Acervo José Paulo Cavalcanti Filho/Thiago Lubambo
Acervo José Paulo Cavalcanti Filho/Thiago Lubambo

Fernando Pessoa ganha sublime biografia sobre seus muitos 'eus'

Richard Zenith consegue, em 'pessoa', apresentar um retrato coletivo do escritor

Parul Sehgal, The New York Times

28 de julho de 2021 | 09h30

Será que um gênio conhece a si mesmo? Adrienne Rich achava que sim. Ela argumentou que Emily Dickinson escolhera se isolar não por ser excêntrica, mas por um motivo prático: para aumentar sua concentração e manter as distrações sob controle. Como artista, Dickinson “estava determinada a sobreviver”, escreveu Rich, “a usar seus poderes, a fazer as economias necessárias”.

Será que um gênio teme a si mesmo? Uma outra figura surge agora, hesitante sob a camuflagem costumeira - terno escuro, rosto obscurecido sob os óculos de coruja e o bigode espesso - mais um virtuose das economias necessárias que permitem que a imaginação floresça. É o incomparável Fernando Pessoa, o poeta, crítico, tradutor, místico e gigante do modernismo português.

Ele publicou alguns livros que passaram despercebidos, mas circulavam rumores de que em seu quarto havia um baú cheio com a verdadeira obra de sua vida. Após sua morte em 1935, o baú foi descoberto, repleto de anotações e rabiscos em envelopes, cartões de visita e qualquer papel que parecesse útil. Eram de autoria não só de Pessoa, mas de um rebanho de suas personas (ou “heterônimos”, como ele os chamava): um médico, um classicista, um poeta bissexual, um monge, uma adolescente apaixonada. Entre seus escritos se encontrava um maço de papéis que viria a se tornar sua obra-prima: O Livro do Desassossego, uma espécie de confissão em falsos começos e aforismos dissimulados e desesperadores: “A vida ativa sempre me pareceu o menos confortável dos suicídios”. No total, Pessoa criou dezenas de heterônimos, a maioria com biografias, obras, resenhas e correspondência. Ele era maravilhado e assombrado por sua mente, por sua “superabundância”.

Que relação isto poderia ter com uma história familiar de instabilidade nervosa?

Gigantesca, definitiva e sublime, a nova biografia de Richard Zenith, 'Pessoa', nos apresenta um retrato coletivo do escritor e seu elenco de eus alternativos - além de uma leitura perspicaz sobre o que significou para Pessoa se multiplicar (ou se fraturar?) assim. Que problemas isto resolveu - e criou? Zenith escreveu o único tipo de biografia verdadeiramente possível para Pessoa, o relato de uma vida que vai arrancando cada uma das fronteiras e fardos da noção de um eu. Será que “Fernando Pessoa” era apenas o primeiro heterônimo?

Se aceitarmos que a biografia, como Julian Barnes escreveu certa vez, é, na melhor das hipóteses, “uma coleção de buracos amarrados com barbante”, como alguém faz para escrever a biografia de uma pessoa alérgica à personalidade? Que Pessoa signifique “pessoa” em português deve ter lhe dado uma satisfação quase perversa - ele que escrevia a palavra “eu” entre aspas. “Estou começando a me conhecer. Eu não existo”, escreveu ele. “Sou a lacuna entre o que gostaria de ser e o que os outros fizeram de mim”. Ou “o palco vazio onde vários atores atuam em várias peças”. Ou, escreveu ele num poema, “apenas o lugar / Onde as coisas são pensadas ou sentidas”. Seus heterônimos eram viciados em sua obscuridade, vaidosos quanto à sua privacidade e sofriam quando eram forçados a “publicar” seu trabalho. É o eu concebido feito um torrão de açúcar: precisa se dissolver para ser degustado.

Quando criança, Pessoa professou ódio por “atos decisivos” e “pensamentos definidos”. Sua maior obra em livro foi, na verdade, “um não livro por excelência”, como Zenith o descreve ao traduzir uma edição: trata-se de “uma grande mas incerta quantidade de textos discretos, em sua maioria sem data e sem ordem sequencial, de modo que todas as edições publicadas - a depender de uma imensa intervenção editorial - é necessariamente falsa em relação a um inexistente ‘original’”.

Seria mais fácil laçar uma nuvem. Mas Pessoa teve uma vida após a morte feliz e foi agraciado por seus tradutores - nunca mais do que com Zenith (outro nome bem apropriado). Quando elogiamos as biografias, muitas vezes aplaudimos o fôlego e o esmero, uma espécie de densidade de detalhes - tanto que o biografado parece ganhar vida mais uma vez. Ao ler Pessoa, foi a necessidade de um certo tipo de tato que mais me impressionou. Zenith reconstrói uma vida com erudição maleável e bem medida, aplicando a quantidade certa de pressão sobre aquelas experiências formativas de infância, luto, ansiedade sexual, humilhação e extáticos primeiros encontros com a arte - mas nunca perdendo de vista o fato de que a vida real de Pessoa acontecia em outro lugar, assim como a de muitos escritores: sozinho e em sua escrivaninha.

Seu nascimento foi notícia de primeira página, prova da popularidade dos seus jovens pais na sociedade lisboeta. As palavras foram os primeiros brinquedos - ele adorava placas de rua - e era sério, sobrenaturalmente reservado e respeitável, mesmo quando criança. A tragédia veio de repente. Seu pai e seu irmão morreram de tuberculose quando ele era menino - e, de forma muito desconcertante, após seis meses de luto, sua mãe se apaixonou. Ela se casou e se mudou para a África do Sul, levando Pessoa consigo. Ele voltaria a Lisboa para mais estudos e travaria um flerte epistolar com uma jovem que parecia produzir nele mais agitação do que desejo. Ele permaneceu, escreve Zenith, “quase certamente virgem”. Foi cofundador de uma influente revista literária. E bebeu muito. Morreu em 1935, de cirrose.

Esse resumo nos diz muito pouco sobre a verdadeira vida de Pessoa, que se desenrolou em sua imaginação. “Dizer as coisas! Saber dizer as coisas!”, ele escreveu certa vez. “Saber existir através da voz escrita e da imagem intelectual! É disto que se trata a vida: o resto são apenas homens e mulheres, amores imaginários e vaidades fictícias, desculpas nascidas da má digestão e do esquecimento, pessoas se contorcendo sob a grande rocha abstrata de um céu azul sem sentido, como insetos quando você ergue uma pedra”.

Apaixonado pela nulidade e pela encarnação do mundo, ele transmutou toda a vida em experiência literária - do tipo mais puro. Criou personas para que discutissem entre si (e para esvaziar suas próprias certezas). Espalhou enigmas para seus biógrafos e para seus leitores deixou uma visão do mundo como “um grande livro aberto”, como ele escreveu, “que sorri para mim numa língua desconhecida”. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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