Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Exposição celebra a arte de Naoki Urasawa, um mestre dos mangás

Artista japonês ganhou destaque com histórias complexas e dramas psicológicos

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 18h49

O público brasileiro, um grande consumidor de mangás, já está acostumado ao caráter aventuresco e frenético dos quadrinhos japoneses voltados ao público infanto-juvenil. No entanto, ainda há poucas referências no País de obras mais adultas nesse estilo. É essa falha que motiva a exposição Isto é Mangá: A Arte de Naoki Urasawa, que abre nesta terça, 29, na Japan House, apresentando a obra de um dos grandes nomes dos mangás atuais.

“Quando eu era criança, eu não gostava muito de mangá para criança... Quando me mostravam algo infantil eu pensava ‘não subestimem as crianças’”, afirma o artista em entrevista por e-mail ao Estado. O gênero predominante entre os mangás mais populares no Brasil é o “shonen”, voltado a adolescentes. Já a área de atuação de Urasawa é o “seinen”, que tem um público alvo mais adulto. “Quando eu era criança, a revista semanal de mangá se chamava Shonen Magazine, mas o conteúdo era praticamente ‘seinen’. Os alunos do movimento estudantil da década de 1960 também eram leitores fervorosos dessa revista”, lembra Urasawa.

Graças à complexidade de suas tramas e profundidade psicológica de seus personagens, Urasawa conquistou público e crítica. Suas obras não foram apenas premiadas no Japão, mas também internacionalmente: ele tem dois prêmios Eisner e três honrarias concedidas no Festival de Angoulême.

“Urasawa tem histórias que podem se passar no Japão ou em outro lugar, mas tratam de dramas universais que podem ser compreendidos por pessoas de qualquer cultura. Isso explica o sucesso internacional dele”, disse Satomi Maeda, diretora do departamento de cultura da Yomiuri Shimbun, que participou da concepção da exposição. “O traço dele se diferencia de outros mangakás pelas fisionomias mais realistas, em que você consegue perceber os sentimentos de uma pessoa de verdade.”

Já Kaitaro Kiuchi, responsável pela expografia, afirmou que a ideia é “mostrar os mangás como uma forma de arte da cultura japonesa”. Os visitantes poderão ler as páginas com as artes originais de capítulos inteiros, tanto para os leigos se familiarizarem com a linguagem do mangá (há até um diagrama explicando como funciona a ordem da leitura oriental dos painéis), quanto para os fãs do estilo entrarem em contato com obras que nunca chegaram ao Brasil, como o clássico Sawara!, dos anos 1980, sobre uma jovem judoca que tenta conciliar a exigência do esporte com a tentativa de levar uma vida normal.

“O mangá é a combinação do gráfico mais a narrativa, por isso tentamos mostrar essa mescla aos visitantes. Quisemos deixar o caminho livre, sem uma ordem determinada, para que as pessoas se sentissem instigadas a ler o que as deixasse mais impactadas”, acrescenta Kiuchi, que colocou Sawara! em evidência, entre outras razões, pelo judô ser um esporte tradicional no Brasil. 

Apenas três de seus mangás foram publicados no Brasil. Monster, seu trabalho mais conhecido, trata de um neurocirurgião de Dusseldorf com forte senso de justiça que se nega a abandonar a cirurgia de um garoto pobre para atender o prefeito da cidade, contrariando a pressão de seus superiores. Resultado: o político morre, o rapaz sobrevive e, nove anos mais tarde, torna-se um assassino. Esse é o ponto de partida para uma jornada de redenção e culpa com intensa carga psicológica. 

Em 20th Century Boys, o leitor acompanha um grupo de crianças que brincam imaginando histórias sobre salvar o mundo. Quando eles se tornam adultos, uma seita misteriosa passa a pôr em prática planos maléficos idênticos aos que eles imaginavam na infância. A mais recente a desembarcar aqui é Pluto, que se passa no universo de Astro Boy, um clássico de Osamu Tezuka (1928-1989), um dos pais do mangá moderno e a principal influência para Urasawa.

Além de Tezuka, a música é outra grande inspiração para o artista. Além de já ter produzido quadrinhos sobre os Beatles e Bob Dylan, Urasawa é compositor e se apresenta nos palcos. Uma de suas canções é reproduzida na exposição. “Provavelmente, se eu não estivesse desenhando mangá na minha juventude, eu teria investido mais tempo na música. Entendo que tanto mangá quanto a música tem como base a filosofia e aprendi muita coisa com referências como Osamu Tezuka, Bob Dylan e Beatles.”

Ciclo de palestras

Paralelamente à mostra, a Japan House promove, nos dias 7, 9, 12 e 27 de novembro, um ciclo de palestras sobre o mangá no Brasil, em parceria com a editora JBC. Os debates contam com a presença de quadrinistas e profissionais da área. Já os trabalhos de Urasawa ficam expostos até 5 de janeiro de 2020. 

As palestras são as seguintes: 

‘O mercado de Mangá no Brasil’ (07/11), às 19h – com Marcelo del Greco, Gerente de Conteúdo da Editora JBC; Junior Fonseca, Editor da New Pop; Levi Trindade, Editor da Panini; e Bruno Zago, Editor da Editora Pipoca e Nanquim.

‘O universo de Mangá no Brasil’ (09/11), às 15h – com Leonardo Galli Ponsoni, Sales Manager Brasil/Argentina da Bandai Namco; Luis Angelotti, CEO da Angelotti Licensing; e Yuri Petnys, Region Lead da Crunchyroll no Brasil.  

‘Mangá também é digital’ (12/11), às 19h – com Isadora Cal, Gerente de Contas da Bookwire; Edi Carlos Rodrigues, Gerente de Marketing na Editora JBC; e Camila Cabete, Gerente Sênior de Relações Editoriais da Kobo Rakuten.

 ‘A arte do Mangá influenciando a produção nacional’ (27/11), às 19h – com Amanda Ricarte, Quadrinista e Ilustradora; Raoni Marqs, Quadrinista; e Cah Poszar, Designer, Ilustradora e Quadrinista. 

Entrevista com Naoki Urasawa

O artista japonês Naoki Urasawa falou ao Estado por e-mail. Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Quando o senhor iniciou sua carreira, artistas como Osamu Tezuka já haviam expandido o mangá para o Ocidente, mas desde então os mangás ganharam ainda mais popularidade. Como o senhor explica o sucesso do mangá em países tão diferentes do Japão, como o Brasil?

Existem muitos quadrinhos semelhantes ao mangá, como por exemplo, a B.D (banda desenhada) da França e os comics Americanos, porém acredito que um dos motivos da popularidade do mangá seja a sua alta qualidade como entretenimento. Acho que o primeiro big bang foi o lançamento do New Trasure Island, em 1947, após a 2.ª Guerra Mundial. Essa obra mostra que apenas com caneta e papel, é possível produzir um entretenimento de alta qualidade, mesmo em um país derrotado e que perdeu tudo como o Japão, onde o entretenimento popular não era produzido em abundância por questões financeiras. Tendo como principal público as crianças, os leitores abraçaram o movimento e nesse contexto, surgiram vários excelentes mangakás. Depois disso, o mangá ganhou cada vez a popularidade e em 1959, diversas revistas semanais de mangá foram lançadas, mostrando a alta qualidade e incrível volume de produção. Acredito que mesmo comparando mundialmente, não há quadrinhos com tamanha qualidade e quantidade como o mangá do Japão. Eu nasci em 1960, tenho quase a mesma idade que as revistas semanais de mangá, e sendo da geração que vivenciou e viu com os próprios olhos o grande desenvolvimento da cultura chamada mangá, eu produzo as minhas obras pensando “espero que consiga transmitir o dinamismo que o mangá possuía originalmente para a geração de hoje”. 

Quais são as dificuldades de trabalhar com o gênero seinen, uma vez que suas histórias podem ser voltadas a públicos de idades muito variadas?

Quando eu era criança, eu não gostava muito de mangá para criança... Quando me mostravam algo infantil eu pensava “não subestimem as crianças”. Isso acontecia porque quando eu era criança, a revista semanal de mangá chamava “shonen magazine”, mas o conteúdo era praticamente seinen. Os estudantes do movimento estudantil da década de 60 também eram leitores fervorosos dessa revista. Além disso, o Osamu Tezuka também desenhou a versão mangá de Crime e Castigo, de Dostoiévski, no início da sua carreira. Sendo assim, acredito que o mangá japonês originalmente possui elementos de mangá seinen, e o seu conteúdo profundo foi um dos motivos do sucesso mundial.

O senhor já criou mangás sobre os Beatles e Bob Dylan, e também tem uma carreira musical. Qual é a influência da música sobre sua arte?

Eu comecei a desenhar mangás com 4 ou 5 anos de idade. Com 13 anos, peguei o violão e comecei a compor, e com uns 15 anos, fazia overdubbing com fita cassete. Provavelmente, se eu não estivesse desenhando mangá naquela época, eu teria investido mais tempo na música. Entendo que tanto mangá quanto a música tem como base a filosofia e aprendi muita coisa com referências como Osamu Tezuka, Bob Dylan e Beatles. Me vejo como uma pessoa cujo interesse maior acaba sendo o de ser autor a ser leitor; ou, ser músico do que espectador. Se não se desenha nada, o papel é só um papel branco. Se não tocar nada, não há nenhum som. Neste ponto, acho que mangá e música são coisas muito semelhantes.

Como o senhor encara o desafio de criar histórias em um mundo tecnológico como o nosso no qual a realidade parece cada vez mais um roteiro de ficção científica?

Quem usa a “tecnologia” são os seres humanos, e penso que a “história” surge das atividades humanas. Acho que a história vai nascer desde que os seres humanos existam nesse mundo.

 

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