Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Expedição científica no sertão encomendada por dom Pedro II revela mazelas das origens do Brasil

'Nossa incapacidade de apoiar a ciência e a pesquisa vem desde lá', afirma o jornalista Delmo Moreira, autor do livro 'Catorze Camelos para o Ceará'

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 05h00

Em 1995, a Imperatriz Leopoldinense foi campeã do carnaval carioca ao narrar a história de uma expedição científica fracassada, promovida por d. Pedro II, com o enredo Mais Vale Um Jegue que Me Carregue, que Um Camelo que Me Derrube lá no Ceará. Mas o livro Catorze Camelos para o Ceará (ed. Todavia), do jornalista Delmo Moreira, mostra que a premissa assumida pela carnavalesca Rosa Magalhães, de que a jornada tenha sido um fiasco, talvez não corresponda exatamente à realidade.

A obra de Moreira dá conta desse episódio pitoresco do Brasil Império que revela muito sobre a essência do País em um momento no qual a Nação ainda estava sendo construída. Em 1859, 14 camelos foram trazidos ao Brasil para uma experiência de aclimatação ao sertão e para ajudar em uma expedição científica pelo interior do Ceará. Liderando a empreitada, foram encarregados por d. Pedro II o engenheiro barão de Capanema, o médico e botânico Freire Alemão e o poeta e etnólogo Gonçalves Dias.

Inspirados na era de ouro dos naturalistas viajantes do século 19 que redesenharam o mundo e o interior do Brasil, como Humboldt, Martius e Spix, os expedicionários conseguiram extrair valiosas amostras botânicas e zoológicas (algumas das quais foram perdidas no incêndio do Museu Nacional, em 2018), fazer observações astronômicas (vale lembrar que foi um eclipse justamente em Sobral, no Ceará, que forneceu a primeira comprovação empírica da Relatividade Geral de Einstein), mapear regiões e realizar diversas análises científicas pioneiras para o Brasil.

No entanto, o naufrágio do navio Palpite, carregado de material coletado pela expedição, e intrigas políticas da corte – não é de hoje que políticos conservadores consideram o investimento em ciência um desperdício de recursos públicos, diga-se de passagem – acabaram por criar no imaginário nacional a ideia de que a aventura fracassou.

“Eu me dei conta de que a comissão não tinha falhado no sertão, mas na corte, com problemas que vemos até hoje. Não houve prosseguimento por desinteresse político. Nossa incapacidade de apoiar a ciência e a pesquisa vem desde lá”, afirma Delmo Moreira, em entrevista por telefone ao Estadão.

Na obra, o autor relata minúcias e curiosidades, como o fato de “Ceará” ter sido grafado incorretamente quando os camelos foram comprados na Argélia, fazendo a viagem marítima de 34 dias ser entre o Saara e o Siara. A estada dos expedicionários em Acarati, cidade às margens do Rio Jaguaribe, mostra como a polarização encarniçada e as fraudes eleitorais são temas que cercam a política brasileira desde antes da República: “Em determinada rua, só moravam ‘caranguejos’, como eram chamados os conservadores; em outra, apenas os ‘chimangos’ liberais. Nem sequer se cumprimentavam. Viviam desconfiados e alertas uns contra os outros e não admitiam dissidentes”.

Se as acirradas eleições de Acarati lembram o romance regionalista Vila dos Confins, de Mário Palmério, a passagem dos pesquisadores pelo sertão cearense, incluindo as fotografias tiradas por Gonçalves Dias (e posteriormente perdidas no naufrágio de uma embarcação cheia de itens da expedição), foi registrada no romance Luzia-Homem (1903), de Domingos Olímpio: “Andavam encourados como nós vaqueiros; davam muita esmola e tiravam, de graça, o retrato da gente, com uma geringonça, que parecia arte do demônio. Apontavam para a gente o óculo de uma caixinha parecida gaita de fole e a cara da gente, o corpo e a vestimenta saíam pintados, escarrados e cuspidos, num vidro esbranquiçado como coalhada”.

A história da expedição passou a interessar Moreira há mais de dez anos, enquanto ele pesquisava sobre a história das secas para uma reportagem. “O tempo inteiro ela aparecia como uma das tantas políticas inúteis, malucas que os governos foram adotando para enfrentar a seca, mas fui vendo que a história não era só essa, que era mais rica do que a comissão que tinha dado errado. Fui vendo que eram personagens notáveis e o trabalho que tinham feito era notável, inédito, importante”, afirma o autor.

Para ele, a aventura de Capanema, Dias e companhia revela “nossas mazelas de um século em que a gente foi levando as coisas pela metade, revela o preconceito com que a gente se olha no espelho, ajuda a mostrar um pouco nossa cara, a banalização da escravidão, como isso estragava a alma da Nação”. Moreira ressalta que, embora imersos no cotidiano da escravidão, os expedicionários registraram desconforto com o que viram. “As famílias mais proeminentes de cada comunidade ensinavam suas crianças a torturar seres humanos, isso deixa impactos duradouros numa Nação”, diz o autor.

Moreira brinca que o século 19 tem muito a dizer sobre o século 21 no Brasil. “Ali a Nação estava se estruturando, organizando a forma dos poderes, definindo como a Justiça ia funcionar, com base em que princípios… Estavam inventando uma Nação com a herança da colônia, mas ali também estava sendo definido como o Brasil ia tratar os três séculos de escravidão. Toda a agenda do século 19 ficou incompleta, os desafios ali perduram até hoje.”

Apesar desses problemas, Moreira considera que d. Pedro II tenha sido um dos governantes mais interessados em apoiar a ciência que o Brasil já teve. “Todas as coisas que ele fazia eram genuinamente incentivando a ciência, mas ele era um monarca com os interesses de um monarca.” Embora tenha lançado as bases para uma rede de educação no País, d. Pedro II é muitas vezes retratado como um intelectual, o que Moreira considera um exagero. “Não tem nenhuma invenção, nenhum poema, nenhum quadro, nenhuma manifestação que o revele como um intelectual. Ele tinha interesse genuíno, mas não era de nenhuma originalidade. Mesmo assim, se comparar com a situação de hoje, ele era um amigão da ciência.”

Leia um trecho de 'Catorze Camelos para o Ceará'

“O primeiro apelido que deu má fama à comissão surgiu quando os cientistas ainda nem haviam saído do Rio de Janeiro. O caso começou com um artigo do historiador Mello Moraes criticando o orçamento da expedição. ‘Como se gasta tanto para apanhar borboletas?’, questionava. Moraes era desafeto de Capanema, Dias e Lagos, que haviam desancado sua obra histórica em sessões no IHGB, ajudando a relegá-la à irrelevância. Mais tarde, com a Comissão já em Fortaleza, o senador alagoano Antônio Dantas de Barros Leite, parente de Moraes, discursou no plenário contra os devaneios da ‘Comissão das Borboletas’ e assim consolidou de vez a zombaria. A partir daí, o epíteto apareceria fartamente em discursos no Senado e artigos na imprensa, ridicularizando os expedicionários como entomologistas de fim de semana a caçar insetos com suas redes esvoaçantes – à custa do Império. A maioria das críticas vinha dos políticos conservadores mais empedernidos, que jamais afastariam Capanema e Dias da alça de mira.

Na lista dos problemas que atrapalharam a missão, a incessante fuzilaria política não pode ser ignorada, pela letalidade costumeira desse tipo de má vontade institucionalizada. Mas, para o outro histórico apelido, Comissão de Defloramento, não há dúvidas de que os expedicionários colaboraram a valer.

Em Fortaleza, Capanema, mais de uma vez, foi encontrado pela ronda noturna caído na rua, embriagado. Na primeira ocorrência, os soldados o carregaram para o Corpo de Guarda, onde foi reconhecido e levado à casa da Lagoa. Nas demais, depositavam direto o cientista no sobradão, economizando a caminhada até os arrabaldes. Freire Alemão escreveu em seu diário que o povo andava indignado com Capanema e seus ‘companheiros de orgia’. Eles passeavam pelas ruas com ‘bombachas indecorosas’ e, se ‘alguma moça encontravam na janela, dirigiam-lhe ditérios e gracejos tão atrevidos quanto impudicos’.”

Os personagens históricos reunidos por d. Pedro II

Barão de Capanema

Nascido Guilherme Schüch, de pai austríaco e mãe suíça, foi um empreendedor próximo de d. Pedro II, formou-se em engenharia e mineralogia e o principal articulador político da Comissão. O político Gustavo Capanema foi seu bisneto.

 

Antônio Gonçalves Dias

Poeta e etnólogo de sangue indígena, foi autor de obras célebres como a Canção do Exílio e I-Juca Pirama, além de estudos sobre as migrações dos povos tupi.

Francisco Freire Alemão

Médico, botânico e naturalista consagrado até mesmo na Europa, encarou a Comissão, pelo seu ineditismo, como uma oportunidade para realizar descobertas científicas comparáveis às de outros pesquisadores cujas façanhas admirava, como Alexander von Humboldt, Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptist von Spix.

José dos Reis Carvalho

Ex-aluno de Jean-Baptiste Debret, pintor francês que retratou o Brasil Colônia em suas expedições artísticas, Reis Carvalho foi responsável pelo registro iconográfico (e por boa parte da bebedeira) da Comissão.

Giacomo Raja Gabaglia

Nascido na província Cisplatina e tenente da Marinha, Gabaglia foi responsável pelas observações astronômicas. Durante a expedição, se apaixonou por Maria da Natividade, irmã do futuro barão de Sobral, e se casou com ela, voltando com ela para o Rio.

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