Linda Fields Hill via The New York Times
Linda Fields Hill via The New York Times

'Este é o fim do mundo, e nós temos o livro perfeito para isso', diz Jim Carrey, agora escritor

O romance do ator, Memórias e Desinformação, escrito com Dana Vachon, usa detalhes da vida e da carreira do ator para contar uma história fictícia de apocalipse e renascimento em Hollywood

Dave Itzkoff, NYT

01 de julho de 2020 | 14h19

Jim Carrey não está nada bem.

No início do romance Memoirs and Misinformation (em tradução livre, Memórias e Desinformação), encontramos Jim Carrey, o protagonista, mergulhado em uma crise existencial, esmagado pela falta de confiança em si mesmo e confinado em sua casa em Los Angeles, onde sobrevive à base de Netflix, YouTube e TMZ. Seus sucessos como ator, em projetos cômicos ou dramáticos, são como objetos que se afastam no espelho retrovisor, e agora ele está obcecado pelo fato inevitável da própria morte e pelo fim do universo.

Este é o início de uma aventura satírica em que Jim Carrey avalia os abismos da cultura de auto-obsessão de Hollywood. Enquanto busca algum significado para a sua vida e carreira, Carrey também tenta escolher papéis principais em uma biografia de Mao Zedong e filmes de estúdio baseados em brinquedos de crianças; lutando contra catastróficos incêndios florestais, um grupo exclusivamente feminino de eco-terroristas e uma invasão de OVNIs; convivendo com pessoas como Nicolas Cage, Gwyneth Paltrow e Anthony Hopkins.

O Jim Carrey de Memoirs and Misinformation também compartilha o mesmo nome e vários detalhes biográficos fundamentais com Jim Carrey, o astro de muitas faces, em filmes como O Máscara, O Show de Truman e Sonic: The Hedgehog, que escreveu o livro com o romancista Dana Vachon (Mergers and Acquisitions).

Memoirs and Misinformation, que a Knopf lançará no dia 7 de julho, é o resultado de um ano inteiro de colaboração destes dois improváveis parceiros. Trata-se de uma ficção baseado em fatos da vida da celebridade, o coautor – e do seu acesso a um mundo de máximos privilégios e de alienação – para contar uma história que, como acreditam os seus criadores, é particularmente oportuna.

Como Carrey explicou em uma entrevista, no início do mês passado: “Este é o fim do mundo, e nós temos o livro perfeito para isso”.

Em uma videoconferência pelo Zoom, Carrey e Vachon falaram da realização de Memoirs and Misinformaiton, das alegrias de trabalhar no limite entre fato e ficção, e sobre que reação eles esperam de Tom Cruise a ele. Abaixo, alguns trechos da entrevista.

Como foi que vocês dois se conheceram?

Jim Carrey: Nós nos conhecemos há cerca de nove ou dez anos, quando o Twitter se tornou uma coisa extraordinária e as pessoas ainda experimentavam a plataforma.

Dana Vachon: Aquele inverno tinha sido realmente deprimente. Eu estava em Williamsburg, tudo estava fechando e todas as construções estavam paradas. E uma manhã, olhei o Twitter e Jim tinha tuitado “BOING”.

Carrey: Eu estava tentando criar outra versão da Força ou chi. A energia que torna tudo positivo no mundo. 

Alguma vez, você pensou em escrever um livro de memórias factuais da vida de Jim?

Carrey: Não há nada, a esta altura da minha vida artística, mais chato do que a ideia de escrever os fatos verídicos da minha vida em ordem cronológica. Este é um trabalho de amor e nós não conseguíamos parar. Começou como uma espécie de jogo de vôlei, pará cá e para lá. E nos últimos anos foram oito horas. 12 horas de trabalho na maior parte dos dias. Mas mesmo quando batíamos de frente, sempre conseguimos alguma coisa mais interessante do que havíamos concebido no começo.

P: O protagonista deste romance se chama Jim Carrey e ele teve uma vida muito parecida com a de vocês. Mas quem é ele?

Carrey: Jim Carrey, neste livro, é na realidade um representante – ele é um avatar de qualquer pessoa na minha posição. Do artista, da celebridade, do astro. Deste mundo com todos os seus excessos e a sua gula, autossuficiência e vaidade. Parte disso é muito real. Você só não sabe o que é o que. Mas até as qualidades fictícias do livro revelam uma verdade. 

P: Dana, como foi para você conhecer o verdadeiro Jim, em contraposição à versão que ele mostra na tela?

Vachon: Em uma das primeiras vezes em que tivemos contato, ele estava assistindo ao Dr. Jekyll e Mr Hyde, de John Barrymore, que constituem o eixo da história. Ele me disse: “Veja Barrymore”. E eu pensei: “Puxa, Jim Carrey assiste muito a Netflix”.

Carrey: Houve momentos em que eu fiquei com muito medo. Eu vejo John Lennon numa maca no YouTube. E piro completamente porque me dou conta de que as pessoas irão tirar selfies de mim quando for o meu corpo. Alguém irá olhar para a cena como se fosse uma novidade. Esse terror e o medo mortal de querer ser um cadáver bonito fez com que eu fosse ao banheiro para me maquiar antes de ir para a cama porque se eu morresse no meio da noite, seria apresentável para um público que me adora.

Houve algum momento em seu processo de criação em que Jim disse que você está levando as coisas longe demais ou nós não podemos chegar a tanto?

Vachon: Estava falando com Nic Cage uns dias atrás. Não havia contado nada do livro para ele e então um dia eu contei sobre isso, (voz de Nicolas Cage): “Jim, fico muito honrado, cara. Você nem imagina”. Eu disse: "Dei pra você as melhores falas". (Voz de Cage): “É uma coisa inaudita!” Ficou muito emocionado com isso. 

Vocês contaram às outras celebridades às quais vocês se referem com o nome delas que elas são personagens do livro?

Carrey: Estamos enviando para todas elas livros com uma carta explicando o que estamos fazendo.

Vachon: “Querida Gwyneth”.

Carrey: É uma sátira e uma paródia, mas também é feita com muito respeito. A maioria das pessoas neste livro é gente que eu admiro muito.

Isso, por acaso, inclui o personagem que você, por razões legais, diz que mencionará apenas como “Laser Jack Lightning”?

Carrey: Só estamos brincando com as brigas em Hollywood. Conheço Tom Cruise. Talvez ele me dê um soco, mas puxa, vou levar o soco como uma obra de arte. Acho que ele vai adorar.

Dana, houve alguns momentos em que este projeto pareceu como uma versão na vida real de Crepúsculo dos Deuses?

Vachon: Totalmente. Barton Fink: Delírios de Hollywood foi o que mais me viria à lembrança. Mas quando comecei a me preocupar, já era tarde demais.

Carrey: Não foi tanto assim.

Vachon: E além disso, nem foram oito anos de trabalho no total. Nós, na realidade, trabalhamos duro, intensamente, nos dois últimos. É que estávamos sempre envolvidos em outras coisas.

O livro retrata de maneira muito vívida a intensa frustração do seu protagonista em relação a Hollywood e ao seu distanciamento do seu trabalho e das suas realizações. Jim, até que ponto isso representa seus sentimentos reais?

Carrey: O Show de Truman não foi um erro. Eu sou um cara que um dia de repente olhou para cima e começou a ver toda a máquina e as luzes descendo do céu. Todo projeto é um pouco de mim mesmo no processo de me recriar. Rasgando o antigo ser e explorando algo novo. Toda a minha carreira. Eu pedi muito ao meu público, e ele me deixou fazer estas coisas. Acho que ele espera isso de mim, de certo modo. Ele não espera algo convencional. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.