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Falsa impressão

Federico Andahazi discute sexo e poder ao mesmo tempo em que desmistifica Gutenberg

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2013 | 02h15

Federico Andahazi é o primeiro a observar que O Livro dos Prazeres Proibidos é sua publicação mais intensa. O motivo está em surpreender o leitor que, crente de desfrutar uma obra de ficção, é logo informado de que boa parte das ações aconteceu e pode ser comprovada por documentos verdadeiros.

Como de hábito, o escritor argentino gosta de discutir relações de poder. E, se sua narrativa se concentra em uma turbulenta cidade alemã do século 15, Andahazi, na verdade, oferece um olhar crítico sobre a atualidade. Para ele, não se pode compreender a história de um país se não à luz de sua sexualidade. A recíproca é verdadeira: não se entende a forma que cada um exerce sua sexualidade se se desconhece a história política e social de uma nação.

Daí o tom deliberadamente picante de sua narrativa, uma lascívia cuja função é dupla: entreter e fomentar dúvidas e comparações. Sobre o assunto, o escritor, que participou no início do mês da Feira do Livro de Porto Alegre, onde promoveu o lançamento de seu livro no Brasil, respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

O Livro dos Prazeres Proibidos aborda o problema da censura no exato momento em que o tema se tornou atual na Argentina. Conhecendo o tom político da sua obra, não creio que foi coincidência, não?

O passado é sempre um estratagema para falar do presente. Toda história, mesmo que ambientada na Idade Média, é uma parábola da atualidade. Um autor nunca pode fugir da sua época, mesmo que se proponha a isso. Na verdade, o romance na essência fala da permanente tensão entre a liberdade de pensamento e o poder. Os políticos argentinos costumam usar uma frase curiosa, que vêm repetindo cada vez com mais frequência - para manifestar sua lealdade à presidente, afirmam com orgulho: "não sou um livre pensador, sou um militante".

Isso ainda é comum?

Sim. Quem assim se expressou há pouco tempo foi o vice-governador da Província de Buenos Aires e a frase também foi repetida pela chefe da bancada oficialista da Câmara dos Deputados. Os militares da ditadura também se ampararam nela para justificar os crimes contra a humanidade, a tristemente célebre "obediência devida" (cumprimento de ordens). De um lado, é a síntese do fanatismo e, de outro, uma justificativa para o indivíduo se libertar das responsabilidades no futuro. Mas ocorre que o ofício do intelectual é precisamente o exercício do livre pensar. Fico surpreso com aqueles colegas escritores que costumam pronunciar essa mesma frase.

Por que?

Porque eles renunciaram não só à independência, mas ao pensamento. No caso daqueles que, como nós, resistem a abandonar o pensamento crítico, as coisas não são simples. Como, à época em que surgiu a imprensa, em meados do século 15, o poder insiste em ser o dono das palavras, das ideias, dos livros e do pensamento das pessoas e silenciar todo aquele que se oponha a isso.

A grande invenção de Gutenberg é que de algum modo, usando termos do presente, ela democratizou a leitura. O livro, então, deixa de ser sagrado e passa a ser profano. Creio que o livro tem uma relação muito direta com os novos formatos eletrônicos e com o poder das redes sociais e dispositivos como celulares. O senhor acha que já estamos diante de uma mutação antropológica, de uma ciber-humanidade nascida numa ciberesfera?

Para responder a esta pergunta, é necessário dizer de início quem foi realmente Gutenberg. Para mim, é o personagem mais importante da História. Graças a ele, o saber foi democratizado como nunca antes se observou. Contudo, poucos sabem que Gutenberg jamais inventou a imprensa. Ela jamais ocorreu, é um fato mítico. Gutenberg construiu um engenhoso dispositivo para falsificar manuscritos. Na Idade Média, uma Bíblia implicava um trabalho de dois anos de copistas, iluminadores e encadernadores. O preço de um manuscrito era equivalente ao de um palácio em qualquer cidade da Europa.

Como ele fez isso?

Na imprensa clandestina que montou numa abadia em ruínas, Gutenberg conseguiu fabricar a primeira Bíblia falsa. Era impossível diferenciá-la de uma feita à mão e só exigia um dia de trabalho. A fraude durou pouco tempo. Ele foi descoberto em flagrante e levado a juízo. Quando a Igreja descobriu o potencial da sua invenção, deparou-se com dois cenários: um bom e outro aterrador. O bom era que, graças à imprensa, poderia difundir os livros sagrados em grande escala. E o mal era que o temido Index Librorum Prohibitorum, a lista dos livros proibidos, poderia inundar as bibliotecas e as mentes dos futuros leitores ávidos de conhecimentos não sagrados.

E o que seria do futuro do livro se ele não tivesse feito isso?

Sem o surgimento deste maravilhoso fraudador, o livro teria continuado a ser um objeto sagrado e jamais teriam surgido os escritores. A partir de Gutenberg, a literatura tornou-se literalmente uma profanação, um delicioso sacrilégio. Mas talvez o mais interessante é que o primeiro livro impresso foi um livro pirata. Toda a indústria editorial teve por base aquela fraude original. Hoje ocorre o mesmo - o primeiro livro eletrônico foi um arquivo criado para piratear um livro em papel e difundi-lo pela internet. Se podemos ler e também escrever nos celulares, é graças a um hacker que, sem se propor a isto, criou a indústria do "e-book", o livro eletrônico.

O livro mostra uma mudança do poder, ou seja, a imprensa de Gutenberg surge como uma enorme ferramenta de democratização e difusão contra uma Igreja detentora de todos os poderes. Como vê essa mudança?

O poder sempre concebe ideias para preservar o status quo. Como disse antes, é certo que o livro impresso democratizou a difusão das ideias e o livro deixou de ser sagrado para se tornar profano. Mas a condição sacrílega do livro durou muito pouco tempo. Quando o poder não pode ir contra a corrente, então ele a bendiz e a declara santa. Foi o que sucedeu com os livros. Rapidamente, a literatura teve de abandonar sua luta contra a censura para combater algo muito mais destrutivo: a sacralização. Hoje, lamentavelmente, a literatura voltou a ser sagrada.

Como assim?

O poder construiu um pedestal de mármore, alto e escorregadio, de modo que são poucos o que desejam chegar a ela. O mais patético é que muitos escritores acreditam nesse papel de clérigos laicos e andam pelo mundo predicando, crendo-se superiores ao resto dos mortais. Esquecem que são filhos de um fraudador chamado Gutenberg e não daqueles que o julgaram.

O livro também narra uma história policial. O senhor acha que existe uma forte relação entre a literatura de suspense e a psicanálise, no sentido de que existe sempre, em ambas, uma verdade oculta a ser descoberta?

Há muito tempo deixei de ser psicanalista. Neste sentido, também me declaro agnóstico. Mas sim, de fato, O Livro dos Prazeres Proibidos é essencialmente uma história policial clássica. Começa com um homicídio e, a partir desse momento, o leitor vai desejar saber quem é o assassino. Contudo, não creio que se trata de descobrir uma verdade oculta. Talvez esteja mais inspirada na vertente de Edgar Alan Poe de A Carta Roubada, em que ninguém consegue ver a verdade porque ela está, precisamente, diante dos olhos de todos. A condição para um romance policial funcionar é colocar à vista do leitor todas as pistas para que, casualmente, ele consiga descobrir o assassino.

Quando surgiu a ideia que lhe inspirou a escrever O Livro dos Prazeres Proibidos?

A ideia original não incluía Gutenberg. Deveria ser uma história de suspense ambientada na época em que foi desencadeada uma guerra surda entre os primeiros impressores e os últimos copistas. Sempre me pareceu fascinante a figura do monge copista. Os copistas passavam dias, meses, anos, gerações, copiando símbolos cujo sentido ignoravam. Eram iletrados, analfabetos. Deste modo, os textos estavam a salvo. Quem não sabe ler não pode adulterar um livro. Eu me pergunto até que ponto cada um de nós não é, no fundo, um monge copista: vivemos praticando atos de maneira automática, repetitiva, sem discernimento, sem entender o porquê e para quê. É muito inquietante a ideia de alguém ter escrito nossa existência e nós não fazemos mais do que repetir coisas sem compreender seu sentido.

Até que ponto é importante o ingrediente sexual neste livro?

O sexo é um dos principais pilares da história. A relação entre o poder, a sexualidade e o afã pelo controle do desejo é o elemento principal que atravessa a história do princípio ao fim, até hoje. No romance, aparece um livro mítico, o Libri Voluptation Pribiturum, ou seja, O Livro dos Prazeres Proibidos. Naquelas páginas, estavam todos os segredos da sexualidade desde a época da Babilônia até a Idade Média. A Igreja ignorava se esse livro existia de verdade, mas a ideia de que ele poderia se massificar, graças ao dispositivo inventado por Gutenberg, era aterrorizadora. O leitor vai tentar descobrir a mesma coisa que o assassino procura: quem esconde O Livro dos Prazeres Proibidos. Claro que não vou contar o final do livro.

O LIVRO DOS PRAZERES PROIBIDOS

Autor: Federico Andahazi

Tradutor: Luís Carlos Cabral

Editora: Bertrand Brasil

(294 páginas, R$ 30)

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