Amanda Perobelli/ Estadão
Amanda Perobelli/ Estadão

Eugênio Bucci fala sobre os danos irreversíveis das ‘fake news’

O professor comenta sobre os perigos da era da pós-verdade em sua nova obra ‘Existe Democracia Sem Verdade Factual?’

Entrevista com

Eugênio Bucci

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2019 | 08h00

Foi a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) quem primeiro observou com mais detalhes a chamada verdade dos fatos – ou verdade factual, no entender dos jornalistas. No livro Verdade e Política (1967), ela propõe uma reflexão sobre governos que distorcem fatos ao lembrar que a extinta União Soviética simplesmente eliminou de todos os registros históricos a figura de Leon Trotsky, que foi um dos maiores protagonistas da revolução bolchevique.

Com isso, a filósofa mostra como as ditaduras preferem simplesmente eliminar as notícias factuais que as contrariam do que encontrar uma forma para tolerá-las e, muito importante, para conseguir conviver com elas. O raciocínio de Hannah Arendt é o ponto de partida de Existe Democracia Sem Verdade Factual? (Estação das Letras e Cores), livro que o jornalista e professor da ECA-USP Eugênio Bucci lança nesta segunda, 14, em e-book e versão impressa.

Trata-se de um convite para se refletir sobre o impacto da desinformação sobre o debate público, discussão cada vez mais necessária em época que o avanço da tecnologia permite que qualquer pessoa, dispondo de um aparelho conectado na internet, transmita qualquer notícia, falsa ou verdadeira. É o que explica, em parte, o surgimento das chamadas ‘fake news’, cuja gravidade pode causar danos irreversíveis. “A sombra entra no lugar da luz”, observa Bucci, em entrevista realizada por e-mail.


Ubiratan Brasil: Como explicar a grande quantidade de notícias falsas que circulam na internet?

Eugênio Bucci: O primeiro motivo é: isso agora é possível. Por que há tantas fake news por aí? Porque é fácil, muito fácil, confeccioná-las e distribuí-las. Hoje, qualquer pessoa com um celular conectada à internet concentra poder de mídia. As mediações (que cumpriam funções de curadoria, de depuração e de organização dos sentidos) foram atropeladas. Qualquer um pode pôr em circulação relatos, fotos e toda sorte de falsificações. Um segundo motivo é o descompromisso de muita gente com a verdade dos fatos. Várias correntes políticas simplesmente desprezam o registro dos fatos. Com isso, forma-se um caldo de cultura (ou de incultura) favorável à proliferação dos fanatismos políticos, que odeiam a razão, a verdade factual e a opinião fundamentada em evidências. A sombra entra no lugar da luz.



Aliás, qual momento histórico poderia explicar a invenção e difusão de fake news? Seria algo inerente às modernas formas de comunicação, mais rápidas e expansivas?

Sim, você tem toda a razão, mas é preciso qualificar um pouco esse diagnóstico. Aquilo que chamamos de modernas formas de comunicação, por motivos diversos, acabaram favorecendo crenças e preconceitos pré-modernos, ou mesmo antimodernos. A tecnologia mais avançada impulsionou as formas de poder mais primitivas e incultas. Há algo de errado, portanto, com essa tecnologia que resulta de um imbricamento entre capital, silício, engenharia e poder. Esse híbrido ultrapotente exacerba o narcisismo das multidões que rechaçam qualquer divergência. Isso quer dizer que demos um passo a mais na chamada dialética do iluminismo. As conquistas da ciência enfraqueceram e agora enfraquecem mais o que haveria de emancipador no humanismo. Em outro sentido, parece às vezes que as formas de comunicação hipermodernas restabelecem a selva como rotina. A mentira (as fake news) está a serviço de forças que vêm combatendo o que tínhamos nos acostumado a chamar de civilização.


É possível ajudar um leitor  comum a descobrir a verdade factual?

Claro que sim. A verdade factual brota do registro dos fatos. A verdade factual não se confunde com verdades transcendentes, ou com verdades metafísicas, assim como não se confunde com a verdade religiosa (que é do domínio da fé). A verdade factual lida com os acontecimentos com os quais todos convivemos, coletivamente. Lida também com as evidências das demonstrações empíricas mais simples. Exemplo: a Terra é redonda. Qualquer astronauta é capaz de atestar que a Terra é redonda. Outra verdade factual: há muitas mortes violentas no Brasil. Os fatos são constatáveis pela simples experiência que todos temos de viver em sociedade. Qualquer um de nós é capaz de perceber os fatos e formar juízos sobre eles. Ninguém precisa de doutorado para isso. Os laços com as nossas experiências reais, vividas, os laços com os nossos semelhantes, os olhos abertos diante das diferenças, tudo isso nos ajuda a perceber aspectos da verdade factual. E tudo isso nos ajuda a ver que, sem essa base de verdade factual, qualquer política se degrada em fanatismo. O problema é que hoje as legiões que combatem o registro dos fatos vão se tornando mais numerosas do que os grupos que ainda prezam a razão e os fatos.


O avanço tecnológico na difusão de notícias é acompanhado na mesma velocidade pela atualização dos conceitos éticos? Ou não seria isso?

Se entendermos a ética como um território específico do pensamento, um território em que nos ocupamos da sabedoria que nos ajuda a viver e conviver melhor, vamos entender também que, quanto mais trocamos impressões sobre o mundo, mais nos capacitamos a conviver em paz, de modo fraterno. No entanto, quando a mentira se torna poder e impõe uma disciplina um tanto tribal em que a dissidência vai deixando de ser possível, a própria ideia de ética se perde. Quando vemos o expediente da censura ressurgir das trevas, algo está errado. A censura se faz valer na base da força (mesmo quando essa força é violência simbólica). A censura é resultado de uma impostura moral, de uma não-verdade moral. A censura carrega o objetivo de estabelecer como normal um modo de viver, e esse modo de viver, por sua vez, faz de tudo para banir as outras maneiras de viver. Em suma, a fantasia dos que acham que a censura poderia consertar o mundo está fundamentada numa mentira essencial, na negação da verdade factual, na negação da razão. Está fundamentada, enfim, na abolição da ética. 


Além dos bibliotecários, quais outras categorias deveriam mobilizar seu conhecimento para ajudar seu público a separar o que é verdade factual do que é pura invencionice mal-intencionada?

As três instituições que são estruturalmente vocacionadas para combater as fake news são a imprensa, as escolas e as bibliotecas. É claro que qualquer operador da comunicação social pode e deve ajudar nisso. É claro que lideranças sindicais, religiosas ou de qualquer outra extração também podem ajudar. Mas, fundamentalmente, a função de assegurar a qualidade da informação e a qualidade dos caminhos pelos quais se tem acesso ao conhecimento recai sobre a imprensa, as bibliotecas e as escolas. Por isso, meu livro procura chamar a atenção para isso, especialmente para a função da imprensa e das bibliotecas. 


De que forma as palavras ‘antipolítica’ e ‘pós-verdade’ estão relacionadas nos dias atuais?

Seja como substantivo, seja como adjetivo, a palavra “antipolítica” designa um vórtice que age para negar a política. A palavra política, por sua vez, indica uma combinação entre princípios, ideais e objetivos mais ou menos estratégicos, isso de um lado, e, de outro, a habilidade de convencer, de dialogar, de aprender, de reformular, de negociar, de construir consensos, ainda que instáveis. Quando deixamos de lado a habilidade da conversa, da interlocução, e nos voltamos para um tipo de solução de força, na base da autoridade armada, do poder inflexível, nós estamos renunciando à política. Não custa lembrar que, na mitologia grega, o talento político (a capacidade de viver em sociedade, de forma harmônica) é o que diferencia os homens das outras espécies. Ora, para haver política, é imprescindível que haja, também, uma base sobre a qual a interlocução vai se dar. Portanto, para haver política, é preciso que estejamos de acordo sobre as formas que temos de discordar. Do mesmo modo, é preciso que as opiniões de cada um estejam baseadas nos fatos que todos admitimos ser fatos verdadeiros. Se não temos mais acordos sobre como discordar, perdemos as condições de conviver em paz. E, se deixamos de ter os fatos como fundamentação dos nossos argumentos, perdemos o vínculo com a razão e não estamos mais fazendo política. É aí que prosperam a intolerância, o fanatismo, a prepotência, o preconceito e a violência.

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