Etgar Keret descreve situações estranhas narradas por pessoas comuns

Israelense é mestre em unir concisão com nonsense

Entrevista com

Etgar Keret

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

12 de julho de 2014 | 02h00

Entre os vários elogios recebidos pelo escritor israelense Etgar Keret - o britânico Salman Rushdie, por exemplo, encanta-se com seu brilhantismo, "diferente de qualquer outro que eu conheça" -, o que ele prefere é o fato de ser o autor cuja obra é a mais furtada nas bibliotecas públicas de seu país. Aos 46 anos, Keret é considerado o principal nome da moderna literatura israelense.

Apesar de traduzida para 34 idiomas, sua escrita é praticamente desconhecida no Brasil, barreira finalmente quebrada com o lançamento da coletânea de contos De Repente, Uma Batida na Porta, pela editora Rocco. Oportunidade para se descobrir como o desencanto é fundamental em sua obra. O brilhantismo referido por Rushdie está em combinar em perfeito equilíbrio situações estranhas, surreais, vividas por personagens comuns, familiares. A união entre o extraordinário e o normal resulta em textos que divertem, mas incomodam, especialmente pela sua enorme força humanista.

Um dos convidados da próxima Flip, que começa no dia 30, Keret respondeu por e-mail as seguintes questões.

O livro tem histórias que exploram o ato de escrever. Como descreve seu processo criativo?

Muitos escritores que conheci contaram que o ato da escrita permite ter o controle de tudo, diferentemente da vida real. Você está no controle e pode decidir como será o tempo, qual personagem morrerá e qual continuará vivo. Comigo é o oposto: na vida real, mantenho o controle, mas, quando escrevo, deixo as coisas andarem, a história se escrever até me surpreender totalmente. Quando me sento para escrever uma história, sei muito pouco sobre o que acontecerá nela: geralmente tenho uma imagem, ou uma frase na cabeça, e o resto é um mistério. Quando meu personagem abre uma porta fechada numa história, fico tão excitado e ansioso como ele para descobrir o que está à espera do outro lado. 

Sua escrita é surreal?

A vida é uma coisa surreal. Tudo que faço em minha escrita é documentar, o melhor que posso, estes estranhos fenômenos chamados "vida".

Autores têm obrigação moral com personagens e leitores?

Imaginação e obrigação são quase opostas por natureza. A imaginação vem da liberdade total, enquanto a obrigação vem da pressão de se conformar. Quando me sento e escrevo, não penso em meus leitores. Penso na história. Na vida, posso ser muito atencioso e responsável, mas, ao escrever, tento, antes de tudo, ser sincero. Minhas histórias são escritas não para educar os leitores, mas para compartilhar com eles um lado da humanidade que podemos às vezes preferir esconder na vida real.

Hoje, a História está mais interessada em detalhes. A literatura estará tomando seu lugar?

A História é construída em torno de fatos, enquanto a literatura gira em torno da condição humana. O fato de não precisar ser fiel aos fatos dá ao escritor de ficção a liberdade de se comprometer inteiramente com a documentação das emoções e pensamentos subjetivos que criam a experiência humana.

Está mais interessado em como o passado difere do presente, ou em quão diferentes podem ser eras similares?

Para mim, a linha histórica parece uma espiral: as coisas se repetem enquanto impérios crescem e caem, mas, ao mesmo tempo, enquanto ficamos repetindo o mesmo ciclo, também estamos avançando ligeiramente para outro eixo à medida que a tecnologia avança. É um espanto o tanto que a tecnologia avançou desde a era dos Neandertais. Podermos agora voar para as estrelas, destruir continentes com armas nucleares e, ao mesmo tempo, a humanidade não parece avançar: podemos ter a internet que nos permite acessar quase qualquer texto jamais escrito online, mas a maioria das pessoas a usará para ver pornografia e apostar, sendo movida por impulsos sexuais e cobiça, exatamente como seus ancestrais.

Seu trabalho parece não tomar uma posição ideológica. Você permanece politicamente alheio em todo processo de escrita?

Sempre senti que a ideologia é uma redução pragmática de nossa experiência de vida, que é muito mais complicada e ambígua que qualquer ideologia existente. Tais reduções e simplificações são necessárias enquanto vivemos, mas são, para mim ao menos, um obstáculo quando tento articular a ambiguidade de qualquer interação humana. A ideologia define certos e errados, necessários para uma sociedade sobreviver. Porém, ao se limitar a esse espectro de percepção, você descobrirá, no fim de sua história, que captou algo que é muito menos vívido e sincero do que sente em seu coração.

Por que, em várias entrevistas, você se definiu como judeu e não como israelense?

A religião judaica é construída, sobretudo, sobre dúvida: nossos maiores heróis bíblicos profetas jamais tinham certeza de nada e não hesitavam em discutir com todos, até com o próprio Deus. Desde Abraão, que discutiu com Deus sobre a destruição de Sodoma e Gomorra, a Jonas, que havia recusado a promessa de Deus de que ele diria as suas profecias, o judaísmo permite acreditar e duvidar ao mesmo tempo. Sinto que a identidade israelense é muito menos ambígua que isso, sendo muito mais segura e menos reflexiva sobre qualquer de seus dilemas. Sinto que Israel só tem a ganhar em se reconectar com uma tradição que, ao ser capaz de pensar tanto da maneira convencional como fora dela, conseguiu produzir, entre muitas outras, mentes tão grandes como Einstein, Freud e Marx.

Você também escreve e produz filmes. Como decide que gênero é o certo para cada trama?

As histórias que sinto que posso escrever se tornarão contos, mas as que eu me sinto incapaz de escrever e, ao mesmo tempo, incapaz de me livrar delas chegarão a outros meios como o cinema, novelas gráficas ou até dança moderna.

Suas histórias com frequência têm tanto uma veia cômica como uma corrente subterrânea sombria. É assim que vê o mundo?

Vejo a vida como um presente belo e doloroso e a única maneira que sei de falar sobre a dor sem reverter para a autopiedade e soar patético é pelo humor.

Você é um jovem escritor que lida com temas grandes com gravidade e humor. Qual autor inspirou seu tratamento das coisas?

"Jovem" é um termo muito relativo, imagino. Se fosse um jogador de futebol, eu já estaria aposentado há muito tempo... O autor que provavelmente mais me influenciou foi Kafka. Fui apresentado à sua obra durante o serviço militar obrigatório. Lê-lo não só me ajudou a sobreviver a três anos duros, mas também me fez acreditar, pela primeira vez, que eu poderia realmente escrever. Outros grandes que me influenciaram são Kurt Vonnegut, Gogol, John Cheever e Isaac Babel.

DE REPENTE, UMA BATIDA NA PORTA

Autor: Etgar Keret.

Tradução: Nancy Rozenchan.

Editora: Rocco (256 págs., R$ 34,50).

Artista polonês cria casa inspirada no autor

As histórias curtas narradas por Etgar Keret já foram classificadas com geniais pelo New York Times. Também foram aclamadas por outros escritores de idêntico quilate, como o americano Jonathan Safran Foer, que classificou De Repente, Uma Batida na Porta como o mais engraçado, assustador e emocionante título já publicado por Keret, o que torna a obra um excelente cartão de visitas do escritor.

O mais insólito elogio, no entanto, partiu do artista plástico e arquiteto polonês Jakub Szczesny que, em 2012, construiu em Varsóvia, o que chamou de Casa Keret.

É um prédio que, pela pouca praticidade, pode mais ser chamado de instalação artística. Afinal, trata-se de uma moradia que tem apenas 72 cm de largura em seu ponto mais estreito - o espaço mais largo alcança 133 cm. Para se ter uma ideia do aperto, basta conferir na foto ao lado ou acessar o site www.kerethouse.com, no qual estão disponíveis fotos do escritor, tanto em pé (o que permite dimensionar a estreiteza do local) como deitado em uma cama (de solteiro, obviamente).

A casa, encravada entre dois edifícios e cuja área não ultrapassa os 150 m², foi feita de alumínio e policarbonato e contou com uma cama, uma escrivaninha, uma pequena cozinha e um chuveiro.

Szczesny, de fato, intitula a Casa Keret como uma instalação de arte "na forma de uma inserção entre dois edifícios existentes, que representam diferentes períodos históricos de Varsóvia".

Ele justifica a escolha de Keret não apenas pela opção literária (afinal, trata-se de um autor de contos), mas também pela sua ascendência polonesa.

Etgar Keret exercita ainda outra área artística - a do cinema. Ele escreveu e dirigiu (ao lado da mulher, Shira Geffen, também escritora) o filme Meduzot (Água-Viva), que foi apresentado no Festival de Cannes, em 2007. A produção chegou a impressionar, a ponto de o trabalho receber o Caméra d’Or, dedicado aos melhores estreantes em longa-metragem.

O texto conciso e os diálogos afiados favorecem a adaptação de sua obra para o cinema - cerca de 40 curtas já foram produzidos com base em suas histórias. Keret também variou o estilo e, em 2005, publicou o álbum infantil Pizzeria Kamikaze, em elogiada parceria com o ilustrador Asaf Hanuka.

DICAS DE ETGAR KERET

1. Trate de se divertir escrevendo.

Os escritores sempre gostam de falar sobre como o processo de escrita é duro e o sofrimento todo que ele causa. Estão mentindo. As pessoas não gostam de admitir que ganham a vida com alguma coisa de que genuinamente gostam.

Escrever é uma maneira de viver outra vida. Muitas outras vidas. As vidas de inúmeras pessoas que você nunca foi, mas que são inteiramente você. Toda vez que você se senta e enfrenta uma página, tente - mesmo sem êxito - ser grato pela oportunidade de expandir o escopo de sua vida. É divertido. É legal. É fantástico. E não aceite que alguém lhe diga o contrário.

2. Ame seus personagens Para um personagem ser real, é preciso haver ao menos uma pessoa neste mundo capaz de amá-lo e compreendê-lo, quer ela goste ou não do que o personagem faz. Você é a mãe e o pai dos personagens que cria. Se não puder amá-los, ninguém poderá.

3. Quando você está escrevendo, não deve nada a ninguém.

Na vida real, se você não se comportar, acabará na cadeia ou num asilo, mas na escrita, vale tudo. Se houver um personagem em sua história que o agrade, beije-o. Se há um tapete em suas histórias que você odeia, ateie fogo nele no meio da sala de visitas. Na escrita, você pode destruir planetas inteiros e erradicar civilizações inteiras com o clicar de uma tecla, e uma hora depois, quando a velha dama do andar de baixo a encontrar no corredor, ela ainda lhe dirá boa tarde.

4. Comece sempre pelo meio.

O começo é como a borda queimada de um bolo que encostou na assadeira.

Você poderá ter de mantê-la, mas ela não é realmente comestível.

5. Tente não saber como ela termina.

A curiosidade é uma força poderosa. Não a deixe ir embora. Quando estiver prestes a escrever uma história ou um capítulo, assuma o controle da situação e dos motivos de seus personagens, mas se deixe sempre surpreender pelas reviravoltas do enredo.

6. Não use nada simplesmente porque "é como sempre foi".

Parágrafos, aspas, personagens que continuam com o mesmo nome apesar de você ter virado a página: todas estas são convenções que existem para servi-lo. Se elas não funcioinarem, esqueça-as. O fato de que uma particular regra se aplique a cada livro que você já leu não significa que ela tenha que se aplicar também ao seu livro.

7. Escreva sobre você mesmo.

Se tentar escrever como Nabokov, sempre haverá ao menos uma pessoa (cujo nome é Nabokov) que fará melhor do que você. Mas quando se trata de escrever da maneira que você faz, você sempre será o melhor do mundo em ser você mesmo.

8. Cuide de ficar sozinho na sala onde escreve Mesmo que escrever em bares pareça romântico, ter outras pessoas em volta provavelmente o fará se conformar, quer você perceba ou não.

Quando não há ninguém em volta, você pode falar com você mesmo ou futucar o nariz sem nem mesmo ter consciência disso. Escrever é uma espécie de futucar o nariz, e quando há pessoas em volta, a tarefa pode se tornar menos natural.

9. Deixe que as pessoas que gostam do que você escreve a encorajem.

E tente ignorar todas as demais. Qualquer coisa que você tenha escrito simplesmente não é para elas. Não ligue. Há muitos outros escritores no mundo. Se eles parecem demasiado rudes, provavelmente encontrarão uma que atenda às suas expectativas.

10. Ouça o que cada um tem a dizer, mas não escute qualquer um (exceto a mim).

Escrever é o território mais privado do mundo. Assim como ninguém pode realmente lhe ensinar como você gosta do seu café, ninguém pode realmente lhe ensiná como escrever. Se alguém lhe der um conselho que soe correto e pareça correto, use-o. Se alguém lhe der um conselho correto que pareça errado, não desperdice um segundo com ele. Ele pode ser ótimo para algum outro, mas não para você.

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