REUTERS/Ralph Orlowski
REUTERS/Ralph Orlowski

Feira de Frankfurt traz o novo papel político do autor latino

Durante o evento, escritores revelam como filtram a realidade na escrita

Ubiratan Brasil / FRANKFURT, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2018 | 06h00

A essência continua sendo a negociação de direitos autorais e, nesse trabalho, a busca incessante pelo próximo best-seller. Mas a Feira do Livro de Frankfurt, a maior do mercado editorial mundial, busca, em sua 70.ª edição, explicações urgentes para a intrincada geopolítica mundial. Para isso, aumentou o número de debates sobre o tema em relação aos anos anteriores. Por conta disso, acreditam os organizadores, cresceu a quantidade de autores latino-americanos e também africanos que, ao lado de europeus e norte-americanos, arriscam argumentos que possam entender fatos como a tendência conservadora que vem dominando a política de muitos países.

“Vivemos um momento com mais dúvidas do que explicações”, observou o alemão Lutz Kliche, que mediou, na manhã de ontem, um rápido encontro entre latinos (o brasileiro João Paulo Cuenca, a chilena Vivian Lavin, a argentina Carla Maliandi e o mexicano Jaime Labastida), que conversaram sobre a influência da política na literatura. De fato, em meio a tanta incerteza, a argentina Carla falou em “vagar sem rumo” no meio de uma “espécie de orfandade” que é a representação de seu país mais atual.

Já Cuenca, ainda movido pelo calor das eleições do domingo, afirmou taxativo que a literatura precisa funcionar como “uma máquina de destruição de certezas”. Para ele, nenhum poder pode ser absoluto e até mesmo a literatura deve vir abaixo caso se julgue inabalável. “É impossível ser objetivo nos dias atuais – o texto de qualquer escritor precisa ter um forte tom subjetivo”, acrescentou.

A chilena Vivian Lavin acrescentou mais detalhes à distorção política que, muitas vezes, caracteriza o continente latino. “Em meu país, a Constituição em vigor ainda é a do tempo do ditador Augusto Pinochet. Ou seja, vivemos um período pós-ditadura, não podemos dizer que se trata de uma democracia plena”, comentou a autora, ressaltando que ainda persiste uma espécie de vergonha entre alguns chilenos para reconhecer que houve uma ditadura no Chile.

Apesar de rápido, o debate apresentou bons momentos, assim como no encontro que aconteceu um pouco mais tarde, agora reunindo expoentes da nova geração latina – entre eles, o brasileiro Geovani Martins. Ali, todos os autores defenderam a criação literária como um processo autônomo, independentemente de compromissos políticos específicos. “Milito politicamente na vida, mas, na literatura, não milito por qualquer causa – na verdade, quanto mais degenerados são meus personagens, melhor”, disse a argentina Ariane Harwicz, que hoje vive numa região campesina da França. Ela ganhou destaque depois que seu romance Matate Amor entrou na primeira lista do Man Booker Prize.

Segundo Ariane, o romance não foi escrito sob a óptica feminista, mas a crítica ressaltou esse detalhe, o que não a incomodou. Também sem se preocupar muito com os rótulos colocados em seus romances, o americano, filho de pai argentino e atualmente residente no Chile, Mike Wilson garantiu que, ao escrever, não se sente preso a nenhuma corrente ou linha ideológica. “Tenho uma visão muito dogmática: quando escrevo, não me coloco a serviço de ninguém nem do mercado”, disse ele, cujas palavras contrastavam com a do mexicano descendente de exilados espanhóis Antonio Ortuño.

Seus avós fugiram do governo franquista e se instalaram no México. Assim, no romance intitulado justamente de México, ele narra a história de duas migrações: a dos republicanos que fugiram da violência da Espanha no passado e a dos mexicanos que hoje fazem o caminho inverso, também escapando da violência que marca seu país. “Uma geração e meia após a chegada dos imigrantes espanhóis hoje busca fugir de um país colapsado, aproveitando que a descendência permite tirar um passaporte espanhol. Só que esses não estão em busca apenas de um lugar para morar, mas principalmente de um lugar onde não sejam alvos de tiros.”

O tema imediatamente trouxe à discussão o brasileiro Geovani Martins, cujo livro de contos O Sol na Cabeça (Companhia das Letras) já foi traduzido para dez países, inclusive a Alemanha. Questionado pela mediadora Corinna Santa Cruz sobre sua expectativa em relação ao sucesso da obra (que já chegou em sua quinta edição ao Brasil), Martins, com seu jeito habitualmente descolado de se expressar, foi direto ao assunto: “Não tinha nenhuma pretensão, mas, pelo fato de ser negro e favelado, eu sabia que só teria sucesso se apresentasse um livro acima da média”.

Ele contou que, de todos os momentos positivos provocados pela obra, o que o deixou mais feliz foi descobrir que O Sol na Cabeça foi lido em diversas favelas cariocas. “Muitos jovens vieram me dizer que esse foi o primeiro livro que leram na vida”, orgulhou-se ele, ressaltando um detalhe decisivo do livro: em nenhum momento, os personagens são identificados como negros. “Mas os leitores, que já estão condicionados a relacionar o ambiente da favela aos negros, não perceberam isso e imediatamente viam os personagens como negros.”

Em sua primeira viagem fora do Brasil, Geovani Martins vem se acostumando às novas realidades. No dia anterior, por exemplo, conheceu pessoalmente seus editores alemães. E ontem, depois da palestra, foi procurado por uma jornalista italiana, que o convidou para publicar algum conto no jornal Corriere Della Sera. “Tudo isso é legal, mas quero me isolar para escrever meu primeiro romance”, cochichou para o repórter.

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