Feira do Livro de Frankfurt deste ano não empolga os editores

Maior evento do mercado editorial do mundo deixa a desejar

Maria Fernanda Rodrigues - ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

12 de outubro de 2014 | 03h00

FRANKFURT - Pelos corredores da Feira do Livro de Frankfurt, que termina neste domingo, editores brasileiros andavam desanimados e repetiam que não havia nada novo entre os livros apresentados a eles pelos agentes literários e editores estrangeiros. “Não vemos um pensamento novo. Os livros hoje são os mesmos dos últimos anos”, disse Jézio Gutierre, editor executivo da Unesp. “Comprei dois livros de gastronomia que vinham com aplicativos, mas fora essa novidade o que vi foi tudo mais do mesmo”, comentou Breno Lerner, superintendente da Melhoramentos. 

Para Roberto Feith, diretor do grupo Objetiva, a feira foi “morna, sem muitas novidades e livros notáveis”, e ele aproveitou para investir em autores que já estão em seu catálogo, como Emmanuel Carrere e Stephen King. Mas a conclusão não é somente a de que os autores estão produzindo obras piores - podem até estar - mas também que os títulos mais quentes começam a ser negociados antes do evento e, muitas vezes, a definição do comprador será em leilão, que pode levar dias.

“Criamos a ilusão de que tem que ter uma coisa nova num espaço de tempo de um ano, mas na vida não é assim. E o e-book não é mais novidade e o livro impresso não vai acabar no ano que vem. Está tudo igual”, comentou Samuel Titan Jr., do Instituto Moreira Salles, que está na Alemanha para acertar os últimos detalhes de dois livros de fotografia que publica com editora e gráfica Steidl no início de 2015.

Foi um ano morno também para a recepção da literatura brasileira no exterior - intensificada em 2012 e 2013 porque o Brasil seria o país homenageado do evento. Como ainda há muitos títulos a serem publicados e porque o Brasil saiu dos holofotes, a movimentação desacelerou. Entre os autores que chamaram a atenção este ano estão Carina Ricci, Eduardo Spohr e Bernardo Kucinski.

“Sou mais famoso aqui do que no Brasil”, brincou Kucinski, que veio quatro vezes à Alemanha recentemente e seu livro K. - Relato de Uma Busca, bem recebido pelos alemães, é um dos responsáveis. Agora talvez saia Alice, seu policial, no País. Em 2013 ele ficou de fora da comitiva dos 70 autores que vieram à feira, mas veio mesmo assim a convite da editora. Desta vez ele, Ana Martins Marques, Edney Silvestre e Eduardo Spohr são a totalidade da comitiva trazida pelo Ministério da Cultura. Eles participaram de um debate na sexta-feira à noite no Instituto Cervantes e aproveitaram para divulgar seus livros na feira. Kucinski, por exemplo, bateu na porta de um editor polonês - como seus familiares - para oferecer K. 

Há seis anos, um grupo de editores brasileiros que integra o Projeto Brazilian Publishers está sendo orientado sobre como vender direitos autorias fora do País. A Unesp e a Cortez fizeram a lição de casa e estão, a cada ano, chegando mais prontas. A Cortez, por exemplo, traduziu 35 livros infantis de seu catálogo para o inglês para apresentar na feira. “Começamos a investir de forma mais estratégica há três anos e já vendemos 23 livros para países como Colômbia, Espanha, Estados Unidos e China”, contou o diretor Antonio Erivan Gomes. Agora, a editora quer começar a traduzir trechos de obras acadêmicas. Tudo isso porque não existem muitos leitores de português atuando para editoras.

No caso da Unesp, não bastaria poder contar com alguém que fale a língua. Seria preciso ter leitores especializados em vários assuntos. Como é impossível, ela criou uma coleção de livros em inglês e está negociando a venda de um dos quatro títulos já feitos, Abolition, de Emília Viotti, para a Rússia. “Fazendo isso, quebramos uma barreira importante porque não temos como mandar para pareceristas. E esse esforço tem a ver não só com a venda de livros, mas de permitir que alguém o analise”, disse Jézio Gutierre.

A Unesp é uma das 10 casas que estão no estande da Associação Brasileira de Editoras Universitárias, que teve, pela primeira vez, um espaço próprio (de 20 m2) - em 2013, ela até tinha um espaço, mas não como um estande mesmo. “Contratamos uma especialista em mercado editorial e nos preparamos. Não é o vir por vir. Não funciona, é caro e não temos incentivo do Governo”, disse João Carlos Canossa P. Mendes, presidente da Abeu e diretor da Fiocruz.

Seis editoras gaúchas também se uniram para viabilizar um estande e tiveram o apoio do Governo do Rio Grande do Sul. São elas: Edipucrs, Dublinense, Não Editora, Arquipélago, Belas-Letras e Libretos.

Às vezes dá certo de uma editora comprar os direitos de um livro interessante. Às vezes dá certo de vender os direitos. Mas o que a feira tem se tornado, mesmo, é um importante ponto de encontro entre profissionais do mercado do mundo. Se os números forem como os de 2013, a feira deve receber mais de 7 mil expositores de 102 países, 630 agentes literários, 275 mil visitantes e 170 mil profissionais do mercado. 

Alguns escritores passam pelo famoso sofá azul durante os dias do evento ou participam de outras programações. Entre os que foram este ano, estão Paulo Coelho, Ken Follett, David Nicholls, Thomas Piketty e Herta Müller.

Pela primeira vez a feira recebeu um grupo de 500 crianças, que lotaram os corredores na sexta-feira. Também pela primeira vez a organização convidou escritores de diferentes países a pensarem questões caras à democracia. O grupo de pouco mais de 20 pessoas se reuniu durante três dias e redigiu um documento que deve estar na internet na próxima semana e que será enviado a políticos.

Enquanto agentes e editores negociam direitos em reuniões que duram entre 15 minutos e meia hora e crianças correm para cima e para baixo, é possível participar de inúmeros seminários - como os que recebem CEOs de grandes editoras.

Os profissionais foram embora na sexta e as portas foram abertas para famílias.

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