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Especialista mostra relações entre literatura e psicanálise na obra de Dostoievski

Com 'Os Ensinamentos da Loucura', Heitor O’Dwyer de Macedo mostra o mundo de loucura e normalidade nos livros do escritor russo

Sérgio Telles, Especial para O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2014 | 20h27

É decisivo o papel do inconsciente na construção dos personagens de Dostoievski, o que o deixa como um autor no qual as relações entre psicanálise e literatura são particularmente claras. Ciente disso, Heitor O’Dwyer de Macedo, psicanalista brasileiro radicado há muitos anos na França, examina, em Os Ensinamentos da Loucura, três obras do mestre russo – Memórias do Subsolo, Crime e Castigo e O Duplo. Nelas, sublinha a importância do trauma e salienta a compreensão de Dostoievski sobre a dinâmica psíquica que somente décadas depois seria descrita por Freud. Macedo mostra como enquanto alguns de seus personagens, possuídos por suas paixões, distanciam-se da realidade, outros lidam com eles de forma terapêutica tão apropriada que poucos reparos mereceriam de um psicanalista.

O sugestivo título Memórias do Subsolo evoca a “outra cena” descrita por Freud. É de lá que o “homem do subsolo” – pois não tem outro nome – diz coisas hediondas sobre si mesmo e os valores convencionalmente estabelecidos. No primeiro capítulo, “O subsolo”, o personagem se desmerece e se autoflagela sem cessar. No segundo, “A propósito da neve molhada”, são descritos episódios ocorridos vinte anos antes, nos quais age de forma destrutiva consigo mesmo e com o outro, especialmente com a prostituta Liza. Alternando desprezo e consideração, faz com que ela acredite que poderia ajudá-la. Quando Liza se entrega e revela seu segredo mais doloroso – ter sido vendida pelo pai para uma cafetina – ele a rejeita, deixando-a aniquilada. O ter sido – como ela – uma criança abandonada é a fonte do ódio que o consome. Presa da compulsão à repetição, ele não se dá conta de que recria permanentemente a situação traumática de abandono e rejeição. Macedo mostra que o homem do subsolo faz com Liza o que, na infância, os pais haviam feito com ele. De certa forma, Liza entende que é por esse motivo que a trata de forma tão ignominiosa. 

Na longa análise que faz de Crime e Castigo, Macedo também atribui a situações traumáticas de abandono na infância o assassinato realizado por Raskolnikov. Os descuidos de uma mãe perversa e um pai ausente o levam a construir defesas onipotentes megalomaníacas que o permitem sobreviver. Isso fica patente em sua tese sobre os “homens extraordinários”, qualificação que os autorizaria a fazer o que bem entendessem, sem ter de acatar os impedimentos impostos pela lei. 

Aqui, segundo Macedo, a habilidade terapêutica de Dostoievski transparece na forma como Razumíkhin, Porfiri e Sônia lidam com Raskolnikov. 

Razumíkhin é o amigo, o outro bondoso não persecutório que lhe possibilita romper com o enclausuramento narcísico. Mas é na forma como Porfiri leva Raskolnikov a confessar o crime onde a “técnica terapêutica” de Dostoievski se mostra mais evidente. Sônia, agindo como continente da agressão e desagregação de Raskolnikov, consegue retirá-lo da perniciosa influência de Svidrigáilof, o “verdadeiro” assassino da história. Ao fazê-lo entregar-se à policia e cumprir a devida pena, Sônia reintegra Raskólnikof na ordem simbólica, salvando-o da perversão e da loucura. Através da mediação de Sônia, o contato com o mundo não lhe fica tão ameaçador, a vida deixa de ser uma perpétua reatualização do trauma vivido como criança nas mãos de pais incompetentes, doentes. 

Quando Raskólnikof finalmente admite para Sônia a autoria do assassinato, ao contrário de rejeitá-lo, ela o abraça e diz que o ama, pois entende que a confissão é a evidência de uma profunda mudança que se processara nele – a disposição de não mais fugir do encontro amoroso com o outro por medo do abandono. 

Em O Duplo, o frágil Goliádkin tem vergonha de si mesmo, sentimento que Macedo aproxima dos adolescentes que têm de se acomodar a um novo corpo e às exigências da sexualidade. Goliádkin cria então um duplo de si mesmo, que terminará por tomar seu lugar, completando a cisão de forma trágica.

Os turbilhões psíquicos desses personagens de Dostoievski levam Macedo a citar por duas vezes uma intrigante afirmação do psicanalista inglês Winnicott: a psicose está mais próxima da saúde psíquica do que os ideais de normalidade. Se lembrarmos que a saúde mental decorre de um bom contato com os desejos e fantasias inconscientes devido à flexibilização e porosidade da censura imposta pelos sistemas repressivos e punitivos internos, de fato ela está mais próxima da loucura, quando o inconsciente está a céu aberto e sem nenhuma censura, do que da normalidade, onde os conteúdos inconscientes estão rigorosamente censurados, reprimidos, negados, manifestando-se tortuosamente através de penosos sintomas. O aparente disparate de Winnicott fica esclarecido e se chega a uma conclusão consequente – os perturbados personagens de Dostoievski estão, sim, longe da normalidade, mas próximos da saúde mental. O livro supõe prévio conhecimento dos textos de Dostoievski e da teoria psicanalítica. Visa, portanto, um público específico, que terá bom proveito com sua leitura. 

SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR E AUTOR DE O PSICANALISTA VAI AO CINEMA, ENTRE OUTROS.

OS ENSINAMENTOS DA LOUCURA – A CLÍNICA DE DOSTOIEVSKI

Autor: Heitor O’Dwyer de Macedo

Editora: Perspectiva (150 págs.,R$ 39)

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