Werther Santanaq/ Estadão
Ditado. Repórter Maria Fernanda Rodrigues anota carta de Silvano na Estação da Luz Werther Santanaq/ Estadão

'Estado' reproduz cena de 'Central do Brasil' em homenagem a Fernanda Montenegro

Público enviou mensagens à atriz em ação do Caderno 2 na Estação da Luz; atriz completou 90 anos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 06h00

“Como aventura de vida”, disse Fernanda Montenegro em sua recém-lançada biografia Prólogo, Ato e Epílogo, “há um antes, um durante e um depois de Central do Brasil”. Perto dos 70, e depois de viver grandes papéis no teatro, na TV e no cinema, ela interpretou Dora, a ex-professora que escrevia cartas para analfabetos na estação ferroviária Central do Brasil, no Rio. Ganhou o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim e foi a primeira, e única, atriz brasileira a concorrer ao Oscar.

Fernanda Montenegro faz hoje 90 anos – e o Estado foi à Estação da Luz, em São Paulo, para reproduzir a cena inicial de Central do Brasil. Em vez de cartas para familiares distantes, amores perdidos ou desafetos, as pessoas foram convidadas a ditar uma carta para a atriz.

Uma mesa, duas cadeiras e um cartaz dizendo: Escrevo cartas para Fernanda Montenegro. Sentei-me à espera de quem quisesse mandar uma mensagem para ela. O repórter Leandro Nunes explicava a ideia para quem lançava um olhar para aquela mesa colocada na passarela da estação. 

 A aceitação foi mais rápida do que imaginamos. Logo a servidora pública Patricia, que esperava o trem que a levaria ao aeroporto para poder voltar para casa em João Pessoa, começou, em ritmo pausado dando tempo de a repórter tomar nota: “Querida Fernanda Montenegro. Venho por meio desta agradecer a mensagem que você passou no filme Central do Brasil...”

Socorro, bancária de Fortaleza, que estava de férias em São Paulo visitando os irmãos, foi a próxima. “Quero dizer que aonde você for eu vou também. Que concordo com suas ideias e que queria dizer isso pessoalmente. Sei que você não se dobraria às recentes críticas, mas ainda assim peço que não se dobre mesmo.” Socorro se referia aos ataques de Roberto Alvim, diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, à atriz, a quem chamou de “sórdida”.

O operador de loja Marcos, de 57 anos, foi o primeiro homem a participar. Em sua mensagem, contou que sua mãe era muito fã de Fernanda. “No coração do povo brasileiro, você é demais”, disse. Depois do seu depoimento, registramos uma sequência comovente de mensagens – de homens, principalmente.

Davi está procurando emprego, deixou a prisão e o crack recentemente e é morador de rua. Passou pela mesa com uma pasta na mão, voltou. E parou. “Vou fazer 53 anos e há muito tempo vejo suas novelas e me emociono muito. Você é muito verdadeira. (...) Você transmite muitas coisas boas para as pessoas. Que Deus prolongue ainda mais os seus dias. (...) Apesar dos meus problemas particulares, senti vontade de dar os parabéns. (...) Senti no coração que devia falar isso para você.”

Silvano, de 41 anos e vivendo quase na mesma situação de Davi (mas ele tem dois trabalhos), se emocionou já ao ler o cartaz. Ele contou que, antes de o filme de Walter Salles estrear em 1998, conseguiu um bico no Rio e, dentro da Central do Brasil, viu uma fila. Achou que podia ser doação de comida ou de roupa, mas não – era alguém escrevendo cartas para pessoas que não sabiam escrever.

Cerca de um ano e meio depois, reviu a cena vivida no filme e caiu no choro, como agora, enquanto ele relembra este momento de sua vida. Pergunto por que o filme o tocou tanto, para além dessa coincidência.

“O filme fala da discriminação social que tem muito no Brasil ainda. Bom, naquele tempo tinha muito mais. Hoje, os direitos humanos nos ajudam. E também porque fala de pessoas em situação de vulnerabilidade, que não têm condição de ter o básico: um banho, uma alimentação e uma dormida digna. Isso me dói. Quando vi a placa aqui, quis deixar o meu registro”, ditou.

Questiono se ele quer dizer algo mais pelo aniversário de Fernanda Montenegro e ele fica surpreso, aliviado mesmo. Diz que achou que ela não estava mais aqui, e justifica explicando que é ex-usuário de droga, que passou um tempo ausente. “Fernanda, você é muito linda, maravilhosa. Cresci vendo você. Seja feliz. (...) Parabéns por ser essa brilhante atriz que mostra a realidade para todos nós.”

A representante comercial Cáritas, de 50 anos, também se emociona já ao se sentar. “Agradeço pelo carinho e dedicação à arte. (...) Desejo alegria, saúde e força para continuar sendo a nossa voz. Obrigada por não se calar diante das injustiças.”

Gabriela, de 21 anos, estudante de Direito, respirou fundo e: “Querida Fernanda. Que da arte você seja sempre semente”. 

 

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Para festejar seus 90 anos, Fernanda Montenegro lança livro de memórias

Em 'Prólogo, Ato, Epílogo' a atriz relembra desde a chegada dos avós ao Brasil até seus mais recentes trabalhos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 07h00

Fernanda Montenegro desperta atenção pelos olhos - grandes, inquisidores, investigativos. Em cena, na vida ou no palco, suas palavras têm o peso da veracidade. “Não se sabe o que mais admirar nela: se a excelência de atriz ou a consciência, que ela amadureceu, do papel do ator no mundo. Ela não se preocupa somente em elevar ao mais alto nível sua arte de representar, mas insiste igualmente em meditar sobre o sentido, a função, a dignidade, a expressão social da condição de ator em qualquer tempo e lugar”, observou, certa vez, Carlos Drummond de Andrade.

Exemplo de artista em um país em que essa atividade gera controvérsias, Fernanda se aproxima dos 90 anos de vida (festeja no dia 16 de outubro) com um vigor invejável. “Enquanto eu estiver andando por conta própria, com a memória boa e uma audição razoavelmente perfeita, pretendo continuar trabalhando”, brincou ela na manhã desta quinta, 19, quando conversou com o Estado por telefone. Foi, na verdade, uma maratona de entrevistas para o lançamento, nesta sexta, de Prólogo, Ato, Epílogo (Companhia das Letras), livro de memórias em que relembra desde a chegada dos avós ao Brasil até seus mais recentes trabalhos, como o filme A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, que só estreia no dia 31 de outubro.

Trata-se de um projeto de longa gestação - entre julho de 2016 e novembro de 2017, a jornalista Marta Góes realizou dezoito entrevistas com a atriz. A partir do material recolhido e transcrito por ela, Fernanda se debruçou sobre a própria história, entre novembro de 2017 e agosto de 2019, para dar o contorno final. “Hoje, percebo que muitos fatos ficaram de fora, mas o essencial está ali”, explica ela, que assumiu a tarefa movida por um motivo especial. “Aceitei o convite da editora pensando em meus três netos. Eu gostaria que eles soubessem da história de seus descendentes.”

Tal entendimento sempre foi caro para Fernanda Montenegro, que presenciou importantes mudanças sociais e políticas no Brasil em quase sete décadas de carreira artística - sua estreia no palco aconteceu em 1950, com a peça Alegres Canções na Montanha. No livro autobiográfico, os problemas artísticos caminhavam em paralelo com os do País, a ponto de, em um determinado ponto do relato, ela acreditar na existência de dois Brasis: um com problemas de saúde e educação e outro que nunca esteve melhor.

E como ela vê hoje o País? “Um país indo para o lado de um novo conceito religioso”, conceitua, em uma fala pausada e muito pensada.

 

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Entrevista: Fernanda Montenegro fala de memórias afetivas em autobiografia

Atriz retrata, com uma escrita peculiar, todos os anos de sua formação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 07h00

Se pudesse resumir o conteúdo de sua autobiografia Prólogo, Ato, Epílogo em um punhado de frases, Fernanda Montenegro diria que se trata de uma “viagem com muitos colegas, com muitas crises políticas, com muitas linguagens cênicas, com muita coragem de sobrevivência e resistência”, como já definiu.

Na conversa com o Estado, a atriz detalhou o olhar que tem sobre a situação brasileira. “Há uma mentalidade de censura moral. Estamos nos transformando em um país conduzido por uma visão religiosa e quem não apoiar não terá nada. E a cultura tornou-se o primeiro item a ser revisto e, se possível, exterminado. A arte é demoníaca, e nós, artistas, somos o instrumento do demônio.”

Fernanda aponta, entre as causas dessa situação, a estrutura do sistema político brasileiro que prevê reeleição. “O período militar durou 20 anos e foi marcado por mudanças no comando, mas o sistema era o mesmo, o que se parecia com uma reeleição”, comenta. “Agora, com essa possibilidade prevista em lei, cada político que ganha uma eleição vê uma chance de manter seu partido no poder por 20 anos, o mesmo período da ditadura militar. Herdamos uma deformação política.”

Mulher antenada com as evoluções sociais, Fernanda narra, no livro, como descobriu o feminismo, apoiado principalmente na leitura dos textos da francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), que teve uma influência significativa tanto no existencialismo do feminino como na teoria desse gênero. A ponto de, atualmente, defender com veemência movimentos como o #MeToo, nascido em 2017 com a missão de denunciar o assédio e as agressões sexuais sofridas especialmente por atrizes. 

“É um conceito abstrato, mas com base em fatos reais”, defende. “A conclusão é que o macho é necessário, mas o machão é nojento e criminoso.”

A autobiografia é repleta também de histórias curiosas. Como o momento mais marcante da carreira de Fernanda Montenegro: a consagração conquistada pelo filme Central do Brasil, de Walter Salles. O longa ganhou o prêmio máximo do Festival de Berlim de 1998, o Urso de Ouro. Empolgado, o júri daquele ano passou por cima do regulamento (que não permitia mais de uma honraria para uma mesma produção) e concedeu o Urso de Prata de melhor atriz para Fernanda. 

No jantar festivo da premiação de Berlim, de tão emocionada, ela trincou um molar por causa da tensão tão grande. Foi parar num pronto-socorro dentário. “Deram-me um remédio poderoso que me permitiu esperar até chegar ao Rio”, relembra.

Central do Brasil também a levou à cerimônia do Oscar, onde disputou o prêmio de melhor atriz. Perdeu para Gwyneth Paltrow e sua atuação nada surpreendente em Shakespeare Apaixonado. Sua atuação, no entanto, chamou atenção de David Letterman, então um dos mais famosos apresentadores da televisão americana. “Muitas pessoas dariam um braço para serem entrevistas por ele, mas eu não queria, pois não teríamos o que conversar - David nem tinha visto o filme”, comenta Fernanda, no livro. Mesmo assim, seu bom humor (em determinado momento, apresentou-se como a Velha Garota de Ipanema) conquistou o apresentador.

O cinema, aliás, foi um meio no qual Fernanda Montenegro exercitou seu amor ao ofício por ter trabalhado em muitas produções de baixíssimo orçamento. Como em Eles Não Usam Black-Tie, dirigido por Leon Hirszman em 1981. Baseado em uma peça de Gianfrancesco Guarnieri, que dividiu o protagonismo com Fernanda, o longa mostra os efeitos do movimento grevista em uma família operária.

No papel de Romana, a atriz ofereceu uma das mais perfeitas performances do cinema brasileiro, com uma interpretação contida, baseada principalmente no tom de voz e no olhar. E a cena final foi um dos motivos que convenceram os jurados do Festival de Veneza de 1981 a conferir o prêmio máximo, o Leão de Ouro.

Fernanda assim descreve a rodagem daquele take: “Na última cena do filme, naquela cozinha paupérrima, só estavam (o diretor de fotografia) Lauro Escorel, Guarnieri, eu e Leon que, emocionado, nos falou que a cena seria, para ele, um modesto tributo ao (cineasta russo Sergei) Eisenstein. Diante dessa oferenda, nos baixou uma comoção, diria, religiosa.”

Não houve ensaio entre ela e Guarnieri. “Só nos olhamos e começamos ganhando as pausas, os olhares, os toques de mão, nossos dedos salvando os bons grãos, os não podres - os grãos que, um dia, vão nos tirar da injustiça social do País”, escreveu.

O ofício sempre esteve em primeiro lugar, postura que lhe ditou os caminhos da arte, especialmente quando participou da fundação da Companhia dos Sete, ao lado de Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli, Alfredo Souto de Almeida e Fernando Torres, seu companheiro, com quem viveu por 60 anos até sua morte, em 2008

O livro traz a mensagem de uma missão bem executada, ainda que incompleta. Na última frase, Fernanda revela sua sensação de dever cumprido: “Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inarredável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas acordo e canto”.

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