarecer outro lado do personagem; a edição da Intrínseca contribui levando o leitor pela mão, com um mapa em cada capítulo, com o bairro onde se desenrola a ação.

Embora a linguagem seja folhetinesca – com expressões que poderiam estar num romance de há cem anos, como “só o que penso é em decifrar este rosto que não consigo deixar de adorar”, “ela não me ama” – ao substituir a heroína romântica por um brasileiro mediano, Scheller promove uma operação significativa sobre o gênero: parece querer mostrar uma sociedade em que o homem deve ter sentimentos. Causam espécie os não poucos momentos em que a obra se torna a apoteose do macho sensível, como no exemplo de um pensamento da personagem Carolina: “Chego à minha [LISTA]preferida: tudo o que Hugo tem de perfeito. Nas coisas que o tornam diferente de todos os outros, no grande potencial que ninguém parece ver nele, nas frases corretas ditas nas horas certas” ou ainda “Toda vez que entro em um free shop, e faço isso muito, consigo visualizar pelo menos três ou quatro presentes que gostaria de dar a ele”.

Hugo, por outro lado, quando se mostra, para além de seus sentimentos, deixa o leitor sentir o hálito de sua visão retrógrada: “É como ler Michel Foucault. Ninguém entende muita coisa – e quando pensa que entende, geralmente está equivocado”; “Se Paris é uma mulher alta e magra, vestida nas melhores roupas, porém intragável e inatingível, Buenos Aires é uma italiana, já meio matrona e com alguns fios de cabelos grisalhos, um tanto parruda, maltratada pelo tempo e por amantes, porém ainda capaz de, sob luz certa, seduzir um rapazinho desavisado”.

Scheller, ao lançar mão de um gênero obsoleto, logra mostrar muito sobre o contemporâneo: na figura de Hugo consegue reunir preconceitos intelectuais, de gênero e de classe social, deixando ao leitor o sabor amargo do amor burguês aos leitores do século vinte e um, que não se desvanece nem com o happy end em que personifica Buenos Aires como uma tia bonachona apertando a bochecha dos seus pequenos, para colocar cada um em seu lugar no Império dos Sentimentos.

O AMOR SEGUNDO BUENOS AIRES

Autor: Fernando Scheller

Editora: Intrínseca (288 págs.,R$ 39,90)

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