ARNE DEDERT / AFP
ARNE DEDERT / AFP

Feira de Frankfurt termina com Prêmio da Paz para o casal Jan e Aleida Assmann

O reconhecimento é importante por valorizar ações humanitárias de importância mundial

Ubiratan Brasil / FRANKFURT, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2018 | 06h00

Com os corredores tomados por visitantes – os negócios entre editores se encerraram na sexta-feira –, a 70ª Feira do Livro de Frankfurt terminou ontem com a consagração do casal Jan e Aleida Assmann, escolhidos para receber o Prêmio da Paz deste ano. Oferecida pela Associação dos Livreiros Alemães, a outorga anual é importante por valorizar ações humanitárias de importância mundial. O casal Assmann, pesquisadores de formação, foi escolhido por seu trabalho de destacar a memória histórica, um fato raro na época atual em que vigora com força o revisionismo.

“Tomamos uma decisão política e atual. Em tempos de extremismo, temos que lidar com o nosso passado”, justificou o presidente da associação, Heinrich Riethmüller. De fato, Jan é egiptólogo e Aleida, especializada em literatura inglesa. Ambos buscam alargar as fronteiras de suas disciplinas e isso, curiosamente, foi o que os aproximou: Aleida tinha a egiptologia como matéria secundária e Jan era interessado por autores de língua britânica. “Na verdade, ele não era um apaixonado, mas gostava de ler textos em voz alta o que me ajudava a dormir”, brincou Aleida, em entrevista para jornalistas.

O notável é que o interesse cruzado ultrapassou a fronteira das salas de aula e eles conseguiram organizar grupos extracurriculares, com um trabalho interdisciplinar desenvolvido fora do currículo da universidade onde ministram suas aulas. Foi daí que os Assmann perceberam a importância da memória, que se tornou a chave de seus trabalhos. 

“Na Alemanha, acredita-se que, entre os dois, há uma espécie de divisão de trabalho e que, enquanto Jan dedica-se à pesquisa acadêmica, Aleida assume uma postura mais ensaísta, que é confrontada com debates atuais de diferentes formatos”, observa o jornalista Rodrigo Zuleta, da agência de notícias EFE.

Segundo ele, Aleida gosta de discordar dessa afirmação, sustentando que ela também fez pesquisa acadêmica básica, especificamente em torno do tema da memória na medida em que precisou definir uma série de conceitos que foram aplicados em seus trabalhos concretos. Sua reflexão sobre a forma como os alemães confrontam seu passado teve um momento decisivo há 20 anos, durante o discurso do escritor Martin Walser justamente ao receber este Prêmio da Paz, em 1998. Em sua fala, Walser provocou um escândalo, que logo gerou um acalorado debate, ao falar sobre uma “instrumentalização de Auschwitz” por setores interessados.

“Foi como um chacoalhão: Jan e eu somos de gerações depois da guerra, diferente de Walser e Günter Grass, que viveram diretamente o conflito”, observa Aleida. “Foram homens daquela época que começaram com o trabalho da memória histórica, e o próprio Walser fez contribuições importantes.”

Harry Potter.

Foi uma bem armada tentativa – há algumas semanas, a editora alemã Carlsen Verlag vinha convocando fãs de Harry Potter a comparecer fantasiados em um evento programado para a tarde de sábado, 13, em um grande salão da Feira de Frankfurt, o Harmonie, onde habitualmente acontece a cerimônia de abertura da feira. O objetivo era reunir ao menos 1.000 leitores vestidos como alguns dos personagens para bater o recorde mundial, que é de 997 fanáticos. O desafio impunha ainda um evento que durasse pelo menos 100 minutos, com shows de leitura e jogos de perguntas e respostas. Tudo isso para coroar os 20 anos de lançamento na Alemanha do primeiro livro da saga, Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Até o italiano Iacopo Bruno, responsável pelas ilustrações das edições comemorativas, compareceu, vestindo uma capa preta e com o indefectível raio desenhado na testa. Esperto, ele foi diplomático ao ser perguntado qual seu personagem preferido. “(A criadora da série) J.K Rowling, que criou todo esse mundo maravilhoso”, respondeu.

A julgar pela movimentação da sala de espera do Congress Center, recheado de bruxinhos e Hermiones, parecia que o recorde seria estabelecido. Para oficializar a marca recorde, estava ali a postos Olaf Kuchenbecker, juiz recordista, membro do Record Institute for Germany (RID), que chancela os novos feitos. Ele acompanhou atentamente a cerimônia e, antes disso, contou todos os participantes. Ao final, um infeliz veredicto: não foi possível atingir a marca mil, o que deixou decepcionados os mais fanáticos. Restou a cada um levar um certificado de participação. Não foi informado o número de participantes presentes.

Nos corredores

Recorde

O número de livros autopublicados ultrapassou, pela primeira vez na história do mercado editorial, a marca de um milhão. A agência Bowker anunciou que, em 2017, a cifra mundial atingiu 1.009.188 de obras editadas diretamente por seus autores, quantidade 28% superior à de 2016.

 

Nova obra

Já Colson Whitehead, que ganhou o prêmio Pulitzer de 2017 por The Underground Railroad (Harper Collins), obra que apresentou na Flip neste ano, assinou contrato para lançar seu novo livro. Previsto para 2019, The Nicked Boys conta a história de dois garotos condenados a viver em um reformatório na Flórida.

 

Minha história

Também o ator Will Smith assinará um livro, em parceria com Mark Monson, com suas memórias. Segundo o material promocional, será “a inspiradora história de como o autoconhecimento o impulsionou para o sucesso, e ainda permitiu sua evolução”.

 

Descanso

No espaço dedicado ao país convidado da Feira de Frankfurt, a Georgia montou estandes minimalistas, sem grandes estruturas. E o que faz mais sucesso é o dedicado ao descanso: em uma sala fechada, sob uma música relaxante, o visitante acompanha projeções nas quatro paredes de imagens em preto e branco de escritores georgianos. Captadas em alta definição, as cenas mostram gestos dos autores em câmera lenta, o que provoca um inevitável relaxamento.

 

Antecipação

Segundo os editores, foi o extraordinário calor que esquentou Frankfurt na semana passada e afastou as pessoas da feira. O fato é que era perceptível um número menor de público circulando pelos largos corredores da feira. Com isso, a tradicional venda de livros promovidos principalmente pelas editoras de países distantes (o que evita pagar o pesado frete da volta) começou no sábado, um dia antes que o habitual.

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