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'Estou mais interessado em fazer um bom poema do que ser fiel a alguma ideia', diz Charles Simic

Admirador de Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade lança a seleção de poemas 'Meu Anjo da Guarda Tem Medo do Escuro', pela Todavia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 05h00

Com poucos anos de vida, o poeta Charles Simic já armazenava fortes lembranças. Nascido em Belgrado em 1938, logo seu país, a então Iugoslávia, foi invadida pelos nazistas e se tornou palco de constantes bombardeios alemães, ingleses e russos. Ele e a família foram obrigados a deixar a própria casa em diversas ocasiões. Em 1944, o pai fugiu para a Itália por problemas políticos até conseguir se estabelecer nos Estados Unidos.

No comando, a mãe do futuro poeta também tentou fugir, mas ela e os dois filhos foram presos pelos soviéticos até conseguirem escapar para Paris, onde aprenderam inglês. A família finalmente se reuniu em Chicago, em 1954. Hoje, aos 82 anos, Simic é apontado como um dos grandes poetas americanos, cujo alcance da imaginação é comprovado pelas imagens impressionantes e incomuns que marcam sua escrita. “Ele lida com a linguagem com a habilidade de um mestre artesão, mas seus poemas são facilmente acessíveis, muitas vezes meditativos e surpreendentes. Ele nos deu um rico corpo de poesia altamente organizada com tons de escuridão e flashes de humor irônico”, afirmou James H. Billington em 2007, quando Simic foi nomeado Poeta Laureado pela Biblioteca do Congresso americano.

Qualidades que o leitor brasileiro poderá comprovar agora em Meu Anjo da Guarda Tem Medo do Escuro, seleção de poemas feita por Ricardo Rizzo, que também os traduziu e escreveu um alentado posfácio, publicada pela Todavia. O volume traz exemplos de assuntos habitualmente tratados pelo autor: da impenetrabilidade da vida cotidiana a observações de caráter metafísico; de contos populares a casamento, guerra e vida urbana.

“Ali estava uma poesia de um sublime lirismo que se apresentava em claro diálogo com a história”, observa a crítica Maysa Cristina Dourado, que defendeu uma tese de doutorado na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara, em 2007 – ela evidencia as relações existentes entre história e poesia ao avaliar a obra de Simic e também de Affonso Romano de Sant’Anna. “Uma poesia que retratava não apenas a sociedade de tempos passados, mas continha também uma visão irônica do caótico estado da sociedade atual.” Professor universitário, Simic conhece também um aspecto da poesia brasileira, especialmente de Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Lima, como revela nesta entrevista realizada por e-mail.

Música e humor também fazem parte de seus poemas. Quão importantes são esses elementos em sua escrita?

Minha mãe era professora de canto e meu pai estudava canto, então sempre havia música em nossa casa. Quando eu tinha cinco anos, conseguia cantar algumas árias de Mozart e algumas músicas pop americanas. Quando meu pai veio para os Estados Unidos, ele cantava em igrejas evangélicas e, quando chegamos a Nova York quatro anos depois, na primeira noite, ele me levou para ouvir jazz. Quanto ao humor, do lado do meu pai, seus irmãos e irmãs tinham um ótimo senso de humor e meu avô mais do que todos eles. Então, pode-se dizer, a música e o humor foram uma parte importante da minha educação e, portanto, inevitavelmente entram na minha poesia.

“O tradutor é um leitor acirrado”, diz o primeiro verso de Blues da Manhã Nevada. Você escreve seus poemas em inglês, mas também traduziu a escrita de outras pessoas. É possível capturar a essência na tradução?

Às vezes sim, às vezes não. As pessoas me perguntam se, quando eu comecei, escrevi meus poemas em sérvio e depois os traduzi para o inglês, e ficam surpresas quando digo que nunca na minha vida escrevi um poema em minha língua materna, porque, quando comecei a escrever na minha adolescência, obviamente, queria que minhas namoradas americanas entendessem meus poemas de amor para elas.

Gosto deste pequeno poema Rabiscos no Escuro. Isso me faz pensar que há uma experiência de cidade grande neste poema. Estou certo?

Sim, sou um garoto da cidade. A maioria dos meus poemas se passa na cidade de Nova York, onde trabalhei e morei por muitos anos e o restante deles em uma pequena cidade em New Hampshire, onde agora passo a maior parte do tempo.

Por que você gosta dessa restrição de trabalhar com o mínimo de palavras possível?

Existe um ditado, menos é mais, com o qual concordo. Claro, em mais de sessenta anos desde que comecei a escrever poemas, escrevi muitos poemas mais longos. Mesmo assim, a concisão continua sendo meu ideal.

David Slone Wilson, em seu ensaio Evolutionary Social Construction (Construção social evolutiva, em tradução livre), observa que constantemente nos construímos e reconstruímos para atender às necessidades das situações com as quais nos defrontamos. Ele acredita que fazemos isso com a orientação de nossas memórias do passado e nossas esperanças e medos quanto ao futuro. O que você pensa a respeito disso?

Isso faz todo o sentido para mim, já que tudo o que ele menciona surge quando me sento para escrever um poema.

A experiência do imigrante tem sido há muito uma das grandes preocupações da literatura americana e foi revigorada nos últimos anos por uma série de escritores de todo o mundo que cresceram em uma era de globalização. No seu caso e de seu trabalho, há o elemento adicional de vir de um país dilacerado pela guerra. Como é possível para um imigrante se integrar totalmente à vida americana?

Eu nasci em um país que não existe mais chamado Iugoslávia, que foi invadido pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Eu tinha três anos quando as bombas começaram a cair em Belgrado, na madrugada de 6 de abril de 1941, e fui jogado para fora da minha cama com uma chuva de vidro quando uma bomba atingiu o prédio do outro lado da rua e o incendiou. Depois disso, seguiram-se quatro anos de ocupação alemã e atrocidades, além da guerra civil no campo entre cinco facções diferentes que se massacraram entre si e os aviões americanos e ingleses lançando suas bombas sobre os alemães e atingindo principalmente nós, que éramos seus aliados. Como você pode imaginar, ficamos felizes em imigrar. Eu tinha quinze anos quando viemos para os EUA, então eu e meu irmão mais novo levamos a sério a necessidade de adotar o novo idioma e o país.

Você se interessa mais em quão diferente o passado é do presente, ou em quão semelhantes as diferentes épocas podem ser?

Eu não penso muito nisso. Vindo dos Bálcãs, tendo a ser um pessimista sobre a história, alguém que não idealiza o passado nem o futuro. Estou particularmente interessado em quais podem ter sido suas preocupações literárias ou filosóficas quando você criou seus poemas ou como elas mudaram enquanto você os escrevia.

Como assim?

Eu não escrevo poemas para ilustrar alguma ideia filosófica. Eles geralmente têm raízes em alguma experiência que eu tive, algo que vi ou imaginei, mas, o que quer que seja, é mudado durante o processo de escrita. Em outras palavras, posso começar o poema pensando que vai ser sobre meu avô que eu amo muito e depois de muitas revisões acaba sendo sobre seu cachorro porque estou mais interessado em fazer um bom poema que as pessoas queiram ler do que ser fiel a alguma ideia que inicialmente tive em minha mente.

Como as últimas semanas – essas nas quais todos nós somos incentivados a nos auto isolarmos – afetaram o seu tempo gasto escrevendo ou preparando-se para escrever?

Para um escritor, ficar preso por meses é a situação ideal. Eu li muitos livros e escrevi muitos poemas durante o ano passado, muitos dos quais não têm nada a ver com a pandemia, então não estou reclamando.

À medida que escritores e outros profissionais criativos começam a criar arte sobre esse período da história, como você prevê que será a arte emergente da era do novo coronavírus?

Não tenho ideia e ninguém tem, uma vez que esta catástrofe não tem precedentes. Nenhum de nós sabe quanto tempo essa pandemia vai durar, se vamos sobreviver, então Deus sabe o que vai acontecer no futuro e em que tipo de mundo nossos descendentes viverão.

Como você vê a poesia americana hoje em dia? Amanda Gorman na posse de Biden nos fez pensar que a política precisa de poesia.

A poesia americana tem estado em boa forma nos últimos trinta anos. Tudo parece estar cada vez pior neste país, mas muitos bons poetas, jovens e velhos, continuam aparecendo. É claro que hoje, com a maioria das livrarias e bibliotecas fechadas, é muito difícil acompanhar o que os poetas estão publicando, mas muito do que vejo parece bom.

Gostaria de saber sua opinião sobre poetas brasileiros, como Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade.

Eles são grandes poetas que admiro e invejo. Por exemplo, gostaria de ter escrito O Grande Circo Místico, de Lima, e um pequeno poema de Drummond chamado A Mão Suja e muitos outros poemas dele. Um dos grandes arrependimentos da minha vida é nunca ter visitado o Brasil. Recebi um convite uma vez, mas infelizmente não pude ir por causa de alguns compromissos pessoais. Portanto, estou muito feliz que meu livro esteja circulando no País. 

Trecho:

“Um grito na rua.

Alguém se...  

engalfinha com seus demônios.

Depois, a calma volta.

O vento desalinha as folhas.

Os pássaros em seus ninhos

Contentes de ser embalados de volta ao sono.

A noite arrefece.

Fios de sangue na sarjeta

Esperam o amanhecer.”

(Rabiscos no Escuro)

*

“O tradutor é um leitor 

acirrado.

Usa óculos espessos

Enquanto espreita pela 

janela

Os campos e arbustos 

nevados

Que são como folha de papel

Coberta de rabiscos 

apressados

Em uma língua que conhece bem o bastante

Sem saber uma palavra dela,

 

Apenas o que os olhos 

discernem,

E o coração intui de seu 

idioma.

Tão quieto agora, nem mesmo um leve

Roçar de uma página virada

Num dicionário branco e sem palavras

De que o tradutor possa se valer 

Antes que quaisquer palavras ali

Mergulhem na escuridão que chega.

(Blues da Manhã Nevada)

*

“Margaret copiava a receita de “santos assados com cebolas” de um velho livro de culinária. Os dez mil sons do mundo calaram para que pudéssemos ouvir os riscos de sua caneta. O santo dormia no quarto com um pano molhado sobre os olhos. Do lado de fora da janela, sentado numa macieira em flor, o autor do livro matava piolho entre as unhas” (Sem título)

 

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