Javier Gonzalez Burgos
A tristeza explicada em imagens no livro 'Emocionário' Javier Gonzalez Burgos

Falar sobre sentimentos é a base de um 'lar-refúgio-fortaleza', diz autora de 'Emocionário'

Dicionário ilustrado que ensina para crianças o significado dos sentimentos já vendeu 30 mil exemplares no Brasil

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2020 | 14h00

Um dicionário ilustrado com o significado dos sentimentos. Assim é Emocionário, livro dos espanhóis Cristina Núñez Pereira e Rafael Valcárcel, que faz sucessos nas escolas e casas com crianças. Cristina respondeu a algumas perguntas por e-mail sobre sua obra que já vendeu 30 mil exemplares no Brasil e que pode ajudar famílias que ainda estão em isolamento e tendo de lidar com os efeitos da pandemia na saúde mental das crianças.

O que a motivou a escrever esse livro?

Escrevemos o Emocionário porque era o livro que estávamos procurando nas livrarias para ajudar uma criança a compreender e expressar seus sentimentos e emoções. Embora encontrássemos belas propostas de contos ou livros específicos dedicados a uma emoção, fazia falta um dicionário direcionado às crianças menores. E como não o encontramos, decidimos criá-lo. É verdade que depois o livro funciona tanto com crianças como com adultos, e é isso que o torna maravilhoso: tudo o que acontece quando o livro é fechado, todas as conversas que surgem no calor da sua leitura.

Nunca foi tão importante falar sobre os sentimentos com as crianças quanto neste momento de isolamento. Está tudo à flor da pele e as elas estão tendo de lidar com sensações desconhecidas ou que não tinha maior repercussão interna quando elas levavam uma vida normal - de escola, passeio, visita à família... Você concorda? Como aproximar essas questões das crianças que, de uma forma geral, foram afetadas pela pandemia?

Claro, nós, como adultos, estamos lidando com uma situação desconhecida, cheia de incertezas e que pode nos deixar inquietos e gerar sentimentos bastante inquietantes. No entanto, no caso das crianças, temos de perceber que muitas, muitas coisas no mundo são novas para elas. Para algumas crianças, a pandemia pode ter parecido tão novidade quanto ir à escola pela primeira vez ou ir para o acampamento pela primeira vez sem a família, etc.

O importante é falar, como vocês bem destacaram, agora e sempre. É por isso que é importante usar um vocabulário rico sobre emoções e sentimentos para poder expressar todas as nuances do que sentimos. E acreditamos que também é muito importante “normalizar” o hábito de falar de sentimentos, torná-lo habitual, aprender a expressá-los de forma gentil e respeitosa e torná-los parte constante da comunicação, tanto com a família como na escola ou com os amigos.

Os adultos devem dar o exemplo e conversar com elas, confiar em sua capacidade de compreensão e entender que elas sentem com a mesma intensidade e a mesma riqueza de nuances que nós. Podemos partilhar a nossa incerteza (sem sobrecarregá-las), fomentando assim o seu sentimento de pertencimento, acalmando-as face à tensão que possam estar "sentindo" no ambiente e pode até ser terapêutico para nós, pois ao partilhar a nossa incerteza, a nossa tensão ou a nossa preocupação também nos sentiremos consolados.

Depois de mergulhar em todos esses sentimentos para escrever o livro, o que diria aos pais neste momento, depois de tudo o que presenciamos e vivemos?

Que não deixem de falar com seus filhos e filhas, que compartilhem as suas emoções nos dois sentidos: ouvindo atentamente e ajudando os pequenos a exprimir o que sentem e ousando partilhar os próprios sentimentos para criar um clima de diálogo, cordialidade e confiança em casa. O lar deveria ser o nosso maior refúgio, tanto para pais como para filhos, principalmente em situações tão estressantes como a que temos vivido e na qual temos estado tão isolados do mundo: aproveitar a leitura e a conversa juntos e se acostumar a expressar o que se sente e canalizar isso na companhia de entes queridos é uma forma de construir bases sólidas para um lar-refúgio-fortaleza que nos dá serenidade e energia para enfrentar o que está por vir. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

EMOCIONÁRIO

Autores: Cristina Núñez Pereira e Rafael Valcárcel

Trad.: Rafaella Lemos

Ilustração: Vários

Editora: Sextante

96 págs.; R$ 49,90; R$ 29,99 o e-book

 

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Brincadeiras, um gatinho novo, celular e agora um livro que ensina a desenhar ajudam no equilíbrio da rotina de Manoela Sampaio Graziano de Oliveira Tiago Queiroz/Estadão

Contra o tédio e a tristeza: livros ajudam as crianças a se distrair e a lidar com os sentimentos

Mercado editorial antecipa lançamentos e investe em livros de atividades e passatempos e também em obras sobre emoções durante a pandemia

Maria Fernanda Rodrigues , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Brincadeiras, um gatinho novo, celular e agora um livro que ensina a desenhar ajudam no equilíbrio da rotina de Manoela Sampaio Graziano de Oliveira Tiago Queiroz/Estadão

Houve um tempo em que grupos de WhatsApp e redes sociais eram inundados com dicas do que fazer com as crianças em casa durante a quarentena. Brincadeiras antigas, muita sucata, tempo de tela controlado. Lá pelos idos de março e abril, havia energia e esperança. Era uma fase. E, no entanto, ainda estamos aqui. As dicas rarearam. O celular está liberado. Bichinhos de estimação chegaram para dar uma força. E as crianças ainda estão entediadas, irritadas, tristes.

“Elas vão pilhando, não percebem que ficam mais perdidas, se tornam mais dengosas e têm crises de choro. Não sabem identificar e definir os sentimentos, elas simplesmente sentem”, disse Alberto Graziano, pai de Manoela, de 7 anos.

Pensando em crianças como Manoela, o mercado editorial correu para lançar livros de atividades e passatempo. A Sextante, por exemplo, antecipou a publicação de uma coleção em parceria com o canal Manual do Mundo e vem lançando títulos como Meu Caderno de Atividades do Jardim da Infância, com 96 jogos e passatempos para maiores de 5 anos, e Desenhe 50 Animais, um livro de 1974 de Lee J. Ames que agora distrai Manu em casa.

“Não tinha nada mais urgente para oferecer aos leitores do que esses livros. Colocamos todo o time para trabalhar neles e isso deu um sentido ao que fazemos. É muito gratificante pensar que isso pode ajudar tanta gente que está em casa com criança pequena”, disse Tomás da Veiga Pereira, sócio da Sextante, cujo catálogo é mais voltado ao leitor adulto e para obras de autoajuda.

A pandemia também colocou a Coquetel e a Pixel, do grupo Ediouro, a pensar ainda mais nesse tipo de material. A revistinha Picolé virou livrão e o título escolhido para a estreia, em julho, foi Brincando e Aprendendo com Hábitos Saudáveis. No fim do mês, chega às livrarias Brincando e Aprendendo com o Mindfulness. A ideia de transformar a revista em livro já existia, mas a editora apressou os planos. E os temas – saúde física e saúde mental – foram escolhidos por causa de tudo o que estamos vivendo.

Tanto os títulos da Coquetel/Picolé quanto os da Pixel (com personagens licenciados) trazem os mesmos tipos de passatempos que distraíam crianças de gerações anteriores em dias de chuva na praia: caça-palavras, jogo dos sete erros e por aí vai. Para Daniela Cajueiro, diretora editorial da Ediouro Publicações, o fascínio dos pequenos por essas atividades não muda – nem o dos adultos. “Temos registrado um movimento muito bom de banca. Há muita procura por passatempos e a Coquetel está tendo um bom retorno, inclusive com um maior número de assinaturas durante a pandemia.” 

Daniela contou ainda que o grupo ampliou em cerca de 15% a publicação desse tipo de obra e que está estudando como transformar o material em digital. 

“Nesse momento, o mais importante é cuidar da saúde mental de todos. O máximo que as famílias conseguirem oferecer de atividades que ajudem a criança a relaxar, a se entreter de forma prazerosa e tornar esse momento um pouco mais tranquilo e com menos pressão, é o ideal”, explica a psicóloga Rafaela Gualdi, especialista em terapia cognitivo-comportamental da infância e adolescência. Os livros, as brincadeiras e até o tablet e o celular, desde que com qualidade, acompanhamento e diálogo para que a experiência seja menos passiva, ajudam.

A tão falada pandemia da saúde mental, que sucederia a do coronavírus, já chegou, na opinião da psicóloga. Ela sugere, para famílias que se sintam seguras e, claro, seguindo todas as regras, uma certa flexibilização para que as crianças possam conviver com outra criança, passar mais tempo na natureza e fazer atividade física. E a boa e velha conversa. “Os pais devem ficar atentos a qualquer alteração de humor e comportamento tanto para intervir quanto para acolher. Converse, ouça, valide os sentimentos da criança.” Mas não está fácil para ninguém, e os pais também devem cuidar de suas próprias emoções para ajudar os pequenos a entender a deles, comenta.

E aqui também vem uma ajuda dos livros. Outro título antecipado pela Sextante na pandemia foi Vamos Lidar Com a Raiva: 50 Atividades Para Crianças, de Samantha Snowden. Em novembro, sai Eu e Meus Sentimentos. Tudo isso vem na esteira de Emocionário, que soma 30 mil cópias vendidas desde 2018.

Livros para passar o tempo ou lidar com as emoções

Meu Caderno de Atividades

Essa coleção da Sextante com o Manual do Mundo conta com livros de atividades para crianças de 4 e de 5 anos, livro de caligrafia, sobre o corpo humano, números, entre outros títulos

Desenhe 50 animais

Clássico de Lee J. Ames ganha nova edição, também pela Sextante e Manual do Mundo, e traz um recado do autor: o livro não deve ser imposto, mas, sim, estar disponível

Brincando e Aprendendo Com Mindfulness

Derivado da revista ‘Picolé’, livro que será lançado no fim do mês fala de saúde mental por meio de jogos e passatempo. Ns bancas e livrarias, o leitor encontra o Brincando e Aprendendo Com Hábitos Saudáveis

Vamos Lidar Com a Raiva

Para crianças maiores, livro da Sextante ensina a identificar o sentimento e propõe exercícios que ensinam estratégias para controlar a raiva

Emocionário

Dicionário ilustrado que explica sentimentos como tristeza, irritação, tédio, melancolia, saudade, aceitação, amor, culpa e remorso. Saiu pela Sextante

 

 

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Como falar sobre raiva com as crianças e ajudá-las a lidar com suas emoções

Samantha Snowden, autora do livro 'Vamos Lidar Com a Raiva', recém-lançado pela Sextante, fala ao Estadão sobre como ajudar as crianças durante o isolamento

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2020 | 14h00

Psicóloga com mestrado em psicologia educacional e corrdenadora internacional de mindfulness do Peak Brain Institute, Samantha Snowden acaba de ter seu livro Vamos Lidar Com a Raiva - 50 Atividades Para Crianças publicado no Brasil pela Sextante, num movimento do mercado editorial de oferecer obras para ajudar as famílias durante a pandemia, e que inclui, ainda, livros de atividades e de passamentos. 

Com exercícios práticos, ela ajuda o pequeno leitor a identificar e aprender a controlar a raiva. Um tema oportuno num momento em que muitas famílias continuam respeitando o isolamento social, que as protege, por um lado, mas que produz efeitos nas crianças.

Samantha Snowden respondeu às seguintes perguntas do Estadão por e-mail.

O que a levou a escrever um livro sobre raiva?

Trabalhei com crianças e famílias por mais de 10 anos como coach, auxiliando-as a se tornarem mais atentas ao seu entorno e a controlar as emoções. As dificuldades comportamentais que resultam do mau controle dos impulsos e das frustrações quando as crianças estão raivosas é comum entre meus clientes. Decidi escrever um livro que contemplasse os instrumentos mais úteis que tenho usado para ajudar os jovens que atendo de modo a aprenderem maneiras saudáveis de controlar seu comportamento quando ficam irritados.

Muitas crianças estão descobrindo a raiva nesta quarentena e tentando lidar com ela. Porque elas andam tão irritadas e como ajudá-las?

As crianças, como os adultos, ficam revoltadas e frustradas quando algo importante lhes é tirado. Na situação que estamos vivendo agora, elas estão separadas dos seus amigos e obrigadas a ficar em casa. Isso resulta em sensações complexas que ficam represadas, como inquietação, agitação e decepção, e que dão vazão à raiva. Para ajudar as crianças a lidarem com essas emoções é importante que elas entendam que esses sentimentos são úteis porque nos permitem saber o que é relevante para nós. Por exemplo, quando nos sentimos irritados porque estamos separados dos amigos, então percebemos como as amizades são valiosas e temos de alimentá-las da melhor maneira que pudermos, mesmo à distância. É tentador para os pais tentarem desviar a atenção dos filhos ou tranquilizá-los rapidamente quando demostram raiva. Mas pelo contrário, é importante sintonizar com os sentimentos da criança dizendo algo como “sei que é difícil. É uma sensação complicada”. Isso permite às crianças entenderem que é correto sentir raiva às vezes e que não é uma emoção “proibida”. Você também pode colaborar ajudando-as a exporem seus sentimentos, especialmente aqueles mais sutis, como decepção e solidão, que talvez elas não identifiquem facilmente. Gosto de fazer uma lista de palavras que se coadunam com esses sentimentos para ser colada na porta do refrigerador de maneira que as famílias criem o hábito de identificar precisamente como elas se sentem. 

Seu livro com certeza vai ajudar as crianças e os pais.  O que mais diria a eles agora, depois de tudo que temos visto e vivenciado com o coronavírus

Descobri que exercício de autocompaixão, no sentido de ser compreensivo e gentil consigo mesmo, não se culpar e nem se criticar demais, ser generoso consigo mesmo, é muito útil para acalmar a inquietação e a incerteza. É importante que os pais pratiquem o exercício quando lidam com emoções complexas, colocando uma mão sobre o coração, reconhecendo a dificuldade do momento, tomando consciência de que não estão sozinhos nesta experiência, e, finalmente, oferecendo palavras gentis e de amor para si mesmos. Assim eles terão mais energia mental para lidar com os sentimentos dos seus filhos. As crianças respondem bem a essas práticas que envolvem o envio dos melhores votos a um amigo. Você pode usar materiais como bolhas de sabão para enviar seus votos a amigos e entes queridos distantes, pedindo aos filhos que também enviem seus votos. Por exemplo, eles podem pensar num amigo da escola e imaginar algo que o deixará contente e enviar o seu desejo, como “fique feliz” quando soprar uma bolha de sabão no ar. É importante que as crianças saibam que, embora não pareça, a experiência que estamos vivendo é temporária. Lembre-os de alguma vez em que eles também achavam que alguma coisa jamais terminaria e sublinhe que na verdade acabou. O que ajuda também é buscar o lado bom desta situação. Vocês podem estar passando um tempo em família melhor ou aprendendo como usar ferramentas tecnológicas que não sabiam como utilizar antes.

Quais os efeitos deste período de coronavírus sobre as crianças e o que vamos aprender disto?

Sei que as crianças são resilientes. Apesar de a ausência prolongada da escola presencial e a socialização limitada afetarem seu bem estar e sua felicidade no curto prazo, no longo prazo elas se recuperarão com a ajuda de adultos atenciosos e solidários. É importante que os adultos que cuidam das crianças as ajudem a enfrentar o estresse para que ele não se desenvolva em desânimo e aflição. As emoções e os fatores de estresse que emergem durante este tempo oferecem uma oportunidade para aprendermos recursos para controlar o emocional que nos ajudarão a enfrentarmos situações de estresse normais que surgem no decorrer da nossa vida. Podemos superar transições, perdas e decepções que enfrentamos no curso das nossas vidas, adotando um pensamento flexível, aprendendo a ter uma visão geral de uma situação, generosidade, gratidão e compaixão.

A atenção plena pode ser alcançada por qualquer pessoa de qualquer idade?

Sim, temos uma capacidade inata para sermos abertos, curiosos, não fazermos juízos de valor e estarmos presentes. Ela é alimentada e fortalecida com a prática e é acessível em qualquer idade. / Tradução de Terezinha Martino

VAMOS LIDAR COM A RAIVA - 50 ATIVIDADES PARA AS CRIANÇAS

Autora: Samantha Snowden

Ilustrações: Sarah Rebar

Trad.: Beatriz Medina

Editora: Sextante (160 págs.; R$ 49,90)

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