Etgar Keret e Juan Villoro tentam transmitir esperança em Paraty

Israelense e mexicano escrevem em e sobre ambientes dominados pela violência e pela catástrofe, mas buscam na literatura um modo de mostrar que nem tudo é inferno

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 17h17

PARATY - Dois escritores cujos livros tratam com humor temas como a violência, o narcotráfico e a morte se encontram em Paraty para discutir “A Verdadeira História do Paraíso”: o mexicano Juan Villoro e o israelense Etgar Keret, considerado por Salman Rushdie “a voz da nova geração”. A conclusão do encontro é que o paraíso não fica no México. Muito menos em Israel, que está mais próximo do inferno com os recentes conflitos na faixa de Gaza. Keret veio à Flip lançar De Repente, uma Batida na Porta (Rocco), coletânea em que se destaca um conto absurdo. Nele, um escritor é ameaçado e levado compulsoriamente a inventar histórias como se fosse uma Sherazade contemporânea. Villoro veio lançar Arrecife (Companhia das Letras), outra história absurda sobre um aproveitador ligado ao narcotráfico que cria um resort em que os hóspedes podem se submeter a sequestros e experimentar a violência antes de retornar ao conforto do lar.

Tanto Keret como Juan Villoro são muito engraçados. O último, filho de um filósofo marxista, revelou que era muito ruim ter um pai cuja profissão não era tão reconhecidamente útil como a de um bombeiro ou padeiro. “Ele se separou de minha mãe quando tinha apenas 9 anos e nossa diversão era ir todos os fins de semana ao zoológico, até que isso se tornou tedioso para ambos e começamos a frequentar estádios de futebol”. Villoro, como se sabe, se tornou um comentarista do esporte mundialmente reconhecido, tendo escrito para o Estado durante a Copa.

Keret conta que seu pai foi igualmente um bom companheiro, solidário até no câncer. “Certa vez ele me convidou para tomar café e eu fui obrigado a dizer que ele não podia fazer isso, ao que ele respondeu: ‘Mas você pode’, engolindo até a última gota aquele café”.

A uma questão proposta pelo mediador Ángel Gurria-Quintana, se ambos escreviam para escapar da violência, Villoro rejeitou o termo “escapista” e disse que escrever, para ele, é uma forma de transmitir esperança e mostrar que o inferno é possível, mas nem tudo é inferno, ainda que o humor seja negro. O israelense Keret admitiu a influência de Kurt Vonnegut (especialmente a de seu Matadouro 5), para ele o exemplo supremo de como se pode escrever humor em meio à catástrofe (no caso, o bombardeio de Dresden durante a 2ª Guerra). Uma última e delicada pergunta: o que ele achou de Israel acusando o Brasil de “anão diplomático” por condenar a villência em Gaza? “Quando temos medo, ficamos agressivos”, respondeu, de forma diplomática.

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