Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão
Imagem Mario Vargas Llosa
Colunista
Mario Vargas Llosa
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Feira do livro de Buenos Aires

A Argentina renasce graças à feira literária, onde mares de jovens enchem as apresentações

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2022 | 03h00

Encontro-me num café em La Recoleta com Juan José Sebreli, a quem sempre respeitei, mesmo numa época de liberalismo frenético. Na primeira vez em que nos encontramos, em Paris, muitos anos atrás, tivemos uma discussão acirrada sobre O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, que eu defendia e ele atacava por considerar um jogo um tanto superficial. Devo admitir que ele estava certo e que o deslumbramento que este romance produzia em mim perdeu muito de seu prestígio nesta época, como todos os livros que se dedicavam a jogar. Digo-lhe que os livros de Cortázar que me parecem mais importantes agora são os de histórias fantásticas. Não sei se ele concorda.

Como nasceu em 1930, Juan José Sebreli, que acaba de publicar um livro com Marcelo Gioffré, Disciplina Civil y Libertad Responsable, tem 92 anos e está firme feito um touro, defendendo suas ideias como há vinte anos – ou seja, resoluta e eficientemente. Sua última batalha – mas haverá outras – é a favor das vítimas do coronavírus, daqueles que defendeu para não serem obrigados a seguir as instruções dos médicos contra o vírus.

No segundo capítulo, certamente escrito por Sebreli, ele se lembra de seus pais, imigrantes muito modestos, que aos poucos foram subindo para depois cair como vítimas das crises econômicas que este país viveu. E em primeira pessoa Sebreli se lembra de como muitas dessas crises foram destruindo as poucas economias que os artigos lhe traziam. Aqui, nestas poucas linhas, Sebreli narra a tragédia argentina, o súbito empobrecimento deste país quando parecia despontar. E, no entanto, seu amor pelos livros não se desfigurou nem se empobreceu, como posso ver nestes dias felizes em que a Argentina comemora a volta dos livros.

Sempre tive admiração pelas coisas que Sebreli defende, ainda mais agora, porque ele aceita que o liberalismo é o que nos salva da ditadura do marxismo e nos ajuda a progredir. “O que é inaceitável – diz ele – é que os liberais sejam responsáveis pelo mercado, porque o estragariam”. Ele está em perfeita forma e seus argumentos são sólidos, como quase sempre. Seria maravilhoso chegar a essa idade com as convicções que Sebreli defende e da forma como o faz: com discernimento e riqueza de informações de livros e jornais.

É verdade que os jornais de Buenos Aires são sólidos e muito bem escritos. Aos domingos, que eu saiba, o La Nación publica os textos de Pérez Galdós. É um prazer lê-los, porque quase sempre têm um magnífico elemento de formação intelectual.

Por muitos anos eu quis passar um tempo na Argentina, sobretudo porque meu amigo José Emilio Pacheco esteve aqui como adido cultural mexicano e me levou para passear pelos sebos – ele conhecia todos – e descobrir naquelas prateleiras todo tipo de maravilhas entre as edições antigas. Não me foi possível encontrar um trabalho que me permitisse fazê-lo, e foi uma das minhas maiores frustrações porque sei que nesta cidade teria sido feliz, entre outras coisas, pelos seus cafés e seus jornais, que para mim são indispensáveis e que agora, ouço as pessoas dizerem, estão desaparecendo pouco a pouco.

Estou aqui para a Feira do Livro, que esteve fechada durante alguns anos e acaba de reabrir, com grande comoção, porque velhos e jovens – sobretudo estes últimos – estão enchendo os seminários e as novas rodas onde os livros são expostos antes de serem publicados. E me surpreende que as grandes reuniões sejam excepcionalmente respeitosas.

O outono está acabando e ninguém diria que o inverno se aproxima, porque desde cedo se vê um sol que aquece e levanta o ânimo das pessoas. Neste clima paradisíaco, ninguém parece estar lidando com política, mas a América Latina está passando por um de seus períodos mais difíceis e ameaça tocar o fundo de sua ruína – por exemplo, os peruanos com o presidente analfabeto que vieram a eleger para nos governar por cinco anos.

E, no entanto, aqui as livrarias estão cheias de gente e livros, e parece que todo mundo começou a ler. Desde a primeira vez em que vim à Argentina, esta cidade me pareceu a mais literária da América Latina, e me lembrei da minha infância em Cochabamba, onde o carteiro vinha carregado de livros sempre argentinos para meus avós e minha mãe e até mesmo para mim: Leoplán, para meu avô, Para Ti, para minha mãe e minha avó, Billiken, para mim. A Argentina fazia ler a todos nós latino-americanos, então era lógico e natural sonhar – Paris viria depois – com a Argentina, que tinha as melhores editoras da América Latina. O que aconteceu com aquela Argentina que fazia todos os latino-americanos lerem? Onde ela se escondeu e se apagou?

Mas hoje ela renasce, graças à Feira do Livro. Há mares de jovens e a verdade é que eles enchem todas as apresentações de livros novos e os debates. As sessões não devem durar mais de uma hora, por recomendação dos médicos, e a verdade é que terminam na hora, apesar das caras tristes e carrancudas dos espectadores. Até a Espanha está presente, numa nova edição do livro da ex-porta-voz do Partido Popular, Cayetana Álvarez de Toledo, que ouvi ontem à noite no Clube Espanhol, que, aliás, tem um local magnífico bem no centro de Buenos Aires.

Alejandro Roemmers, autor que também é empresário, adquiriu os manuscritos de Jorge Luis Borges em todo o mundo e os exibirá no local dedicado à defesa do livre mercado e da autonomia, como o faz Gerardo Bongiovanni com todo o empenho. Muitos dos participantes da Feira do Livro se inscreveram para esta visita. É curioso o caso de Jorge Luis Borges, o escritor mais lido e seguido de todo o mundo, entre os escritores da nossa língua. E, no entanto, quando começou a ser conhecido, já estava cego e havia começado aquela limitação que o deixou inválido em seus últimos anos. Mas sua viúva, María Kodama, que organizou várias exposições da obra de Borges em meio mundo e está determinada a fundar em Buenos Aires um museu que lembre sua memória, foi uma viúva exemplar, promotora dos livros de seu marido e, sem dúvida, estará em Rosário, na exposição de seus manuscritos.

No café onde Sebreli e eu estamos sentados há duas estátuas nas quais as pessoas reconhecem Borges e Bioy Casares, e tiram fotos com eles porque, aparentemente, ambos moravam por aqui e se encontravam todos os dias na hora do café da manhã. Há uma longa fila de pessoas esperando para serem fotografadas ao lado dessas glórias locais que as pessoas lembram e não deixam morrer. Aqui, devotamente, está o segredo desta cidade, a mais literária que conheço depois de Paris. Borges e Bioy Casares são uma das melhores coisas que aconteceram a esta terra, e todos os nascidos aqui se orgulham deles e não permitirão que sejam esquecidos. Fazem a coisa certa, é claro. Os escritores não são menos importantes que as glórias militares. Uns e outras compõem aquela fraternidade que mantém viva uma nação. / TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.