Suzanne Plunkett/ Reuters
Suzanne Plunkett/ Reuters

Fãs de Harry Potter reimaginam seu mundo sem sua criadora

Comentários da escritora J.K. Rowling sobre identidade de gênero vêm motivando ações de repúdio de seus leitores

Julia Jacobs, NYT

16 de junho de 2020 | 08h15

Quando J.K. Rowling foi acusada de transfobia há cerca de dois anos por dar uma curtida em um tweet que se referia a mulheres trans como "homens de vestido", grande parte dos fãs de Harry Potter tentou dar a sua amada autora o benefício da dúvida. Talvez tenha sido apenas um acidente, um "momento de vacilo e de meia-idade", como disse o porta-voz de J.K. Rowling na época.

Então, as pessoas perceberam que J.K. Rowling seguia comentaristas no Twitter que descreviam mulheres trans como homens. Em dezembro, ela deixou suas opiniões pessoais mais claras quando expressou apoio entusiástico a uma pesquisadora britânica que entrou com uma ação contra seu ex-empregador, alegando que havia sido discriminada por suas visões "críticas de gênero" (ou seja, sua postura quanto à fixação do sexo de nascimento de alguém).

"Parecia que estávamos esperando o inevitável acontecer", disse Melissa Anelli, uma líder de fãs de Harry Potter que é coproprietária do site dedicado ao tema Leaky Cauldron.

Esta semana, aconteceu (o que se temia).

Primeiro, J. K. Rowling criticou um artigo que usou a expressão "pessoas que menstruam”, sugerindo que era errado não usar “mulheres” em uma tentativa equivocada de incluir pessoas trans. Quando ela recebeu uma resposta negativa, publicou um texto de 3.700 palavras sobre gênero, sexo, abuso e medo: “Eu me recuso a me curvar a um movimento que acredito estar causando danos demonstráveis ao tentar desgastar 'mulher' como classe política e biológica e oferecendo cobertura aos predadores ".

Os fãs de Potter - o primeiro livro foi publicado há 23 anos, criando uma das legiões de fãs mais duradouras do mundo online - começaram a conversar. Algumas discussões foram tensas, como quando os fãs que simpatizavam com as opiniões de J. K. Rowling entraram em conflito com os fãs que consideravam o posicionamento da autora abominável. Outros achavam que poderiam simplesmente se afastar da política do mundo real e se concentrar no que está acontecendo no mundo bruxo.

Entre os fãs que rejeitam veementemente as opiniões de J. K. Rowling, a discussão é em relação a como se distanciar ou se separar da autora que criou um mundo de fantasia que inspira suas vidas diariamente.

‘Nós criamos o fandom’

Eles ouvem podcasts sobre cada capítulo dos livros, fazem tatuagens com o brasão de Hogwarts ou o símbolo das Relíquias da Morte e participam de conferências sobre a saga como a LeakyCon, que atrai milhares de fãs todos os anos. Alguns até construíram suas carreiras com base no tema.

Na semana passada, alguns fãs disseram que decidiram simplesmente se afastar do mundo (de Harry Potter), que abrange sete livros, oito filmes e uma franquia em constante expansão. Outros disseram que estavam tentando separar o artista da arte para permanecer no fandom enquanto denunciam alguém que já foi considerado realeza.

J.K. Rowling nos deu Harry Potter; ela nos deu este mundo ”, disse Renae McBrian, uma autora de ficção juvenil que é voluntária no site de fãs MuggleNet. “Mas nós criamos o fandom, e criamos a magia e a comunidade nesse fandom. É nosso dever manter isso."

O ensaio foi particularmente decepcionante para fãs trans e não-binários, muitos dos quais encontraram consolo no mundo de "Harry Potter" e costumavam ver as obras como uma maneira de escapar da ansiedade.

Rori Porter, escritora e designer digital que começou a ler os livros cerca de duas décadas atrás, aos 10 anos, ouvia os audiolivros como uma maneira de relaxar e adormecer - até que a controvérsia de J. K. Rowling explodiu em dezembro. Rori, que é uma mulher trans, o que, de acordo com sua experiência, significa que ela foi designada como homem ao nascer, mas se identifica com um gênero feminino, parou de ouvir Prisioneiro de Azkaban na metade e não recomeçou. A obra não parecia mais aterrorizante e nostálgica, mas indutora de estresse.

Rori disse que precisa de uma pausa da obra (e não planeja dar a J. K. Rowling um centavo nunca mais), mas ela acha que poderá revisitar os audiolivros um dia. "Eu não quero dar a J.K. Rowling, a satisfação de me tirar algo que eu amava quando criança”, ela disse.

Para Talia Franks, que não é binária e trabalha com um grupo ativista chamado Harry Potter Alliance, os comentários de J. K. Rowling foram perturbadores e desmoralizantes. Mas eles disseram que não terão problemas em continuar escrevendo suas fanfics (onde existem personagens queer em abundância), participar de shows do Wizard Rock e da comunidade online Black Girls Create, onde discutem frequentemente sobre Harry Potter.

"Eu não preciso de J.K. Rowling de maneira alguma ”, disse Talia.

As organizações de fãs que servem como repositórios de notícias de nicho, fornecendo atualizações acerca dos planos para a série de filmes Animais Fantásticos e os resultados regionais do campeonato de Quadribol, estão procurando maneiras de afirmar aos fãs trans e não-binários que são bem-vindos nessas comunidades. Os líderes do fandom estão se unindo para apresentar uma declaração unificada condenando os comentários de J. K. Rowling, disse Kat Miller, diretora criativa do MuggleNet.

O que ajudou a melhorar os ânimos foi vários atores dos filmes de Harry Potter terem se pronunciado para afirmar identidades transgêneros, incluindo Daniel Radcliffe, que interpretou Harry; Emma Watson, que interpretou Hermione; Rupert Grint, que interpretou Ron; e Katie Leung, que interpretou Cho. (J. K. Rowling também recebeu uma crítica recente à personagem Cho Chang, cujo nome é tão fraco quanto sua caracterização.)

J. K. Rowling e o caso da metáfora do banheiro

O ensaio de J. K. Rowling, publicado na quarta-feira, critica o termo TERF, acrônimo para Trans Exclusionary Radical Feminists (em português Feministas Radicais Trans-Excludentes), descrevendo-o como um insulto usado para silenciar mulheres como ela na internet. Ela repetiu várias informações equivocadas que são pontos de discussão comuns para essa associação livre de pessoas e afirmou que o "movimento" liderado por ativistas transgêneros está corroendo a noção de feminilidade e "oferecendo cobertura a predadores como poucos antes o fizeram". Como uma espécie de explicação para esse medo, J. K. Rowling relatou memórias de um ataque sexual quando tinha 20 e poucos anos.

"Quando você abre as portas dos banheiros e dos vestiários para qualquer homem que acredite ou se sinta mulher", escreveu ela, "então você abre a porta para todo e qualquer homem que deseje entrar."

A ideia de que permitir que pessoas trans usem banheiros de acordo com suas identidades coloca em risco outras pessoas - sujeitando-as a um risco maior de agressão e violações de privacidade - foi manifestada com maior destaque por legisladores conservadores para impedir que a legislação com base no gênero seja aprovada. Não há evidências para respaldar suas reivindicações. Os pesquisadores descobriram que jovens trans e não binários enfrentam um risco maior de agressão sexual quando lhes é negado o uso de banheiros ou vestiários apropriados. Em uma pesquisa realizada em 2017 com estudantes LGBTI+, a organização GLSEN descobriu que os estudantes diziam que o banheiro era o espaço mais evitado e inseguro para eles.

J. K. Rowling também twittou que "eu respeito o direito de toda pessoa trans de viver da maneira que lhe parecer autêntica e confortável”.

O momento da publicação também foi questionado. Muitas pessoas escreveram que ficaram furiosas com a decisão de J. K. Rowling de publicar um ensaio tão focado em si mesma no momento em que os Estados Unidos são consumidos por discussões sobre racismo e brutalidade policial que estão mudando instituições, incluindo a mídia, os departamentos de polícia e as escolas. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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