"Eu até namoro os seus personagens"

No centenário da morte do escritor Machado de Assis, o Cultura publicará no último domingo de cada mês depoimentos de artistas sobre sua relação com a obra do mestre da literatura nacional

Jorge Mautner, músico e escritor,

30 de março de 2008 | 14h37

Minha alma e meu coração têm Machado de Assis sempre presente. Eu li O Alienista no colégio. Sou muito influenciado por Machado, porque ele inaugura aqui uma literatura de risos e lágrimas. É discípulo de Gógol e Dostoiévski. Enquanto Dostoiévski pretendia o pan-eslavismo dominando o mundo, Machado queria a "brasilificação", mas com uma mensagem superior, de doçura. Ele considera já lá atrás tudo o que seria tropicalista, tudo o que seria a nossa cultura atual, a diversidade. Ele sabia do amálgama, conceito de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). O personagem Quincas Borba, que aparece nas obras Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, declarou a filosofia do humanitismo. Ela é muito próxima do Kaos com K (teoria de Mautner desenvolvida na Trilogia do Kaos, composta pelos livros ‘Deus da Chuva e da Morte’, 1961; ‘Kaos’, 1963; e ‘Narciso em Tarde Cinza’, 1965, e concebida como "uma dialética, materialista, conflituada, sempre em movimento"), que é a inclusão de tudo.  O humanitismo é uma antropofagia anunciada, mas escrita no nível de um clássico eterno, e que absorve brasileirismos. Dostoiévski apresenta a análise da alma humana. Mas Machado de Assis é mais suave, e mais penetrante como investigador de almas. Ele tem a filosofia de absorver as coisas, na qual os contraditórios estão claramente descritos.  O CETICISMO MACHADIANO O ceticismo dele é o máximo da filosofia humanista, depois dos estóicos e dos epicuristas. É o alto humanismo. Esse ceticismo é todo dirigido ao ser humano, inclusive com piedade, ele é piedoso. Machado percorre todos os clássicos. Faz isso com observações profundíssimas, antecipando-se a visões sociólogas de grande alcance como a de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.  UMA CENA AGUDA É só lembrar a cena em que o ex-escravo Prudêncio, depois de alforriado pelo pai de Brás Cubas, bate no escravo que adquiriu, chamando-o de bêbado. "Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas -, transmitindo-as a outros. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!" (trecho do capítulo 68 de ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’). ESTILO MALEMOLENTE A diferença de Machado é que seu estilo tem malemolência e o português dele é uma língua brasileira, como no samba de Noel Rosa (Não Tem Tradução), "tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia/ é brasileiro/ já passou de português". AS RELEITURAS Suas obras me fazem companhia o tempo todo. Estou relendo Quincas Borba. Está escrito no início do capítulo 45: "Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida." Aí são os risos e choros encarados filosoficamente. Machado é o ápice da coisa mais sonhada por todo artista: a harmonia de medidas, que, em vez de deter o movimento, acaba por estimulá-lo mais. Ele tem o caminho do meio. Machado tem a primeira visão do Brasil universal e profundo. O humanitismo, do Quincas, tem a ver com o Kaos com K. E nada mais claro do que o manifesto produzido por esse personagem. NAMORO COM OS PERSONAGENS Todos os personagens têm vida própria, eu converso o tempo todo com eles, que na verdade são o próprio autor. As cenas vêm como relâmpago na memória. Eu até namoro os seus personagens, que passam a viver dentro do imaginário e falam comigo nos sonhos e quando estou acordado. A presença de Machado é predominante em mim, tanto pela clareza como bom senso. A medida é ele. Todas as medidas da malandragem e das coisas ocultas. Ele capta o todo, todas as diferenças, as nuances do amor e do ódio. O suposto afastamento de que ele se serve para escrever é banhado de emoção. No fundo, como um estóico, ele tem a piedade.  MACHADO MESTIÇO A mestiçagem é um fato fundamental. Ser mulato é ter no DNA e nos neurônios a captação de duas etnias, de dois mundos. Existe essa relação de ódio e amor. De submissão e desejo de liberdade. Machado sabe do sofrimento do outro, mas ele o transcreve com toda humanidade, sem demagogia. Ele é implacável. Ele é político com pê maiúsculo. Ele não tem preconceitos. Machado é o antinazismo, pois ele é a mistura de raças. Lembro o que Walt Whitman (1819-1892), o maior poeta dos EUA, disse: "O vértice da humanidade será o Brasil." Depoimento a Francisco Quinteiro Pires

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