Gary Hershom/Reuters
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Ex-premiê israelense Yitzhak Rabin ganha biografia 25 anos após seu assassinato

Ganhador do Nobel da Paz por sua relação com a Palestina, Rabin foi morto por um extremista judeu

Marilia Neustein, Especial para o Estadao

26 de novembro de 2020 | 05h00

Há 25 anos, no dia 4 de novembro de 1995, o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista judeu em Tel-Aviv, depois de um discurso no qual defendia a importância da construção da paz com os palestinos. Sua figura, marcada pela coragem investida nos acordos de Oslo, é até hoje fruto de discussões entre políticos, especialistas de relações internacionais, israelenses e palestinos.

O legado de Rabin e sua história, um quarto de século após seu assassinato, estão no livro Yitzhak Rabin: Uma Biografia, escrita por Itamar Rabinovitch, cuja tradução será lançada pela Ayllon Editora, no próximo dia 30. Rabinovitch foi embaixador de Israel em Washington na década de 1990 e fez parte da equipe de Rabin durante seu segundo mandato, portanto, esteve lado a lado do primeiro-ministro em importantes bastidores descritos no livro – com a proximidade de um colega e a distância de um escritor.

Dividido em sete recortes da vida do político, da jovem e bem-sucedida carreira militar, passando pela queda e ascensão no governo, até o seu assassinato, o livro apresenta facetas pouco conhecidas do líder que ficou famoso por sua objetividade e perseverança. Uma das passagens raras, narradas pelo autor, é a origem da educação que Rabin recebeu de sua mãe, Rosa, apelidada de “Rosa, a Vermelha”, e “de convicções esquerdistas e populistas”, como escreve Rabinovitch. 

O próprio Rabin afirma, em documentos descritos no livro, sobre os rumos inesperados que sua vida tomou: “Meu trajeto foi decisivamente determinado pela personalidade de meus pais, pela inspiração de nosso lar e da escola onde estudei. Durante minha infância me vi praticamente guiado para uma vida ligada à agricultura, uma vida no kibutz (comunidade agrícola israelense de origem socialista); se houvesse me dito que me tornaria um militar, haveria reagido como se fosse algo ridículo”, conta.

O autor também explora o atrevimento de Rabin – que era a antítese da demagogia comum nos líderes dos dias atuais. No livro, ele afirma que “Rabin demonstrou habilidade para tomar decisões ousadas, históricas, para ir contra seus próprios instintos e com eles conduzir o povo”. Mesmo com essa habilidade – que o levou a históricas e bem-sucedidas operações militares e a um Nobel da Paz, é consenso que Rabin não dispunha de uma das maiores armas de um político: o carisma. Em diversas passagens do livro, fica evidente como o primeiro-ministro, desde o início de sua carreira, não cedeu a nenhum discurso populista e perseguia suas fortes convicções.

Sobre as conquistas políticas, o autor credita mais à “elevada qualidade de sua liderança” e menos à sua capacidade de mediação e paciência. Tal visão também foi compartilhada pelo diplomata americano Henry Kissinger, com quem Rabin trabalhou nos tempos de embaixador nos EUA: “Rabin era taciturno, tímido, introspectivo e desdenhava conversa fiada. Tinha muito poucos dos atributos normalmente associados à diplomacia. Entediava-se com pessoas repetitivas e chegava a ofender-se com banalidades; infelizmente, para Rabin, ambos não eram raridades em Washington. Ele odiava a ambiguidade, cerne da diplomacia. Mas sua integridade e sua capacidade analítica brilhante, que permitiam ir ao âmago do problema, eram incríveis”, relata. 

Já Amós Oz, um dos mais respeitados escritores israelenses, citado por Rabinovitch na epígrafe da biografia, descreveu o primeiro-ministro como “um engenheiro cuidadoso e um navegador preciso, sua personalidade incorporava o espírito de uma nova Israel, um país que buscava não a redenção, mas soluções”.

Discurso de ódio

A perseverança e a coragem de Rabin em enfrentar o assunto mais dolorido para israelenses e palestinos, um conflito que machuca e comove o mundo há mais de 50 anos, não foi suficiente para levar a cabo seu projeto: um acordo de paz entre os dois povos.

Em plena tensão de violência constante com os palestinos, a oposição na época de seu governo, liderada por Benjamin Netanyahu (hoje primeiro-ministro israelense), construiu e disseminou a narrativa de que as negociações eram uma ameaça à existência de Israel e correspondiam também ao fim dos assentamentos – o que incendiou o movimento dos colonos religiosos que fazia recorrentes ameaças ao governante. “Após a assinatura dos Acordos de Oslo, esses eventos se desenrolaram em várias etapas: oposição política legítima e ilegítima; desacreditar e deslegitimar o governo e seu líder; desumanização do rival político; conduta simbólica e ritual assassino; conduta política violenta e, finalmente, o assassinato”, descreve Rabinovitch. O gatilho foi apertado por um extremista judeu na noite de 4 de novembro, deixando profundas cicatrizes na sociedade israelense.

Para a editora responsável pela Ayllon, Suzana Salama, a biografia é não só documental, mas também literária. “O autor situa sobre as raízes de Rabin, seu crescimento no kibutz e a proximidade do movimento trabalhista, e como sua origem se confunde com os próprios pilares do nascimento do Estado de Israel. Rabin se torna um personagem e um símbolo, o que torna a leitura muito interessante”, afirma. 

“Vinte e cinco anos após o assassinato de Rabin, a discussão sobre quem foi o ex-primeiro-ministro israelense e seu legado ainda hoje é levantada sob diferentes perspectivas políticas. Mas a vida de Rabin, mais do que sua morte – antecipada pelo assassinato cometido por um extremista de direita –, é pouco conhecida do leitor brasileiro. Nessa sua primeira biografia em português, é possível conhecer o percurso do líder que chegou mais próximo de concretizar a solução de dois Estados, um israelense e outro palestino”, conclui.

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