Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Esquerdas latino-americanas e viagens em debate na Flip

Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho conversaram, em Paraty, sobre crise política e deslocamentos

Guilherme Sobota, Enviado Especial - O Estado de S. Paulo

04 Julho 2015 | 15h07

PARATY - A percepção da ruína de uma oportunidade política extraordinária no Brasil fez a intelectual argentina Beatriz Sarlo lamentar publicamente, neste sábado, 4, na primeira mesa da Festa Literária Internacional de Paraty. “O que me dói é a corrupção que existe no Brasil”, disse a escritora e crítica literária, que dividiu a Tenda dos Autores com a jornalista e ficcionista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

“A diferença fundamental entre aqui e o meu país”, disse Beatriz, “é que aqui prenderam José Dirceu, no meu país ninguém foi preso, o vice-presidente continua sendo vice-presidente”. 

Crítica severa dos governos Kirchner e estudiosa das esquerdas latino-americanas, ela demonstrou otimismo em relação à Justiça brasileira. “Há resoluções da Justiça que foram acatadas, e essa é a única maneira de enfrentar a corrupção”, afirmou. “Não é que o Judiciário esteja extraordinariamente bom, mas é uma instituição que parece estar funcionando, e essa é a minha esperança”, disse, para aplausos efusivos do público.

Questionada sobre a política brasileira e as crises da esquerda nos países da América do Sul, Beatriz explicou que o carisma é uma dimensão que se faz necessária na região – personificada no Brasil pela figura do ex-presidente Lula. “Ele pareceu cumprir, no seu surgimento político, um sonho da esquerda latino-americana: um sindicalista respeitado, cercado por intelectuais de verdade”, afirmou. “O carisma dele exerce um impacto físico”, prosseguiu Beatriz, “mas o problema é que, segundo a teoria de Max Weber, não se pode transmitir o carisma. Nós talvez preferíssemos um aspecto mais racional, mas a América do Sul precisa dessa dimensão, seja com a democracia, seja com o autoritarismo”.

Política. Alexandra está em Paraty para lançar o livro de crônicas Vai, Brasil, pela editora Tinta-da-China, sobre o período que vai do fim de 2010, após as eleições, até as jornadas de junho de 2013. Para ela, a grande herança do período foi a descoberta da conexão da cidade do Rio com o mundo presente e a história “brutal” do Brasil.

“O que aconteceu na Aldeia Maracanã, em março de 2013, com a polícia jogando gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha em índios, estudantes e todo mundo, foi um preâmbulo para as jornadas de junho”, disse – e reafirmou a conexão latente da violência com a própria formação do Brasil. “O extermínio dos índios é uma violência original e fundadora do que vai ser o País, assim como os 300 anos de escravidão. Nunca deixará de ser brutal pensarmos nesse período.”

Por muitos anos correspondente internacional em zonas de conflito armado, como Iraque e Afeganistão, ela também considera o questionamento da lógica militar da polícia brasileira um bom legado desse período. “Vi nos morros do Rio tipos de armamento (de traficantes e da polícia) que eu só tinha visto em zonas de guerra”, afirmou.

Beatriz está publicando no Brasil o livro >Viagens: Da Amazônia às Malvinas, em e-book, pela editora e-galáxia – relatos de andanças que Beatriz empreendeu desde os anos 1960, até mesmo uma delas para Brasília. Ela explica que escreveu e publicou os relatos meio que por uma missão que lhe foi passada por amigos e colegas das viagens.

“Não me preparei para as viagens deste livro, mas fui preparada por outros”, comentou, citando os imigrantes que formaram as colônias na América do Sul. “Somos produtos dessas viagens de outros.” Para a pensadora, sem esses episódios, nossas sociedades urbanas tão misturadas, como a paulistana e a portenha, por exemplo, não existiriam: “essa é a tese central que tenho, por cima desse livro, que não comunica nenhum tipo de saber, mas sim a passagem da ignorância mais absoluta para certo tipo de conhecimento sobre a América”, explicou.

Alexandra, por sua vez, explicou sua experiência “decisiva” de primeiro contato com o resultado dos colonizadores da América. “Já havia visto o resultado dos imperialismos britânico e francês ao redor do mundo, mas uma experiência fundamental foi ir ao México, em 2010, e ter contato com os indígenas”, explicou. 

A jornalista então tomou a “decisão política” de lidar com o resultado dos 500 anos do imperialismo “do lugar de onde eu venho” e morar no Brasil (ela viveu no Rio até 2014). “Precisei dar uma volta ao mundo para chegar ao Brasil talvez mais liberta dessa esquizofrenia que nos empurra para uma das pontas, a culpa ou a arrogância do colonizador”, disse. “Esse fato me deu liberdade para olhar para trás e conseguir pensar como seria para frente.”

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