Acervo Instituto Hilda Hilst/Divulgação
Acervo Instituto Hilda Hilst/Divulgação

Exposição revela o processo criativo da escritora Hilda Hilst

Manuscritos, agendas, cadernos, fotografias e desenhos da autora de 'A Obscena Senhora D.' estão na mostra em cartaz até 21 de abril

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 03h00

Na agenda de 1981, sobre ter vencido o grande prêmio da crítica, da APCA, Hilda Hilst anotou: “E daí? Ninguém me lê”. Essa falta de leitores era uma questão para ela, e esse comentário não foi o primeiro e não seria o último acerca de sua popularidade. Mas eles vieram com o tempo, e Daniel Fuentes, herdeiro de seus direitos autorais e presidente do Instituto Hilda Hilst, conta que entre abril de 2013 e de 2014, as vendas dos livros dela aumentaram 100%. E de lá para cá, estima que o crescimento tenha sido de outros 60%. O lançamento de Fico Besta Quando me Entendem, com entrevistas da autora, e a presença mais forte nas redes sociais, Fuentes diz, foram algumas das razões para a redescoberta.

Agora, cerca de três meses após outro momento emblemático - o lançamento de Pornô Chic, reunião de seus livros pornográficos -, uma exposição é aberta no Itaú Cultural. Na Ocupação Hilda Hilst, em cartaz até 21 de abril, está, como os curadores dizem, Hilda em primeira pessoa. Ninguém fala sobre ela. A sua é a única voz que ouvimos em três núcleos da mostra que conta, por meio de aproximadamente 300 itens originais, os bastidores de seu trabalho e, por extensão, acabam por revelá-la. 

“Como a gente teve que pedalar para pegar essa mulher”, desabafa Claudiney Ferreira, um dos curadores. Parte do acervo usado pertence ao Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio, da Unicamp, a quem Hilda vendeu cerca de 5 mil documentos, entre manuscritos, agendas, cadernos, desenhos e fotos. Mas foi justamente ao chegar a essas pastas todas que surgiu a ideia de focar no seu processo de escrita. “Hilda pensava a obra antes, durante e depois”, comenta Ferreira. E pensava escrevendo. Adorava cadernos e canetas. Mas talvez tenha deixado esses rastros também para a posteridade. Eles são a base dessa exposição, que conta ainda com o acervo do Instituto Hilda Hilst. 

Entramos no espaço expositivo como se entrássemos na Casa do Sol, construída por Hilda em 1965, em Campinas, e residência dela até a morte, em 2004. Paredes rosa, luz baixa, mandalas no chão e nas mesas onde estão seus livros. As fotos de suas referências intelectuais (Kafka, Freud, o pai), tais como ela organizou em seu quarto, foram dispostas na entrada ao lado de outra parede dedicada aos amigos (Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Lupe Cotrim), como em sua sala. Fotos originais ou arrancadas de jornais e revistas e emolduradas pela escritora em seu altar. 

Em outras paredes, suas listas - uma obsessão - e uma instalação com perguntas feitas por seus personagens: “Como virás, morte minha?”, “Será que você não entende que não há resposta?”, “E o que vem a ser isso de sonho e verdade?”. Seus sonhos, aliás, eram anotados e estão numa das vitrines. 

A exposição, indicada para maiores de 12 anos, é organizada em núcleos que mostram o processo de criação dos livros A Obscena Senhora D.; Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão; O Caderno Rosa de Lori Lamby, Kadosh e Com Meus Olhos de Cão. Por entre esses espaços vemos um vídeo, sua máquina de escrever, fotos, desenhos - inclusive um série feita para Maria Bonomi quase desconhecida -, referência a seus cachorros, entre outros materiais. 

Uma publicação com artigos sobre Hilda Hilst e reproduções de alguns dos originais expostos será distribuída e estará disponível para download no site da Ocupação, no qual também é possível assistir a uma conversa entre os jornalistas José Castello e Humberto Werneck, cronista do Caderno 2, que a entrevistaram.

Futuro. Este é só o começo de uma nova fase para Hilda. Uma parceria entre o Instituto e o Itaú Cultural para o tratamento do acervo da Casa do Sol, composto por tudo o que a escritora não quis vender para a Unicamp e pelo que ela produziu nos últimos cinco, seis anos de vida, foi iniciada em janeiro e terá duração de 18 meses. O trabalho vai envolver desde a adequação do espaço até a catalogação e digitalização dos documentos. 

Daniel Fuentes conta que na primeira imersão no acervo saíram de lá com material para esta exposição e para um livro de cartas trocadas entre ela e seu pai - José Luis Mora Fuentes (1951-2009), que foi companheiro de Hilda -, previsto para ser lançado pela Globo ainda neste semestre. “Sei, de olho, que tem pelo menos mais dois livros inéditos de poesia e talvez um de prosa na gaveta. Fora 4 mil fotos, filmagens feita pelo meu pai nos anos 70, mais de 300 horas de gravações que Hilda fazia para tentar ouvir a voz dos mortos”, comenta. O acervo, conta Fuentes, será disponibilizado num site ao término do trabalho.

Além de todo o material que está por ser descoberto e que deve render novas publicações, está prevista uma biografia da escritora, há traduções em andamento e dois filmes em produção. O documentário Hilda Hilst Pede Contato, de Gabriela Greeb, está mais adiantado: já foi filmado e está em fase de captação de recursos para finalização. Se o dinheiro vier, é possível que ele seja lançado no final do ano. Trata-se de um longa sobre a vida e a obra de Hilda Hilst, narrado pela própria escritora. 

O segundo projeto, da atriz Tainá Müller e da Biônica, deve ganhar um novo gás agora que Walter Carvalho deve se dedicar mais a ele, acredita Fuentes. “A ideia é começar a filmar no fim do ano ou começo do ano que vem e lançar no final de 2016. Ainda vão contratar o roteirista que muito provavelmente será o Marçal Aquino”, diz. Além disso, o conto Unicórnio teve os direitos vendidos para cinema e vai virar um longa.

Hilda Hilst, ao começar a ser editada por uma grande editora, a Globo, nos anos 2000, viveu um pouquinho do que viria a ser essa sua fase mais popular. E ficou muito contente, lembra Daniel Fuentes. Hoje a dimensão é outra. Há uma legião de leitores-fãs, 36 mil “amigos” no Facebook - dos quais 60% têm cerca de 30 anos e 20%, menos de 20.

Memórias da Casa do Sol. "Eu praticamente nasci na Casa do Sol e fui a única criança que frequentou o lugar. Meu pai era a grande pessoa da vida da Hilda. Eles se conheceram em 1968. Meu pai tinha 18 e a Hilda, 38. Eles tiveram um romance de mais ou menos dois anos e ficou uma amizade gigantesca. Eles se chamavam de irmãos de alma. Ele foi o grande interlocutor da vida e da alma da Hilda, e a Hilda do meu pai. Ele quase morreu depois que ela morreu. Na prática, a Hilda era família”, diz Daniel Fontes, filho de José Luis e Olga Bilenky, que só saíram da Casa do Sol em 1983, para ele nascer em São Paulo. 

O pai voltaria a Campinas no final dos anos 1990, quando Hilda já não estava bem. A mãe, quando a amiga morreu - e vive lá até hoje. 

“Lembro dela como uma tia, uma grandíssima amiga dos meus pais, que gostava muito de mim. Ela não tinha noção de criança, então me tratava de igual para igual. Mas me enchia de presentes: livros, brinquedos, os direitos autorais”, diz. 

Para Fuentes, ela sempre foi uma pessoa muito bem-humorada, leve e esforçada. “Ela lia e estudava 10 horas por dia, todos os dias. A memória principal que tenho é dela sentada na mesa dela trabalhando. Começava na mesma hora, trabalhava, só ia beber depois, no happy hour. Se a obra tem esse peso, ela era levíssima e tinha essa fome de conhecer o outro - e isso é material imenso para a obra dela”. 

“E lembro dela lembro Filó, A Fadinha Lésbica para mim”, comenta.

Programação

A homenagem para Hilda Hilst não se limita à exposição. Confira a programação paralela:

Itaú Cultural

18/3 - Às 20h e às 21h30, leitura comentada com Eliane Robert de Moraes e Luisa Destri

25/3 - Às 20h e às 21h30, leitura de poemas com José Castello

4/4 - Às 20h, peça O Meu Lado Homem, de Marcelo Romagnoli

21 e 22/4 - Às 20h, espetáculo Matamoros, de Bel Garcia

OCUPAÇÃO HILDA HILST

Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 2168-1776.

3ª a 6ª, 9h/ 20h; sáb., dom. e feriado, 11h/ 20h. Grátis. Até 21/4. 


Tudo o que sabemos sobre:
CulturaLiteraturaHilda Hilst

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.