Pierre Claesz/Metropolitan Museum of Art
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Fazer valer

A morte não precisa ser revoltante – o problema é ela ser o fim desnecessário de uma vida inútil

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 03h00

A noção de morte vem em vários estágios ao longo da vida. Desde criança, nós aprendemos a teoria do que seja morrer, mas nessa idade ainda nem se foi exposto a muitas experiências de perdas significativas nem se tem aparato mental suficiente para apreender este conceito de forma abstrata.

Tal apreensão normalmente vem na adolescência, quando descobrimos que todos vamos morrer. Por essa época, já é mais comum ter-se vivido algum luto, e o sentido das coisas começa a ser questionado nas típicas crises existenciais tão frequentes nessa idade.

Com o avançar dos anos, passamos disso, que poderíamos chamar de uma aproximação teórica do tema, para uma aproximação literal – a morte vai ficando mais perto, e já passa a ser uma realidade a ser considerada em nossas decisões de vida. Até que, por fim, ela se impõe.

Parece uma abertura um pouco depressiva para um artigo, mas não é essa a ideia. A morte não precisa ser revoltante – o problema é ela ser o fim desnecessário de uma vida inútil. Pelo menos é o que pensam os “camisas-vermelhas”, uma das populações com maior risco de morrer no mundo da ficção.

A gíria nunca pegou no Brasil, mas nos EUA “red shirts” se referia a alguém de menor importância, que poderia ser sacrificado a qualquer momento. Sua origem remete ao seriado Star Trek, pois sempre que o capitão Kirk, Spock e Dr. McCoy chegavam a um planeta acompanhados de um personagem figurante com uniforme vermelho, aquele do grupo de engenharia e operações, esse sujeito inevitavelmente morria.

Isso inspirou o escritor Jon Scalzi a escrever há alguns anos o romance de ficção científica Red Shirts, lançado agora no Brasil pela editora Aleph. No livro, um grupo de tripulantes da Intrepid percebe que “há algo muito estranho acontecendo nessa nave”, como passam a dizer quando notam esse padrão de mortes recorrentes de oficiais de baixa patente – na maioria das vezes, mortes aparentemente absurdas ou mesmo desnecessárias – nas missões exploratórias em que os oficiais mais graduados estão presentes. Sua investigação leva a descobertas surpreendentes, que não posso adiantar para não correr o risco de dar um belo de um spoiler.

O que posso dizer, contudo, é que no final das contas os personagens nos mostram que o revoltante para eles não é morrer – já que, sendo adultos e sobretudo tendo optado por uma carreira arriscada, sabem que a morte é o fim inevitável. Todo mundo morre, isso é igual para todos. O que nos diferencia é a vida que levamos e os motivos pelos quais nos sacrificamos. Pode não se tratar exatamente de uma novidade, mas é uma lembrança sempre bem-vinda, que nos ajuda a colocar em perspectiva as sucessivas aproximações que notamos da indesejada das gentes, conforme se diz.

O mais saboroso é que essa mensagem não está explícita ao longo da trama, mas em três “codas”, espécie de arremates utilizados para dar um fechamento ao livro. E ali fica evidente o que desde o início deveríamos saber: o esforço, o capricho, a dedicação, tanto ao trabalho como aos outros, é o que traz sentido de fato à nossa vida. E, quando a vida tem sentido, a morte é apenas mais uma coda.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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