Flavio de Barros/Museu da República
Canudos. Registro dos prisioneiros do arraial, no interior da Bahia, em 1897  Flavio de Barros/Museu da República

Euclides da Cunha na Flip 2019: obra do escritor vai a Paraty para a a 17ª Festa Literária

Lançamentos sobre ‘Os Sertões’ mostram como Euclides da Cunha fez, no livro, uma autocrítica a respeito do ocorrido em Canudos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2019 | 03h01

Autor de Os Sertões, uma das obras fundamentais da literatura brasileira, Euclides da Cunha (1866-1912) será tema de discussões a partir de quarta-feira, 10, quando começa a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na cidade fluminense. Por ser o escritor homenageado da vez, Euclides será apresentado por meio de suas qualidades e também contradições. Afinal, se era devoto de determinismos raciais e geográficos que hoje são condenados, o escritor, ao voltar da cobertura que fez para o Estado da revolta de Canudos (1896-1897), era um homem coberto de dúvidas.

“Se a literatura nunca é um reflexo imediato da vida privada, aqui ela guarda uma clara correspondência”, anotam os pesquisadores Lilia Moritz Schwarcz e André Botelho, no prefácio da edição de Os Sertões lançada pela Companhia das Letras, um dos vários lançamentos referentes à obra que chegam agora às livrarias. “No caso de Euclides da Cunha, sua formação, as incertezas que viveu com relação à política, as teorias que aprendeu e adotou para si, e as experiências que acumulou pelo Brasil afora fizeram toda a diferença. Em Os Sertões, o autor estava muito presente, embora a obra fosse maior do que ele. Muito maior.”

Um dos marcos fundamentais nos estudos sobre a formação brasileira, Os Sertões foi publicado em 1902 e é a consolidação e aprimoramento da cobertura jornalística do levante de Canudos, que Euclides realizou para o Estado, a pedido de Julio Mesquita. Empoleirado no lombo de um cavalo ou comprimido no tombadilho de um navio, nada parecia ser empecilho para o escritor, que deixou a capital paulista no dia 1.º de agosto de 1897. 

Outros correspondentes já acompanhavam as infrutíferas tentativas do exército republicano de derrotar os seguidores de Antônio Conselheiro, no interior da Bahia, e Euclides destacava-se como o escolhido natural para representar o jornal: colaborador havia nove anos, o escritor publicara, nos dias 14 de março e 17 de julho daquele ano, dois artigos com o título comum de A Nossa Vendéia. No período em que cobriu o levante, Euclides passou por um verdadeiro rito de passagem: se quando deixou São Paulo estava seguro da natureza monarquista da rebelião em Canudos, o escritor (republicano convicto) foi obrigado a reformular seu julgamento, forçado pelas contingências. Diante de famílias reunidas em torno de um líder messiânico, Euclides percebeu que o movimento estava próximo de um massacre. 

De fato, com o argumento de se defender a “civilização”, todas as casas do arraial foram destruídas e boa parte dos prisioneiros foi degolada. “Em Os Sertões, Euclides acusou o Exército, a Igreja e o governo pela destruição da comunidade e fez a autocrítica do patriotismo exaltado de suas reportagens”, escreveu o especialista Roberto Ventura em A Terra, o Homem, a Luta (Três Estrelas), que ganha nova edição. “Reconheceu, de certo modo, a omissão de sua cobertura da guerra, ao mencionar o massacre dos prisioneiros, sobre o qual antes se calara. Criticou ainda a aproximação entre Canudos e a Vendeia, que empregara em seus artigos, e descartou a ideia de uma conspiração política, apoiada por grupos monárquicos e países estrangeiros, que havia justificado o massacre.”

Ventura, que foi um dos grandes especialistas em Euclides, observou que o escritor adotou a perspectiva do historiador e ensaísta, “bem próximo do naturalista e do etnólogo e muito distante do mero cronista ou jornalista, como forma de superar a possível falta de interesse pela Guerra de Canudos, encerrada havia cinco anos”.

A mudança de perspectiva também norteou a forma como o Estado passou a observar o fato, segundo a pesquisadora Lidiane Santos de Lima Pinheiro, no livro A Construção do Acontecimento Histórico (Edufba). “Entre lembranças (voluntárias ou obrigadas) e esquecimentos (parciais ou completos), o jornal saiu do discurso que defendia a destruição do arraial antirrepublicano e seguiu em direção à crítica da guerra”, anota ela. “Também foram mudadas as versões sobre a quantidade de habitantes de Canudos de 1897, sobre sua associação ao fanatismo, sobre sua ligação com o debate em torno da propriedade de terras etc. Tais releituras, contudo, não foram aleatórias, pois, com o tempo, os trabalhos acadêmicos e outras manifestações culturais interferiram significativamente na interpretação do acontecimento.”

Estante - Euclides da Cunha

OS SERTÕES

Autor: Euclides da Cunha

Org.: Leopoldo M. Bernucci

Editora: Ateliê e SESI-SP (928 págs., R$ 120)

OS SERTÕES

Autor: Euclides da Cunha

Org.: André Bittencourt

Editora: Penguin Companhia (704 págs., R$ 54,90)

SERTÕES: LUZ & TREVAS

Autores: Euclides da Cunha e Maureen Bisilliat

Editora: IMS (192 págs., R$ 134,50)

A TERRA, O HOMEM, A LUTA

Autor: Roberto Ventura

Editora: Três Estrelas (104 págs., R$ 37,90)

A CONSTRUÇÃO DO ACONTECIMENTO HISTÓRICO

Autora: Lidiane S. Pinheiro

Editora: Edufba (331 p., R$ 35)

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Caderno inédito mostra como família de Euclides da Cunha soube de seu assassinato

Diário guardado por mais de 50 anos revela o profundo impacto que a notícia da morte prematura do escritor, aos 43 anos, teve na família Cunha

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2019 | 03h00

O caderno foi guardado por mais de 50 anos, depois perdido dentro de casa e reencontrado agora em uma mala que estava guardada dentro de outra mala num apartamento do bairro da Aclimação, em São Paulo. Como nos antigos cadernos de receita, a dona o dividiu em duas partes. De um lado, ela escreveu uma breve biografia dos membros de sua família e alguns textos que expressavam toda a sua solidão. Virando, lemos apenas dois textos. O primeiro é intitulado Meu tio. O outro, traz uma data: 15 de agosto de 1909.

15 de agosto de 1909 foi o dia em que Euclides da Cunha tentou matar Dilermando de Assis, amante de sua mulher, e acabou morto por ele. “São passados 50 anos e minha memória de velha incapaz de reter uma leitura de 50 dias atrás guarda viva a lembrança desse dia infeliz.” Assim começa o texto de Walinda da Cunha Vieira que, naquele longínquo ano da ‘tragédia de Piedade’, tinha 15 anos.

Era um domingo cinzento e chuvoso em São Carlos. A menina ficou no quarto lendo e de lá ouvia as risadas gostosas do avô e do pai enquanto a mãe lia Lisboa em Camisa, do português Gervásio Lobato, para os dois. No fim da leitura, o avô fala: “Pois é, apesar desta chuva cacete passamos um dia alegre”. Walinda olha para o avô magro e abatido – ele estava se recuperando de um problema no coração – e sente uma tristeza. “Eu não sabia que lá longe na mesa fria de um necrotério jazia morto o filho que era todo o seu orgulho, o filho que ele estava esperando”, continua.

No dia seguinte, foram à sua escola dizer que sua mãe estava doente e precisava dela. “Corri aflita e que espetáculo doloroso fui encontrar na sala. Mamãe, amparada pelo papai carinhoso, ajoelhada no chão, gemia chorando: ‘Meu irmão, meu pobre irmão’.” Ao ver a menina, Adelia pede que ela vá distrair o avô, seu pai, que não sabe de nada – Walinda tampouco está entendendo alguma coisa. Só quando chega um amigo da família é que ela compreende, e assim narra meio século depois: “Tinham matado, no Rio, o bom titio Euclydes – aquele titio pequeno, magro, nervoso, sempre a atirar para trás o cabelo negro, liso mas rebelde, que ralhava conosco quando com as nossas algazarras perturbávamos-lhe a leitura, mas que sabia nos dizer palavras tão bonitas sobre a pátria quando nos via brincando com suas espadas.”

A notícia chega em partes a Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha. Primeiro Adelia conta ao pai que recebera um telegrama dizendo que o irmão tinha tido uma recaída de uma pneumonia e estava passando muito mal. Aflito, ele quer partir no dia seguinte. Depois forjaram um telegrama falando da morte. Chorando, ele pedia para lerem os jornais que tinham chegado. “Vovô que ouvia cabisbaixo, com lágrimas a escorrer-lhes pelas faces, levantou a cabeça e disse: ‘Meu filho morreu como um digno’." 

A família estava preocupada com o coração do pai de Euclides da Cunha, mas ele se manteve firma na presença de todos e só chorava baixinho quando ficava só, relembra a neta. Um mês depois, ele quis voltar para sua fazenda, para fazer os pagamentos. Tentaram dissuadi-lo, mas ele foi, reuniu o pessoal, acertou tudo, retirou-se para o seu quarto, passou mal e morreu. “Na cabeceira da cama, sobre o criado mudo, com as páginas marcadas por um pince-nez e cinzas de charuto estava o volume d’Os Sertões, o seu neto glorioso.”

No outro texto do caderno, que antecede este sobre a morte do escritor e não tem data, Walinda relembra o feriado de Páscoa na fazenda Trindade em 1908. Seu pai chegou com o cunhado, Euclides, e porque não o via há algum tempo, ficou tímida. Estava vermelha do sol, com tranças negras despencando nas costas. “Ele com um sorriso bom no seu rosto magro perguntou caçoísta: ‘Então, Adelia, onde foste arranjar esta saloia?' Não gostei do gracejo e, desapontada, apertei em silêncio a mão que ele me estendia. ‘Então que costume é esse? Já não toma mais a bênção do tio, sua cigana?’ Pronto, acabei de enfezar”, escreve, já mais velha. Não quis mais conversa com o tio nos três dias que passaram juntos e nem perguntou dos primos Solon e Quidinho.

Quem faz a ponte entre essas lembranças escritas em páginas hoje amareladas e frágeis e o presente é Regina Coeli Vieira Barini, de 72 anos, sobrinha-neta de Walinda, ou de Zica, como ela a chama. Ela descobriu esse caderno na garagem do pai quando uma terceira pessoa, Geralda, que vivia com sua família desde pequena, morreu (poucos anos depois de Walinda). 

Regina podia saber mais sobre a história de sua família, mas não guarda nenhum arrependimento por não ter feito perguntas quando teve a chance, por não ter fixado tudo que ouviu. Era só uma adolescente que sabia, sim, que havia uma pessoa famosa na sua árvore genealógica, mas não tinha a dimensão disso e não considerava que o único elo entre os dois não seria eterno. Não se arrepende, mas acha uma pena que tenha sido assim.

Recentemente Regina ficou muito doente e quando conseguiu se reerguer decidiu revelar essas memórias. “Minha tia gostava tanto dessa história, e a gente gostava tanto dela, que pensei que ainda dava tempo de contar”, diz. Na verdade, esse acerto de contas com um passado de lacunas começou há cerca de 15 anos, quando sua primeira neta foi morar nos Estados Unidos. Regina pensou que podia morrer quando ela estivesse fora, e que a menina, então com dois anos, não teria nenhuma lembrança dela. Contou sua trajetória num livro que fez pela internet. Anos depois, decidiu fazer outro, sobre a família. Como ela não ligava muito quando tia Zica falava do passado, seus filhos também não estavam muito interessados, ela conta. “Eu queria deixar esse registro para eles saberem da nossa história. Quem ia contar? Não tem mais ninguém”, diz.

Árvore genealógica

Walinda da Cunha Viera (1894–1965) foi filha de Adelia Pimenta da Cunha (1868–1922). Adelia, única irmã de Euclides da Cunha, teve outros dois filhos: Oleno e Carlos. Carlos morreu solteiro. Oleno se casou com Beatriz e o casal teve dois filhos: Oleno e Marilia. Oleno não teve filhos. Marilia se casou com Orestes, e nasceram Beatriz e Regina Coeli Vieira Barini, quem nos conta essa história.

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A vida de Euclides da Cunha: uma linha do tempo

Escritor teve trajetória conturbada que culminou com sua morte por assassinato em 1909

Redação, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2019 | 03h00

Euclides da Cunha teve uma vida inusitada, para dizer o mínimo, passando por diversos pontos do Brasil, seja pela sua formação militar, seja por seus trabalhos posteriores como funcionário público de São Paulo. Isso sem contar sua morte episódica, aos 43 anos, assassinado pelo amante da mulher, numa espécie de duelo digno de faroestes.

Abaixo, uma linha do tempo da Vida de Euclides da Cunha.

20 de janeiro de 1866 (Cantagalo, Rio de Janeiro)

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasce na Fazenda Saudade

1877-8 (Salvador, Bahia)

Estuda no Colégio Bahia

1883-4 (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro)

Após cursar os preparatórios na cidade, ingressa no Externato Aquino, onde conhece Benjamin Constant e começa a publicar textos

1886

Transfere-se à Escola Militar da Praia Vermelha

1888

Fica um mês preso após insurgir-se contra o ministro da Guerra do Império, e mais tarde é expulso do Exército. Publica seu primeiro texto no jornal A Província de São Paulo (mais tarde, O Estado de S. Paulo) em 22 de dezembro

1889

É reintegrado ao Exército e conhece sua futura esposa, Ana Emília Sólon Ribeiro

1892

Torna-se primeiro tenente do Exército e passa a colaborar com O Estado de S. Paulo após a Proclamação da República

1896 (Descalvado, São Paulo)

Abandona a carreira militar e passa a trabalhar como funcionário público em São Paulo. Em novembro, se dá a primeira expedição militar contra Canudos

1897 (São Paulo, São Paulo)

Em 14 de março, sai no Estado seu primeiro texto sobre Canudos. Ele aceita convite do jornal para ser repórter de guerra e parte, em agosto, para a Bahia, com a comitiva do ministro e marechal Carlos Machado de Bittencourt. Canudos cai.

1898

Publica no Estado Excertos de um Livro Inédito, primeira indicação do que seria Os Sertões

1901 (São Carlos do Pinhal, São Paulo)

Leva o manuscrito de Os Sertões à Livraria Laemmert, no Rio, mas tem que bancar uma parte da edição

1903 (Santos, São Paulo)

Os Sertões já é um grande sucesso. Euclides é eleito para a Academia Brasileira de Letras e empossado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro 

1905 (Manaus, Amazonas / Purus, Peru)

Passa o ano trabalhando em missões da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia

1909 (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro)

É nomeado professor no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II). Em 15 de agosto, é assassinado a tiros pelo amante da esposa, Dilermando de Assis, no bairro da Piedade

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Flip 2019: Walnice Nogueira Galvão é convidada para falar de Euclides da Cunha

Crítica literária é convidada da Festa Literária Internacional de Paraty e também prepara nova edição de ‘No Calor da Hora’, sobre Canudos; evento ocorre de 10 a 14 de julho

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 03h00

Uma das maiores especialistas em Euclides da Cunha (1866-1909) no Brasil, com 12 livros publicados sobre o escritor e sobre Canudos, a crítica literária e professora emérita da USP Walnice Nogueira Galvão participará da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, cujo homenageado é o autor de Os Sertões. A Flip deste ano ocorre de 10 e 14 de julho, na cidade do litoral fluminense.

Uma nova edição de No Calor da Hora – A Guerra de Canudos nos Jornais, a primeira em cerca de duas décadas, também está sendo preparada pela editora Cepe/Selo Suplemento Pernambuco. O livro lançado em 1973 – a tese de livre-docência de Walnice – é o motivo pelo qual a pesquisadora até hoje não confia nos jornais. “Você me desculpe”, diz ela por telefone, “mas a mídia era cúmplice e fazia lavagem cerebral dos brasileiros”.

Euclides, explica, era prata da casa do Estadão. Desde que fez um ato de protesto contra a monarquia e foi expulso da Escola Militar, no Rio, em 1888, se mudou e o jornal (então A Província de São Paulo) o acolheu. Ele escreveu “violenta propaganda republicana”, segundo Walnice, e depois da Proclamação voltou para o Rio, de onde seguiu colaborando para o veículo.

Em 1897, vai para Canudos (Os Sertões sai em 1902) a pedido do jornal. Ele fica menos de um mês no local, no fim da Guerra. “É um fenômeno curiosíssimo o que acontece ali, porque ele era tenente do Exército, engenheiro militar, depois civil. Mas ele era imbuído do que aprendeu na Escola Militar, na época uma escola de vanguarda, seguindo o modelo da Revolução Francesa. Os militares da época viraram revolucionários. Então, ele vai para Canudos achando que vai combater os monarquistas. Chegando lá, encontra pobres miseráveis, e o exército equipadíssimo massacrando aquele povo. Ele então sofre um problema de consciência tremendo, o qual você pega com a mão nas páginas d’Os Sertões, e muda de lado. Ele deixa de torcer pelo exército e passa a torcer pelos rebeldes. Isso é uma coisa tremenda.” O livro é a história dessa passagem.

Embora não tenha se envolvido diretamente no movimento de derrubada da monarquia, Cunha foi beneficiado. “Imediatamente após o golpe que proclamou a república, ele é readmitido na Escola Militar.”

“Euclides tem muito a dizer sobre o que está acontecendo no Brasil hoje”, garante Walnice. “Ele tinha uma preocupação com a justiça social e escreveu um livro que é um monumento de denúncia da maneira com que o Brasil trata os pobres, a ferro e fogo, num momento que os pobres também estão sendo tratados a ferro e fogo. O processo adquiriu outros disfarces, mas isso não mudou.”

A escolha de Euclides tem a ver com a vontade de Fernanda Diamant, a nova curadora da Flip, de investir mais em não ficção na programação do evento em 2019. “Os Sertões é o primeiro clássico de não ficção brasileira, uma obra exemplar. Uma não ficção que é uma grande literatura”, disse a curadora.

O livro está disponível em algumas edições. Uma coedição da Edições Sesc e da Ubu, organizada e comentada por Walnice Nogueira Galvão, resultou em dois produtos diferentes (a Ubu lançou como caixa, em 2016; a Sesc publicou um ano antes, num volume único). Leopoldo Bernucci editou um volume de 928 páginas para a Ateliê Editorial, em 2018. A Martin Claret também tem uma versão na praça – a chancela da Flip costuma estimular o mercado a soltar novas edições.

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Como Euclides da Cunha criou o mito do sertão em sua obra-prima

Mesmo não havendo nascido no sertão de que trata em sua obra, Euclides foi quem mais contribuiu para estabelecer o modelo de semiárido habitado por bárbaros

Ronaldo Correia de Brito*, Especial para o Estado

15 de junho de 2019 | 16h00

Euclides da Cunha será o homenageado da Flip 2019. Nada mais justo. No ensaio Euclides da Cunha: Revelador da Realidade Brasileira, Gilberto Freyre já o referia como um dos escritores brasileiros de maior influência sobre o nosso povo, e que chamava atenção dos estrangeiros para a cultura em geral e para as letras em particular, de um ainda obscuro Brasil. 

Mesmo não havendo nascido no sertão de que trata em sua obra, Euclides foi quem mais contribuiu para codificar o que lhe pareceu sertão, guiando leitores e gerações futuras a buscarem o modelo estabelecido de semiárido habitado por bárbaros, num processo semelhante ao dos orientalistas em relação ao Oriente. Da mesma maneira que o Oriente é corrigido e penalizado por estar fora dos limites da Europa e América do Norte, o sertão do Nordeste brasileiro sofre processo semelhante por se encontrar fora dos limites da sociedade do Sul e Sudeste. É igualmente “sertanizado” por acadêmicos e cientistas, tornando-se propriedade de um conhecimento nem sempre verdadeiro. 

A partir do genocídio praticado contra os conselheiristas de Canudos – recuso a denominação de jagunços –, retratado com parcialidade pelo geógrafo, engenheiro, militar e jornalista, se evidenciam as incompatibilidades entre os vários sertões. As sociedades heterogêneas possuem valores culturais, econômicos e religiosos desiguais. Os sertanejos são tratados como menores, raças submetidas a um “poder civilizatório” que se apresenta benigno e altruísta, mas que traz apenas mais miséria, destruição e morte. Acontece a guerra, uma coisa horrível de se testemunhar, um choque implacável, irremediável, como tem sido o embate de todos os dias, no Brasil.

Nos primeiros tempos de nossa história, tudo o que não fosse litoral era sertão, independente de condições climáticas, relevo, cobertura vegetal, presença ou não de rios, tipo de solo. Assim, o Estado de São Paulo para além da Capitania de São Vicente era todo sertão, como também o eram Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e até Paraná e Rio Grande do Sul. 

O próprio Euclides descreve diferente o sertão dos primórdios da nossa colonização: “Constituiu-se, dessa maneira favorecida, a extensa zona de criação de gado que já no alvorecer do século 18 ao das raias setentrionais de Minas e Goiás, ao Piauí, aos extremos do Maranhão e Ceará pelo ocidente e norte, e às serranias das lavras baianas, a leste. Povoara-se e crescera autônoma e forte, mas obscura, desadorada dos cronistas do tempo, de todo esquecida não já pela metrópole longínqua senão pelos próprios governadores e vice-reis. Não produzia impostos ou rendas que interessassem ao egoísmo da coroa. Refletia, entretanto, contraposta à turbulência do litoral e às aventuras das minas, ‘o quase único aspecto tranquilo da nossa cultura’. À parte os contingentes de povoadores pernambucanos e baianos, a maioria dos criadores opulentos que ali se formaram, vinha do sul, constituída pela mesma gente entusiasta e enérgica das bandeiras.” 

As migrações e entrelaçamentos dos sertanejos se fazia intensa, de sul a norte e de norte a sul, a ponto de um decreto real do século 18 proibir que os do norte buscassem as terras do sul, onde havia mais promessas de riqueza. “Paulista” não se referia apenas aos naturais de São Paulo, sendo uma denominação genérica para sertanejos de Goiás, Mato Grosso, Minas e outras regiões. Interessa investigar quando e de que maneira o devaneio sobre o que é sertão o transforma em paisagem semiárida, hostil, com o sol inclemente, confundido com o que se estabeleceu ser o Nordeste. Gilberto Freyre recusa essa imagem de deserto. Para ele, o lugar também é uma terra de fartura, de águas abundantes, onde, como no poema de Carlos Pena Filho, “nunca deixa de haver uma mancha d’água, um avanço de mar, um rio, um riacho, o esverdeado de uma lagoa...”

Não sei ainda quais convidados irão debater Os Sertões, mas espero que haja alguns escritores nordestinos, conselheiristas e intelectuais que enxergam os erros de Euclides, a antropologia e a sociologia impregnadas de cientificismo, consonante com a época em que o livro foi escrito. Teorias de inspiração europeia e americana, racistas, supremacistas, cientificistas, que defendem a eugenia e são contrárias ao hibridismo, atribuindo ao cruzamento das raças formadoras do Brasil todos os nossos males. 

Riobaldo, personagem narrador do Grande Sertão: Veredas, pergunta ao escutador: “Como vou contar e o senhor sentir em meu estado? O senhor sobrenasceu lá? O senhor mordeu aquilo?” A pergunta não precisaria ser feita ao carioca Euclides da Cunha, nem a qualquer intelectual que se aventurasse a escrever sobre o episódio de Canudos, desde que mantivesse isenção e imparcialidade. Por mais que tenha estudado a geografia, a história, a cartografia, a formação do lugar e do homem sertanejo, Euclides olha de fora, se dói de fora, denuncia de fora e, na hora do julgamento final, toma um partido: “Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque”. Diferente de Guimarães falando através de Riobaldo Tatarana: “O sertão me produziu, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha narração?”

Euclides nunca se avistou com o Conselheiro, nunca entrevistou-o em conversa de homens pisando mundos diferentes. Do beato, viu o resultado do exame realizado pelo médico Nina Rodrigues, partidário da pseudociência da frenologia, que defendia que a estrutura do crânio determinava o caráter das pessoas e sua capacidade mental. Responsável por equívocos e crimes, o exame frenológico foi realizado na cabeça do beato, concluindo-se pela normalidade do mesmo, o que só expõe a barbárie e o abuso da ciência da época.

Na nota preliminar à primeira edição de Os Sertões, Euclides assume postura sobre o lugar e os personagens da sua epopeia:

"Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil, e fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexo de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir nossa terra.”

Apesar das denúncias feitas e registradas, da comoção diante do massacre, de afirmar que o sertanejo é antes de tudo um forte, Euclides se mantém firme, como observa Leopoldo M. Bernucci: “O narrador toma partido na defesa dos conselheiristas, mas a escolha final, a que determina verdadeiramente a decisão inexorável de combater o fanatismo religioso, a ‘selvatiqueza épica’, em uma palavra, os nossos ‘bárbaros patrícios’, recai nas mãos de um juiz implacável. E nem mesmo o esforço para construir uma frase imparcial e justa, que defina o seu duplo ataque, aos sertanejos e aos ‘singularíssimos civilizados’ nas Notas à 2ª Edição, consegue no final retraí-lo da sua cega fidelidade ideológica ao republicanismo progressivo.” 

Os Sertões prevaleceu como obra monumental pela sua linguagem, mesmo que Euclides tenha escrito “num estilo não só barroco – esplendidamente barroco – como perigosamente próximo do precioso, do pedante, do bombástico, do oratório, do retórico, do gongórico, sem afundar-se em nenhum desses perigos. Deixando-se apenas tocar por eles; roçando por vezes pelos seus excessos; salvando-se como um bailarino perito em saltos-mortais, de extremos de má eloquência que o teriam levado à desgraça literária e ao fracasso artístico”, como anotou Freyre.

Lamentarei se o tom da homenagem a Euclides da Cunha, na Flip, for somente apologista. Vou convencer-me de que a etiqueta com que rotularam os sertanejos continua valendo. 

O tempo passou, mas o modelo de violência da nossa sociedade permanece o de sempre, desde a colônia. A República defendida por Euclides nunca se consolidou. Nem mesmo a democracia. Soldados e conselheiristas se irmanam. Os que restam vivos, ao retornarem às cidades grandes, irão morar em morros ou periferias que receberão o nome de favelas, em memória às favelas de Canudos. A história se refaz e se complementa. Agora os “civilizados” tomam o lugar da sub raça, e passam também a ser exterminados. O sertão se desloca com os homens, sem a liderança social ou espiritual do Conselheiro. Seu novo lugar na periferia das cidades grandes representa um risco maior do que o Arraial de Canudos. A guerra se mantém: sistemática, predatória, manipulada. Irmãos contra irmãos. E os poderosos jogam com os mesmos princípios do início da colonização e sempre ganham.

*RONALDO CORREIA DE BRITO É AUTOR DE ‘DORA SEM VÉU’ (ALFAGUARA, 2018)

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Livro 'Ensaios e Inéditos' revela os segredos da escrita de Euclides da Cunha

Organizado por Leopoldo M. Bernucci, Felipe Pereira Rissato e Francisco Foot Hardman, 'Ensaios e Inéditos' traz 31 textos de Euclides da Cunha, autor de 'Os Sertões' e escritor homenageado da Flip 2019

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2019 | 03h00

A obra de Euclides da Cunha (1866-1909) inspira estudos eternos. Próximo homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2019, que acontece em julho, o autor de Os Sertões apresenta uma radicalidade na literatura e cultura brasileiras. Sobre seu trabalho, debruçam-se diversos pesquisadores, como Francisco Foot Hardman, que coordena o volume Ensaios e Inéditos (Editora Unesp), organizada por Leopoldo Bernucci e Felipe Pereira Rissato. Trata-se do conjunto de 31 composições assinadas por Euclides, cuja primeira tem a data de 1883, quando ele tinha apenas 17 anos, e a última é de 1909, ano de sua morte. Algumas crônicas foram publicadas no Estado, jornal para o qual o escritor colaborou regularmente.

Além do ineditismo em livro de alguns textos – e de outros serem pouquíssimos conhecidos –, a missão desse trabalho é a de mostrar como o talento de Euclides da Cunha não se limitava ao Sertões, certamente uma das mais importantes obras da literatura brasileira. “Julgo tão importante como outro livro de Euclides, À Margem da História (1909), publicado postumamente e que a editora Unesp deverá lançar uma edição crítica e na qual será possível constatar sua radicalidade no âmbito da literatura e da cultura brasileira”, observa Hardman.

Entre as 31 composições, há desde fragmentos (punhado de frases sobre determinado assunto ao qual Euclides não pode ou não quis retomar) até anotações e manuscritos que resultariam em textos acabados como Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907) e o já lembrado À Margem da História. Uma das questões mais recorrentes na obra de Euclides da Cunha é a relação entre civilização e barbárie – assim, quando de sua viagem ao Alto Purus, no Acre, região fronteiriça com o Peru, em 1905, época de auge da economia extrativista da borracha, o escritor observou o trabalho semiescravo a que eram submetidos os seringueiros, além da brutalidade reservada aos índios.

À época, Euclides foi designado para liderar a comitiva mista brasileiro-peruana de reconhecimento da região. E, além de cumprir com os objetivos técnicos da missão (como mapeamento da área), ele coletou dados para uma análise histórica e social do extremo oeste da Amazônia. Sobre Ensaios e Inéditos, Hardman respondeu as seguintes questões.

Quais detalhes sobre o trabalho de Euclides da Cunha são apresentados nessa seleção que não é possível ver (ao menos, tão nitidamente) em Os Sertões?

Haveria vários aspectos a considerar. Mas, de forma sintética, penso na dimensão do interesse internacionalista amplo que o autor revela, em vários dos textos desse volume, não só no âmbito das questões da América Latina, mas de toda a geopolítica mundial, muito além do apregoado “nacionalismo rígido” que muitas leituras apressadas lhe conferem. Sua resenha original, por exemplo, sobre o romance Quatrevingt-treize, de Victor Hugo (1874), manuscrita num caderno de cálculo infinitesimal na Escola Militar, por volta de 1885, converte-se em libelo, em profissão de fé romântica nos ideais da Revolução Francesa, que já nos tinha chamado a atenção quando compilávamos sua poesia de juventude. Seu interesse pelas regiões interiores e sua articulação com os polos hegemônicos da política, da economia ou da cultura faz dele um dos primeiros intelectuais brasileiros a questionar as estruturas autoritárias mais arcaicas herdadas da colônia e do império e, sobretudo, a exclusão de muitos de seus espaços e comunidades humanas da “história oficial”. Quanto ao estilo, vale lembrar que aqui nós temos textos curtos, numa forma talvez a mais recorrente em Euclides (Os Sertões constituindo, a rigor, uma exceção). Seu vínculo forte com o jornalismo, seja como cronista ou articulista de fundo, é algo que necessitaria ser ainda melhor estudado.

Pelos textos, nota-se Euclides em constante ato de autocrítica sobre assuntos diversos. É possível dizer, então, que esses escritos de alguma forma até ajudam a ressaltar aspectos biográficos?

Bem, para Euclides certamente valeria a máxima borgiana: no fundo, publicamos livros para parar de revê-los... Ele era particularmente obsessivo com as revisões intermináveis que fazia, mesmo quando o livro já estava no prelo. Sem dúvida, tanto nesse volume quanto em sua Poesia Reunida emerge uma dimensão autobiográfica inegável, às vezes mais explícita, ou implícita. Certamente, isso vai despontar com força nos volumes seguintes da série que estamos preparando, relativos à sua correspondência ativa e passiva, em dois tomos remissivos. O trabalho quase todo inédito de recuperação de sua correspondência passiva devemos em grande parte à pesquisa primária incansável de Rissato.

Interessante também é a forma crítica como Euclides via as tentativas de uma restauração da Monarquia e também apontava as rachaduras da República, não?

Euclides foi um abolicionista e republicano de primeiríssima hora, engajado como jovem cadete radical, inclusive com simpatias declaradas pelo socialismo reformista mais afim aos inícios da social-democracia europeia, o que, digamos, se no Brasil de hoje representa uma posição avançadíssima, imagina, então, no final do século 19. Mas, como já apontaram com argúcia, entre outros, nossos saudosos amigos euclidianistas Frederic Amory e Roberto Ventura, ao contrário do que leituras banais sugeriram, Euclides, já em 1894, descontente com os rumos autoritário-militares da República, entra em rota de colisão com a carreira militar, é transferido abruptamente para Campanha, em Minas Gerais, e, em 1895, inicia seus trabalhos como engenheiro de obras públicas no Estado de São Paulo, desengajado do Exército, como tenente da reserva. E como dissidente discreto, mas efetivo, podemos acrescentar. 

Euclides será o escritor homenageado da Flip desse ano. Um dos motivos é o fato de Os Sertões ser considerado um dos primeiros clássicos brasileiros de não ficção. Observando nossa atualidade, qual importância tem essa homenagem? E quão Os Sertões é atual nesse tempo?

Euclides é um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos. Nesse sentido, todas as homenagens serão sempre bem-vindas, necessárias e, esperemos, renovadas. Sua modernidade literária pode ser vista nos gêneros híbridos adotados, na temática social inovadora e na sua desconfiança visceral em relação ao beletrismo e ao bacharelismo de nossas elites. A atualidade de Os Sertões pode ser buscada de várias maneiras. Vou destacar o que me parece o mais importante. Quando setores que passaram a nos governar podem tornar mais vulneráveis nossos ecossistemas e os povos que lá habitam (indígenas, ribeirinhos, quilombolas, camponeses, entre outras comunidades), lembrar das “loucuras e crimes das nacionalidades”, com que Euclides conclui sua obra-prima, é lembrar que 20 mil sertanejos, nossos irmãos – como sempre reitera o escritor –, foram massacrados pelo Estado e pelo Exército de nossa jovem República. Isso deveria sempre ser relembrado, para que não se justifiquem outros crimes.

ENSAIOS E INÉDITOS

Organização: Leopoldo M. Bernucci, Felipe Pereira Rissato, Francisco Foot Hardman

Editora: Unesp (460 págs., R$ 60)

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Textos raros de Euclides da Cunha são reunidos em livro

Editora da Unesp compila manuscritos, inéditos e raridades do autor de 'Os Sertões'

André Martins*, Especial para o Estado

09 de fevereiro de 2019 | 16h00

Os meses seguintes ao lançamento de Os Sertões, em 1902, testemunharam a meteórica ascensão de Euclides da Cunha ao panteão das letras nacionais. Tendo arrancado elogios de Araripe Jr., Silvio Romero e José Veríssimo, o autor seria eleito, já no ano seguinte, para as duas principais instituições de consagração intelectual do Brasil à época, a Academia Brasileira de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. No ambiente intelectual da virada do século 20, não é exatamente surpreendente a canonização precoce de uma obra pretensamente científica, adornada por uma profusão de imagens cuidadosamente estilizadas, e que procurava dar conta do mal-estar que atormentava a atmosfera moral da jovem república desde o massacre de Canudos (1897), que o autor testemunhara como correspondente do Estado.

A unanimidade, a bem dizer, era um tanto ilusória. Joaquim Nabuco, poucos dias depois de escrever a Euclides prometendo-lhe um voto para a ABL, escreveu em seu diário: “Quanto aos Sertões não pude. Não é o caso somente de empregar a expressão Les arbres empêchent de voir la forêt (as árvores nos impedem de ver a floresta): aqui a floresta impede também de ver as árvores. É um imenso cipoal; a pena do escritor parece-me mesmo um cipó dos mais rijos e dos mais enroscados.” Mesmo quando discordemos de Nabuco, talvez sua reação privada fosse mais autêntica do que os rasgados elogios que os críticos teciam em público. Com a irrelevância a que foram relegadas as explicações sociológicas de cunho racista e determinista que perpassam o livro (cujo manejo pelo autor é uma tônica da primeira fase da recepção de sua obra), restam hoje, a seu favor, a força desconcertante de sua prosa (às vezes repelente, como no caso de Nabuco) e a penetração de seu olhar sobre o povo brasileiro.

O leitor contemporâneo poderá estranhar, na obra de Euclides, a onipresença do estilo elevado, remanescente de convenções literárias neoclássicas, indistintamente aplicado a descrições geográficas, análises antropológicas e narrativas episódicas, mas sempre aliado a uma intensa preocupação em lançar sobre a realidade um olhar crítico e científico. Euclides oscilava, mesmo dentro dos limites de um mesmo texto, entre gêneros diversos. Mantinha-se, porém, sempre distante da prosa de ficção – embora seja frequente ceder-se à tentação enganosa de caracterizar sua obra maior como uma espécie de romance. Talvez devido ao caráter problemático e internamente contraditório de sua produção intelectual e literária, inconformável a soluções interpretativas simples, Euclides exerce um persistente fascínio sobre sucessivas gerações de leitores.

A recente publicação da coletânea Ensaios e Inéditos (Unesp, 2018) oferece uma oportunidade para a exploração dos fundamentos intelectuais e das engrenagens da escritura do autor, que neste ano será homenageado pela Flip. Organizado pelos pesquisadores Leopoldo Bernucci e Felipe Rissato, o volume reúne textos em prosa representativos da produção ensaística de Euclides. Resultado de cuidadoso trabalho de pesquisa e estabelecimento de texto, o livro conta com abundante aparato crítico, assegurando ao leitor o privilégio de observar em ação o apuro quase obsessivo com que Euclides lapidava seu inconfundível estilo. Além de um pequeno número de fragmentos estritamente inéditos, encontrados em arquivos no Brasil e no exterior, há um bom número de textos que haviam sido publicados em periódicos, mas que, sem reimpressão em livro, haviam se tornado praticamente inacessíveis. Mesmo nos textos já reunidos nas edições das Obras Completas, há diferenças importantes entre as versões, seja por estarem apresentadas, no presente volume, em esboços (com parágrafos inteiros faltantes ou excedentes da versão definitiva), seja pelos frequentes erros editoriais e tipográficos que prejudicam (às vezes seriamente) as primeiras edições dos livros de Euclides (sempre assinalados nas notas dos organizadores). Todos os textos que o leitor tem à mão são, portanto, de um modo ou de outro, inéditos.

Na primeira seção (Dispersos), que inclui desde um texto escrito por Euclides aos 17 anos até escritos de 1909, ano de sua morte, podemos acompanhar a evolução do pensamento e do estilo do autor ao longo de diversos pequenos ensaios. É aqui que se encontram os textos rigorosamente inéditos, dos quais até hoje não havia versão impressa (A Década..., O Último Bandeirante, Regatão Sagrado e Duas Páginas sobre Geologia). Neste último, esboço incompleto (perderam-se as primeiras páginas) e inacabado, vemos repetir-se em escala menor a façanha da primeira parte de Os Sertões, na qual a descrição geológica assume a grandeza de uma narrativa épica: “O mar por ali exercitou um assalto complexo cujas peripécias ficarão para todo o sempre ignoradas.” Por sorte, podemos deduzir o provável tema principal do texto, a história natural da Baía de Guanabara, a partir das referências às “linhas duras e vivas do Pão de Açúcar”, às “encostas clivosas da Boa Viagem” (ilha em Niterói), aos “perfis arredondados das ilhas do Mocanguê” e às “praias finamente rendilhadas e mansas de Paquetá”.

Na mesma seção, destaca-se o “preâmbulo” que Euclides escreveu ao livro de seu amigo Alberto Rangel, Inferno Verde (1908). Nesse pequeno e precioso ensaio, encontramos manifestações do gênio do autor na mais exuberante desenvoltura, como na explicação que fornece ante o fato de a Amazônia, cuja grandeza estimulava um ufanismo imaginoso, se apresentar, in loco, na forma de uma paisagem geralmente monótona e sem maiores atrativos: “Escapa-se nos, de todo, a enormidade que só se pode medir repartida; a amplitude, que se tem de diminuir, para avaliar-se, e o infinito, que se dosa, a pouco e pouco, indefinidamente” (num dos rascunhos, lemos a formulação alternativa, igualmente impactante, de uma “dosagem torturante do infinito”) – porque “a inteligência humana não suportaria, de golpe, o peso daquela realidade portentosa”. 

Percebe-se, no mesmo texto, a mestria do estilo de Euclides, pela força das imagens que ele deixa de lado – aqui somos especialmente recompensados ao consultar os trechos cortados e as notas lançadas à margem e no verso dos manuscritos, oferecidas no rodapé: “rio d’águas pardas, atropelado pelos escarpamentos, na História corre com águas avermelhadas de sangue entre os clarões dos incêndios”, “a mata revestia-se de luto, num crepe pesado”, “oiranas ralas e tristes, como cílios à borda duma pupila que fosse dilatada e cega”, “a mata – tem o aspecto de parar porque sentiu que lhe embargavam o passo”, “parece que toda ela luta consigo mesma, ao mesmo tempo conflagrada e parada”. Não deparamos aqui com expedientes puramente retóricos: curiosamente, é o materialismo extremado que dará a suas descrições paisagísticas o sabor de um extemporâneo animismo, como ele próprio parece reconhecer: na Amazônia, “as cousas mais objetivas revestem-se de uma anômala personalidade”; nas suas “paisagens volúveis”, adivinham-se “caprichos de misteriosas vontades”.

Nas três seções restantes da coletânea, encontramos esboços para livros publicados ou organizados ainda durante a vida do autor. De Contrastes e Confrontos, cujos escritos tratam de temas variados, desde expedições britânicas ao Himalaia até a “vida das estátuas”, há pelo menos um texto excepcional: um breve ensaio sobre Floriano Peixoto. O esboço que lemos na coletânea traz narrativas de testemunho ocular do autor sobre a madrugada de 15 de novembro de 1889 (excluídas da versão final), além de traçar um retrato do “marechal de ferro” que revela procedimentos caracterológicos próximos daqueles empregados na antológica descrição de Antônio Conselheiro. Em Peru versus Bolívia (esboço para livro de mesmo título), vemos Euclides no exercício da função que desempenhou no Itamaraty: o levantamento e apresentação de informações pertinentes à resolução de litígios territoriais. 

A última seção é composta por três esboços do último livro do autor, publicado postumamente, À Margem da História. De especial interesse é o rascunho para o primeiro capítulo, que reproduz o plano de exposição de Os Sertões (Preliminares – Baixada Amazônica: História da Terra e do Homem) – título descartado na versão que foi ao prelo, em favor de outro, mais impactante e revelador de uma reformulação de argumento: Terra Sem História. Nessa inflexão temos um caso exemplar dos sugestivos paradoxos que animam a obra de Euclides. Às margens da história, o homem é função da natureza e da terra. 

É assim que, à revelia das intenções de Euclides, metafísicas telúricas, vegetais, ameaçam a jaula de ciência dentro da qual se esperava aprisionar e sistematizar a realidade, enroscando-se em suas barras metálicas e entortando-as com a superior indiferença de enormes cipoais que a encontrassem, perdida, em densa floresta.

*ANDRÉ MARTINS É HISTORIADOR E TRADUTOR

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Homenagem a Euclides da Cunha dá tom político à Flip 2019

A Festa Literária Internacional de Paraty anunciou nesta quarta, 15, a programação de sua 17.ª edição, que será realizada de 10 a 14 de julho; ingressos começam a ser vendidos dia 3

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2019 | 15h35

A escolha de Euclides da Cunha (1866-1909) como o escritor homenageado da 17.ª Festa Literária Internacional de Paraty acabou guiando mais fortemente a curadora Fernanda Diamant na sua programação de estreia, anunciada nesta quarta-feira, 15, em São Paulo – que promete um debate mais profundo sobre o Brasil, e mais político. 

“Minha relação com Euclides é muito forte. Ele faz não ficção ao mesmo tempo em que faz alta literatura. É autor de um clássico estudado nas universidades. Ele trata do Brasil e conheceu o País inteiro. Em Os Sertões, ele faz uma retrospectiva da história do Brasil para chegar naquele momento da revolta de Canudos. E achei que seria perfeito falar sobre tudo isso nesse momento que estamos vivendo”, disse Fernanda Diamant

Seu primeiro contato Os Sertões, obra publicada em 1902 e que teve origem nas páginas do Estado, em 1897, quando Euclides cobriu a Guerra de Canudos para o jornal, foi no Teatro Oficina no início dos anos 2000. José Celso Martinez Corrêa não poderia ficar de fora da programação, ela diz, e essa relação entre Euclides e as diversas linguagens pautou a curadora, que leu o clássico em 2009 e foi a Canudos.

Maureen Bisilliat, fotógrafa inglesa de 88 anos radicada no Brasil, também está entre os convidados da Flip, e ela fala de sua experiência com Sertão: Luz & Trevas, livro publicado nos anos 1980 com fotos dela e trechos da obra de Euclides que ganha agora nova edição. E ainda o cineasta português Miguel Gomes, que prevê para 2020 o início das filmagens de Selvajaria, sua adaptação de Os Sertões

Abordando direta ou indiretamente o homenageado, a Flip promete ser mais política este ano. “Seria impossível homenagear Euclides sem esse viés, mas a ideia é focar menos o quente da hora e mais a reflexão histórica sobre o País”, explica Fernanda. Ao  todo, 33 autores de 10 nacionalidades  se revezam em 21 mesas – elas terão uma dinâmica um pouco diferente nesta edição da Flip. Algumas delas terão 1h15 de duração, como nos outros anos, e outras vão durar menos: 45 minutos (e poderão ser no formato conferência, performance ou entrevista). 

Gênero, raça, questão indígena, ciência, meio ambiente, luto e guerra são alguns dos temas das mesas que recebem, ainda, nomes como historiador José Murilo de Carvalho, a cordelista Jarid Arraes, os jornalistas Cristina Serra e David Wallace-Wells, os escritores Karina Sainz Borgo e Miguel Del Castillo, o biólogo e neurocientista Stuart Firestein, a cantora Adriana Calcanhotto e a atriz Grace Passô, entre outros. Confira a programação completa da Flip 2019.

A Flip deve custar R$ 5,4 milhões e, segundo os organizadores, a captação está em torno de R$ 4,7 milhões. Falta ainda verba para a realização de um show de abertura e de exposição de artes visuais, além de tratamento acústico e ar condicionado para a tenda principal – dois problemas da edição passada. 

Os ingressos da Flip 2019 começam a ser vendidos no dia 3 de junho e vão custar R$ 55 para o Auditório da Matriz, que será montado no formato de teatro de arena com capacidade para 512 pessoas. É possível assistir à programação também do Auditório da Praça, com 754 ingressos distibuídos gratuitamente por mesa. 

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Maureen Bisilliat se reencontra com o seu sertão e o de Euclides da Cunha na Flip

Fotógrafa inglesa radicada no Brasil, Maureen Bisilliat lança, na Flip, nova edição do livro 'Sertões: Luz e Trevas', obra que mistura fotos que ela fez nos sertões nordestinos e de Minas com excertos do clássico de Euclides da Cunha

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2019 | 05h00

Se tudo tivesse saído como Maureen Bisilliat planejou três décadas atrás, você não estaria lendo esse texto. No início dos anos 1980, a fotógrafa inglesa radicada no Brasil tinha o patrocínio de uma empresa para fazer um livro. As fotos estavam todas na mão: rostos e cenários diversos dos sertões que ela percorreu entre o final dos anos 1960 e início dos 1970. Mas faltava um texto que as explicasse, ou as complementasse. Maureen, que tinha lido Romance d’A Pedra do Reino, logo pediu que Ariano Suassuna fizesse essa introdução. E Ariano apareceu com um livro inteiro, algo em torno de 100 páginas, que ela adorou – mas não tinha o que fazer com ele. 

“Quando vi que não dava para incluir um livro dentro do livro, pensei no mais óbvio, no mais inicial, no sertão mais histórico. Tentei separar algumas partes exuberantes de Os Sertões que mostram um lado dele que às vezes fica se não perdido um pouco menos óbvio dentro do esplendor documental do livro e desse momento do Brasil”, conta a fotógrafa, aos 88 anos, que se reencontra agora com seu Sertões: Luz & Sombras, e com Euclides da Cunha

Maureen é uma das convidadas da Festa Literária Internacional de Paraty (10 a 14/7) que, neste ano, presta homenagem ao ‘coautor’ de seu livro. A programação da Flip 2019 foi anunciada nesta quarta-feira, 15, em São Paulo. No evento, ela fala sobre suas andanças pelo Brasil e, principalmente, sobre suas lembranças do sertão, e também sobre sua relação com a literatura. “Eu vivo a literatura”, disse à reportagem numa sala de trabalho repleta de livros – havia muito mais antes de ela conhecer a ‘mágica da arrumação’ de Marie Kondo – em sua casa nos Jardins. 

“Quando estou perdida, leio Agatha Christie. Ela me dá dicas, como o Quiroga”, conta, referindo-se ao astrólogo do Caderno 2. Cervantes, Gay Talese, Daniel Silva, P.D. James, de quem ela não gosta pela morbidez, mas que está na prateleira. Quer ler a biografia de Rondon, de Larry Rohter, que acaba de sair. É eclética, mas guarda mesmo com carinho a obra de autores como Guimarães Rosa e Jorge Amado, com quem chegou a conviver e que inspiraram seu trabalho – bem como Adélia Prado, Jorge de Lima, João Cabral, entre outros.

Diferentemente de sua experiência com a obra desses autores, que ela conheceu antes de sair a campo, sua relação com o livro de Euclides veio depois de ela ter o primeiro contato com seus cenários – aliás, as fotos do livro não são do sertão baiano propriamente dito, mas de outros lugares do Nordeste e de Minas. “Essas fotos foram feitas ao léu. Tínhamos uma galeria de arte popular chamada O Bode e viajávamos muito. São fotos ocasionais. Eu estava nos lugares e tirava essas fotos sem nenhuma intenção”, conta.

Depois precisou encontrar o trechos que conversassem com as imagens e ouviu do marido que era para ela nunca mais fazer um negócio daquele jeito. “Foi uma loucura. Eu pegava os pedaços, fazia xerox, cortava as cópias, aí vinha um vento e ficava tudo desorganizado de novo”, diverte-se. Foi trabalhoso, mas ela gostou do resultado.

Sertões: Luz & Trevas, aliás, é seu livro preferido, ela conta, e reeditá-lo agora faz sentido. “Eu não voltaria a alguns livros, que foram feitos no momento certo. Eu nunca faria um livro sobre populações indígenas como fiz nos anos 1970. O que ele pode ter trazido de benéfico foi para aquela época. Sertões: Luz & Trevas, para mim, se agora ou se daqui a 10 anos, ele tem alguma coisa. Ele viaja bem.”

Por falar em viajar, Maureen teve uma vida nômade desde os cinco anos, quando deixou a Inglaterra. Seu pai, argentino, era “um diplomata incomum, filho de calabreses”, e a cada hora a família estava num lugar diferente. Dinamarca, Estados Unidos, Colômbia, Argentina, Suíça. Chegou ao Brasil já adulta em 1952 e ficou até 1957. Desfez as malas definitivamente em 1960. Trabalhou com os irmãos Villas Boas e também na icônica revista Realidade e na Quatro Rodas. Conheceu o Brasil melhor do que a maior parte dos brasileiros. Fotografou muito até a década de 1980, depois mudou para o vídeo – e não para.

Há seis anos vem organizando pedaços de vídeo para o documentário Equivalências: Aprender Vivendo. “É um filme sobre o que eu faço. E o que eu faço é o que eu sou”, explica. Com direção dela e edição de Felipe Lafé, o filme deve ser lançado em setembro pelo IMS, e ela conta que um teaser será apresentado durante a Flip. Lá também será montada uma exposição com o trabalho de Maureen.

Ela organiza os vídeos, a casa, o caos. Diz que é a primeira vez que alguém “se atreve” a entrar na sala em que ela conversa com a reportagem. “O negócio é organizar o caos sem tirar dele a memória”, diz. E vai além: “Se eu tivesse sido uma pessoa organizada no início não teria a memória prática, material. Preservar cacos de vidros, pedaços de papel... tudo isso de repente vem e te inunda como um tsunami.” 

Se gosta de lembrar? “Sim, mas de lembrar fazendo alguma coisa. Gosto de fazer coisas com o que eu lembro. Só lembrar é um saco. Sou a fanática do fazer.” Essa fase de arrumação foi prazerosa para ela. “Penso que na vida sempre estou tricotando e desfiando, desfazendo o caos. Cada pessoa tem a sua maneira de existir.”

Tem sido uma boa caminhada, ela diz – com seus vaivéns. “Se a vida fosse mais calma, a gente não faria nada. No momento em que eu não tiver mais o que fazer, que ninguém me der uma oportunidade como essa, eu já era.” 

Maureen fala da família e diz que o ser humano é muito complicado porque carrega consigo tudo o que veio antes dele. “Eu tenho uma família pequena e, apesar de todos os altos e baixos de uma vida familiar, a gente se gosta. Sem família a vida seria muito frágil. Com todos esses altos e baixos, todas as marés da vida (fala isso em referência ao livro As Ondas, de Virginia Woolf, que acha “lindíssimo”), ela nos dá força para continuar.”

Maureen se considera uma pessoa que “chora o leite derramado”, que não esquece com facilidade seus erros, e diz que ser assim é exaustivo. 

Não tem nenhum lugar neste País que ela queria ter ido, mas não foi. Guarda apenas o arrependimento de não ter feito o livro que Suassuna lhe deu: Maurina e Lanterna Mágica. Tenta resolver isso em conversas com os herdeiros do escritor morto em 2014 e com a Nova Fronteira, e espera novidades para o ano que vem.

Por ora, acompanha a reedição do livro – sem Ariano, mas com Euclides. A capa será ligeiramente diferente da original e a edição contará com dois novos posfácios: um de Walnice Nogueira Galvão, uma das principais pesquisadoras da obra de Euclides e responsável pela conferência de abertura da Flip, e de Miguel Del Castillo, curador da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista, escritor e também convidado do festival literário.

Maureen ainda não voltou a ler Os Sertões depois do convite da Flip. Preferiu reler Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado, e conta que isso está lhe dando uma leveza e que a cabeça se ocupa depois em fazer as conexões. Seu exemplar todo grifado de Os Sertões está sobre a mesa, com jornais dobrados, mais livros e pilhas de fotografias. 

Sobre a importância, ainda hoje, deste clássico, diz: “Quanto mais pudermos descobrir ou redescobrir essências brasileiras, melhor”. Fala sobre a velocidade das mudanças e do estado geral das coisas. “Hoje temos que ter muito cuidado com essas coisas que estão entrando no mundo e são muito perigosas.” Descobriu recentemente um documentário de 1967 da BBC chamado Civilisation, baseado em livro de Kenneth Clark, e está encantada por ele explicar o que está acontecendo no mundo. Acompanha a obra de Bauman, gosta do conceito de liquidez, e acredita que ele e alguns outros conseguiram ou estão conseguindo “captar e transmitir o mundo de hoje e um mundo que talvez será”.

A fotógrafa finaliza dizendo que este é um momento em que a documentação, escrita ou fílmica, é sobretudo um dever. “É o último canto dos cisnes, sem ser pessimista, de um mundo que não mais será.” 

SERTÕES: LUZ & TREVAS

Autores: Maureen Bisilliat e Euclides da Cunha

Editora: Instituto Moreira Salles

(No prelo)

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Flip 2019: data, programação, ingressos e tudo sobre o evento

A Festa Literária Internacional de Paraty recebe 30 autores brasileiros e estrangeiros entre os dias 10 e 14 de julho; veja as principais informações sobre a Flip 2019

Redação, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2019 | 10h00

A 17.ª Festa Literária Internacional de Paraty abre na segunda-feira, 3, a venda dos ingressos para o evento que será realizado de 10 a 14 de julho. As entradas custam R$ 55 e podem ser adquiridas no site da Flip. Durante a Flip 2019, a venda será realizada apenas em Paraty, na bilheteria oficial localizada no Auditório da Matriz, entre os dias 10 a 13 de julho, das 9h às 21h, e no dia 14, das 9h às 13h.

A Flip 2019 tem curadoria de Fernanda Diamant. O autor homenageado é Euclides da Cunha. Serão, ao todo, 30 convidados brasileiros e estrangeiros. Entre eles estão o cineasta português Miguel Gomes, que prepara o filme Selvajaria, uma adaptação de Os Sertões; a escritora e cordelista Jarid Arraes; o historiador José Murilo de Carvalho; o dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêa; a cantora Adriana Calcanhotto e o quadrinista Marcelo D'Salete. Veja a programação completa da Flip 2019 abaixo.

Data

​A Flip 2019 será realizada entre os dias 10 e 14 de junho, em Paraty. É possível acompanhar as mesas em dois espaços: ao vivo na Tenda da Matriz, com ingressos pagos, e pelo telão na Tenda da Praça, com entrada gratuita. 

Ingressos

Os ingressos para a Flip 2019 vão custar R$ 55 (R$ 27,50 meia) e poderão ser comprados no site do evento. Do dia 10 de julho em diante, os ingressos, se sobrarem, serão vendidos apenas em Paraty, na bilheteria oficial localizada na Praça da Matriz. A venda é limitada a dois ingressos por CPF para cada mesa da Flip, nos canais digitais e físicos para aquisição. As compras feitas pela internet só são possíveis com cartão de crédito (Amex, Dinners, Elo, Master e Visa). A compra presencial na Flip aceita também cartões de débito e Vale Cultura.

Programação paralela

​​Uma ampla programação cultural é realizada por editoras, instituições e centros culturais pela cidade durante a Flip. O Sesc tem se destacado nos últimos anos, com uma ampla agenda voltada à literatura brasileira. A programação, em geral, é gratuita e será anunciada mais perto do evento.

​Programação completa da Flip 2019

Quarta-feira, 10 de julho

19h – Mesa 1: Canudos

Walnice Nogueira Galvão

Quinta-feira, 11 de julho

10h30 – Mesa 2: Bendegó

Aparecida Vilaça 

12h – Mesa 3: Uauá 

Adriana Calcanhotto, Guilherme Wisnik e Nuno Grande

15h30 – Mesa 4: Sincorá

José Miguel Wisnik

17h – Mesa 5: Bom Conselho 

Kristen RoupenianSheila Heti

19h – Mesa 6: Serra Grande 

Maureen Bisilliat

20h30 – Mesa 7: Quirinquinquá 

Gaël Faye e Kalaf Epalanga

Sexta-feira, 12 de julho

10h – Mesa 8 (Zé Kleber): Cumbe 

Marcela Cananéa e Marcelo D’Salete 

12h – Mesa 9: Angico 

Ayelet Gundar-Goshen e Ayobami Adebayo

15h30 – Mesa 10: Tróia de Taipa 

José Murilo de Carvalho

17h – Mesa 11: Jeremoabo 

Karina Sainz Borgo e Miguel Del Castillo 

19h – Mesa 12: Mata da Corda 

Grada Kilomba

20h30 – Mesa 13: Vaza-Barris (O Irapiranga dos Tapuias) 

Ailton Krenak e José Celso Martinez Corrêa

Sábado, 13 de julho

10h30 – Mesa 14: Cansanção 

Marilene Felinto

12h – Mesa 15: Monte Santo

Ismail Xavier e Miguel Gomes 

15h30 – Mesa 16: Poço de Cima 

Grace Passô

17h – Mesa 17: Vila Nova da Rainha 

Carmen Maria Machado e Jarid Arraes

19h – Mesa 18: Massacará 

Stuart Firestein

20h30 – Mesa 19: Cocorobó 

Cristina Serra e David Wallace-Wells 

Domingo, 14 de julho

10h30 – Mesa 20: Santo Antônio da Glória 

Braulio TavaresMariana Enriquez 

12h30 – Mesa 21: Livro de Cabeceira

Participação especial: Amyr Klink

 

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