Arden Wray/The New York Times
Arden Wray/The New York Times

‘Estou velha demais para ter medo’, diz Margaret Atwood

Autora fala sobre a sequência de ‘O Conto da Aia’, o livro ‘The Testaments’

Alexandra Alter, The New York Times

07 de setembro de 2019 | 16h00

TORONTO — Margaret Atwood não estava certa da continuação de O Conto da Aia, mesmo com os fãs clamando por ela. “O que eles estavam implorando era por uma continuação na voz de Offred, que eu não conseguia fazer”, disse ela tomando chá e suco numa cafeteria perto de sua casa. “Você consegue escalar o Empire State Building de mãos vazias uma vez. Quando tenta novamente, você cai. Era algo extremamente improvável, para começar. Ela disse o que tinha de dizer. Não havia nada que pudesse de fato adicionar.” 

Mas há alguns anos Margaret começou a imaginar a continuação de seu clássico distópico de 1985 sobre as mulheres de Gilead, uma autocracia religiosa que teria sido anteriormente os Estados Unidos, onde mulheres férteis são sujeitas a estupros ritualizados e forçadas a dar à luz filhos para cidadãos da classe alta. 

Entre aquela época e hoje, O Conto da Aia se tornou um fenômeno da cultura pop, um grito de guerra político e uma série de TV do Hulu estrelada por Elizabeth Moss no papel de Offred, a narradora. A edição em língua inglesa do romance vendeu mais de oito milhões de exemplares no mundo todo. Mulheres vestidas como aias inundaram o Congresso e parlamentos estaduais para protestar contra novas restrições aos seus direitos de reprodução. As expectativas de uma continuação do romance, que este mês já foi incluída na primeira lista de indicados para o Booker Prize antes do lançamento do livro na terça, 3, eram estratosféricas. 

Além dessas pressões, o fato é que uma sequência de O Conto da Aia já existe. A adaptação para a TV, criada por Bruce Miller, estendeu a saga de Offred para além do romance. Assim, Atwood e Miller tiveram de calibrar a trama e o desenvolvimento da personagem na série, para que ela não ficasse em desacordo com a continuação escrita por Atwood, ou vice-versa. “Tive de ser cuidadoso quanto à direção que estava seguindo. Ela controla o mundo”, disse Miller. 

A sequência, The Testaments, tem lugar 15 anos depois do fim de O Conto da Aia, quando Offred é levada numa van preta. A continuação tem duas novas narradoras: uma jovem que cresceu em Gilead e uma adolescente canadense que escapou do regime ainda criança – e uma terceira que é familiar para os fãs, pois apareceu no romance e na série: Tia Lydia, a aterrorizante arquiteta do sistema de Gilead, que treina as mulheres para sua servidão reprodutiva. 

À medida que suas histórias entrelaçadas se sobrepõem, Atwood revela novas facetas de como a estrutura de poder de Gilead se constituiu e como ela finalmente desmorona. (A adaptação de The Testaments para a TV está em curso.) 

Margaret Atwood, que completará 80 anos em 18 de novembro, falou da sua obra, de mortalidade e da surpreendente premonição de O Conto da Aia. Abaixo trechos da entrevista.

Quando a senhora anunciou a continuação do romance disse que sua meta era responder a perguntas dos leitores sobre Gilead. Como eram as perguntas? 

Todas elas começavam com “e se?”. E uma delas era: quando os sistemas totalitários desmoronam, qual é a causa? Bem, há muitos cenários diferentes. Eles entram em colapso internamente, com a corrupção e o expurgo entre as elites; ataques de fora, sucessão geracional. A primeira geração, no geral, tem um fervor total, a segunda está focada na administração e a terceira geração começa a pensar: o que estamos fazendo?

Após a eleição de Trump as vendas de O Conto da Aia dispararam. Os leitores notaram como ele tinha elementos alinhados com eventos atuais, como a separação de pais dos seus filhos na fronteira e ataques contra minorias por supremacistas brancos. Escreveu a continuação querendo traçar esses novos paralelos? 

Não. Isso está sempre em fermentação em qualquer país. Os supremacistas brancos sempre estão por aí e eles se revelam quando as condições são favoráveis, quando estão na direita nos Estados Unidos agora.

The Testaments começa 15 anos depois, mas ele tem elementos da trama da série de TV. 

Tentei evitar inconsistências flagrantes. A linha do tempo foi atualizada e deixamos muitas coisas em aberto.

Na 2ª temporada, a bebê de Offred, Nicole, é levada ilegalmente para fora do país. Nicole é central no seu novo livro. Teve a ideia da personagem a partir da série e decidiu expandi-la na sequência?

Não. Deixei muita coisa em branco para ser desenvolvida nos bastidores.

A senhora se envolveu bastante na série que continua a história de Offred além do escopo do seu primeiro romance. 

Tenho influência, mas não poder. É uma grande diferença, Não sou a pessoa que vai aprovar no final. Estou em comunicação com Bruce e faço sugestões como “você não pode matar essa pessoa”. E ele não a matou. Mas, de qualquer maneira, ele não a mataria. Ela é muito boa para morrer.

Qual é a personagem? 

Tia Lydia.

Os produtores já quiseram levar a trama numa direção que a senhora não queria?

Há algumas coisas no livro que eles não absorveram inteiramente, mas é possível ver a razão – é uma série de TV. No livro há muito de supremacia racial. Dei a eles uma saída para a série. Escalaram um elenco multirracial por algumas razões: eles a adaptaram para o momento atual e o Hulu tem uma cláusula de diversidade.

Algo na trama a desagradou? 

Dei alguns gritos, mas não adiantou. É um problema para as pessoas que conhecem o verdadeiro totalitarismo o fato de alguns dos personagens terem sobrevivido tanto quanto eles. Seguramente eles teriam sido mortos a tiros. 

Em The Testaments, Tia Lydia é uma figura mais complexa, tão vítima quanto delinquente. Por que ela é a personagem central na continuação?

Como se chega ao alto escalão em uma ditadura totalitária? Ou você é fiel desde o início, a ponto de ser provavelmente eliminada mais tarde, ou oportunista. Ou pode ser medo, ou então uma combinação de tudo isso. Eu colocaria o medo como hipótese número um: se não fizer isso serei morta. Tia Lydia sempre foi uma carreirista, ela não se perturba facilmente, mas não é uma crente verdadeira como outros. Como J. Edgar Hoover, ela se dá conta do poder de conhecer o lado sujo das pessoas que você não revela publicamente. 

O que mais a assusta hoje?

Sou muito velha para me assustar muito. Você se aterroriza quando é jovem e não conhece a trama. Você não realizou muita coisa quando tem 20 anos, de modo que fica com medo do futuro. Está otimista, se empolga, mas também tem medo. Portanto, o que me deixa otimista, não com medo, são os jovens. Eles estão mudando o discurso político. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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