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Carolina Maria de Jesus Acervo

Carolina Maria de Jesus Acervo

Especial: Obra de Carolina Maria de Jesus enfim será editada e publicada

Sessenta anos depois da publicação do seu livro de sucesso, finalmente o mercado editorial brasileiro percebeu a importância de sua obra

Guilherme Sobota , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Carolina Maria de Jesus Acervo

Sessenta anos depois da publicação original de Quarto de Despejo — Diário de uma Favelada (1960, pela Francisco Alves), a obra de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é enfim contemplada por uma grande editora brasileira (a Companhia das Letras), cujo projeto — finalmente — prevê o trabalho, até então inédito no mercado editorial, de mergulhar nos textos da escritora e publicar sua obra completa.

Tratada por uma parte considerável dos pares escritores, pela cobertura midiática e pelos leitores como uma autora exótica, cuja contribuição se resumia à condição de favelada, Carolina deixou em manuscritos centenas de textos, que constroem um conjunto singular de poemas, contos, romances, peças de teatro, letras de músicas, provérbios e entradas de diários, antecipando em décadas o surgimento de vozes literárias diversas e de diversas origens do tecido social brasileiro.

As novas edições começam por Casa de Alvenaria, publicado primeiro em 1961, e que reflete na linguagem única de Carolina o ano imediatamente seguinte ao sucesso de Quarto de Despejo, o livro editado por Audálio Dantas (1929-2018) que a colocou em evidência no cenário brasileiro e internacional, traduzido para 13 idiomas e publicado em mais de 40 países.

O trabalho será coordenado por um conselho editorial, formado por Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, pela escritora Conceição Evaristo e pelas pesquisadoras Amanda Crispim, Fernanda Felisberto, Fernanda Miranda e Raffaella Fernandez.

“O melhor da Carolina vai aparecer agora”, garante Vera, por telefone, entusiasmada com o trabalho que vem pela frente. “Tenho ela como minha mãe, mas como escritora, eu me pergunto: quem foi essa mulher? Ela teve um ano e meio de estudo, nunca mais entrou numa escola. Mas ela falava em versos, ela xingava a gente em versos. Eu andava muito com ela pela cidade, e muitas vezes ela pedia para parar. Ela pegava um papel qualquer, tirava um lápis do bolso e escrevia um poema.”

Quarto de Despejo não sai pela Companhia das Letras

O livro Quarto de Despejo tal como existe (publicado há décadas pela editora Ática) não faz parte do projeto por decisão de Vera. A edição de Dantas, com quem Carolina nutriu sentimentos contraditórios de gratidão e angústia durante toda a vida, cortou partes do texto original que o conselho editorial quer revelar agora ao público. É o mesmo caso de Casa de Alvenaria e de Diário de Bitita, publicado na França em 1977 e depois retraduzido para o português — o original deste livro hoje pertence ao Instituto Moreira Salles, parceiro no projeto de divulgação da obra de Carolina. Outros dois diários serão publicados, um de viagens e outro “do sítio”.

O sítio em Parelheiros foi para onde Carolina se mudou com a família (ela, Vera, João e José, os dois irmãos, que já morreram) após a “casa de alvenaria” no bairro de Santana. Antes de morrer, a escritora pediu à filha para nunca vender o pedaço de terra (a cerca de 30 km do centro da cidade), o que Vera cumpriu, depois de comprar a parte dos irmãos. “Eu não quero fazer museu: quero fazer um espaço para ela”, explica. “Tenho muito amor àquele sítio. Tem pessoas que querem montar peças ali, por exemplo, eu deixo. Dei uma mexida na casa, mas deixei o ar dela. As árvores que ela plantou continuam lá. Ela usava a sombra delas para escrever. Meus filhos não saem de lá. Tem uma pessoa que mora lá.”

O IMS preparava para 2020 uma exposição abrangente sobre vida e obra de Carolina (num projeto que também incluiria Clarice Lispector, em mostras separadas mas simultâneas — um encontro real de Carolina e Clarice entrou para a história, do qual sobrou uma fotografia). A pandemia atrapalhou os planos, e as exposições ficaram para o ano que vem.

Para a exposição de Carolina, o IMS construiu uma equipe de pesquisa curatorial e de investigação, liderada pelos pesquisadores Raquel Barreto e Hélio Menezes. “Será a primeira vez que curadores negros se ocupam de produzir uma exposição desse porte sobre Carolina, que acredito que nos dará várias facetas”, explica o diretor artístico do Instituto, João Fernandes.

O acervo de Carolina Maria de Jesus

João Fernandes explica que foi com os curadores até Sacramento, Minas Gerais, cidade onde Carolina nasceu, frequentou seu breve período escolar, chegou a ser presa e de onde saiu para nunca mais voltar. É lá onde está a maior parte do acervo de Carolina Maria de Jesus, guardado hoje na cela em que Carolina foi presa com a mãe, ainda muito jovem. Diversas fontes consultadas pelo Estadão demonstraram preocupação com a situação dos papéis, documentos e imagens depositados ali — há relatos de gente manuseando os papéis sem qualquer tipo de proteção, ausência de controle e fiscalização de visitantes, e até de gente andando com documentos do acervo pela cidade.

“Tenho que tirar de lá, porque eles não conservam”, diz Vera. “Quando minha mãe morreu, ela tinha os livros, os papéis, fotos e umas outras coisas, como a sua máquina de costura. Ela me dizia: ‘Quando eu morrer, a máquina é sua’. Mas meu irmão acabou ficando com os objetos, e eu fiz questão de ficar com os livros dela. Brigamos feio, porque ele queria dar para o Audálio. Eu peguei e trouxe para minha casa. Ficou aqui por um tempo, eu ainda era bobona, não sabia bem lidar com essa situação. Ela sofreu muito em Sacramento. Saiu de lá, foi presa. Ela nunca mais voltou, não podia nem ouvir falar. Mas nos 300 anos da morte de Zumbi (1995) eu fui para lá e fui muito bem tratada. Pensei: ‘Puxa vida, vou levar para lá’. Agora fica na cadeia. Os historiadores acham um absurdo.”

Segundo Vera, há uma resistência das diversas administrações da Prefeitura da cidade em entregar o acervo de volta, já que a doação foi feita de maneira voluntária no passado. 

“O Instituto Moreira Salles quis comprar e preservar, tem uns dois anos”, diz Vera (o Instituto preferiu não comentar a situação, dizendo que ela diz respeito a Vera e Sacramento). “Pessoal da Biblioteca Nacional me chamou, o Museu Afro também quer. A briga é feia. Eles (de Sacramento) não conservam e também não entregam. A doação que eu fiz não foi em cartório. Existe um processo coletivo, a Defensoria Pública está envolvida, mas anda muito lentamente. Tenho informações de que os escritores de lá não conseguem se sobressair, porque Carolina vive, então eles têm um ciúme.”

O acervo de Carolina, na verdade, está espalhado. Vera conta que, recentemente, um homem de Curitiba ligou para ela dizendo que possuía um volume de manuscritos originais de Carolina, e depois de uma negociação um tanto acidentada, conseguiu convencer o “aristocrata” a devolvê-lo.

Os originais de Quarto de Despejo, por exemplo, estão sob a guarda da Biblioteca Nacional (na mesma seção que uma primeira edição de Os Lusíadas, como Vera gosta de salientar). Há documentos e fotos no Museu Afro Brasil, em São Paulo, no IMS, no acervo de Audálio Dantas e em diversas outras localidades, inclusive em outros países, além, claro, de Sacramento. Carolina tinha o costume, desde os anos 1940, de distribuir papéis e manuscritos originais para jornalistas e editoras, em busca de publicação, o que torna o processo de pesquisa mais árduo.

Os direitos autorais de Carolina Maria de Jesus no exterior

Outra questão que segue nebulosa são os direitos autorais das obras da escritora publicadas no exterior. “Recebemos direitos autorais dos EUA. Mas só. Nos últimos anos, recebemos muitas solicitações para publicar por novas editoras em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha. Acho que com nosso projeto de edição aqui no Brasil vai haver uma nova explosão também no exterior”, explica Vera.

Vera Eunice de Jesus

Uma das “personagens” do livro mais conhecido de Carolina, Vera Eunice de Jesus tem hoje 67 anos, se aposentou como professora de português para o ensino médio no estado de São Paulo, mas segue no ofício de professora, agora dedicada às crianças menores, atualmente na EMEI Ceu Vila Rubi, ao sul de Interlagos.  

“Eu deveria ter me aposentado, mas adoro dar aulas para os pequenos. Eles são de periferia, são de comunidades, chegam sem apoio das famílias. Nisso vejo a diferença com minha mãe. A gente passou muito aperto, foram apenas três anos de fartura pelo sucesso do livro. Mas eu me vejo nessas crianças, procuro fazer um trabalho de conversar com eles. Agora na pandemia, estou trabalhando com cestas básicas nas favelas. A gente distribui essas cestas e eu lembro muito da minha mãe. Três horas antes do horário marcado, já tem gente esperando. O Quarto de Despejo vai ser sempre atual.”

Vera tem cinco filhos, e todos estudaram, ela conta, orgulhosa, mas nenhum se decidiu pelo caminho das letras. “Minha neta, Barbara, lê muito e gosta muito de escrever. Quem sabe?”, diz. “Trago isso da minha mãe: o mais importante é o estudo. Sempre falo para os meus alunos e nas palestras, que se não fosse esse um ano e meio de estudo dela, a gente não estaria aqui falando dela até hoje.”

Outro aspecto que Vera chama atenção sobre a obra de Carolina é um caráter universal, mesmo com suas origens específicas. “Fiz uma palestra em Juiz de Fora, um aluno branco me entregou um poema que havia escrito para a minha mãe. Na Flup (Festa Literária das Periferias), nós sentamos para autografar os livros e veio uma mulher negra, em recuperação do vício em drogas, e ela me disse: morei aqui na Cracolândia mas queria que você autografasse. Li a história e decidi sair das drogas, fui cursar teatro.” 

Em outra ocasião, numa escola particular em São Paulo que era “a cara da riqueza”, um garoto de 14 anos disse que não via a própria mãe há meses. Ele me disse: ‘Você falou que passava fome, mas que tinha uma mãe, que lia, cantava, contava casos da terra dela. Eu não sei onde está a minha’. Minha mãe nunca deixou um filho. A Carolina atinge a menina da Cracolândia e esse adolescente, ao mesmo tempo.”

Mais de 40 anos após a morte de Carolina, finalmente o público terá acesso à sua obra completa.

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Análise: Carolina Maria de Jesus, uma bricoleur na literatura brasileira

Sua obra esta eivada de ligações que revelam sua poética de resíduos enquanto uma aglomeração de discursos como recurso de uma escrita que visa catalogar tudo que leu e viveu

Raffaella Fernandez*, Especial para o Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

A máquina literária da escritora Carolina Maria de Jesus se ergue de sob os escombros de um lirismo beletrista, que considera o belo como o próprio da arte, assim como o fazem os sambistas; recordemos que ela também era uma compositora de sambas, fazia parte dessa fração do povo que produz arte nas franjas da sociedade e, através dela, expressa sua condição social. Aquilo que, muitas vezes, é denominado “estética da fome”, “literatura marginal” ou “literatura periférica”, pode ser entendido como uma poética de resíduos, uma reciclagem literária ao modo de um bricoleur que vai colando, no seu texto, pedaços de discursos literários diversos, procurando uma aproximação com essa clássica, linguagem entendida como “arma” crítica, ela vai colando retalhos de dicursos e de formas de escrita e oralidades em sua escrita. Na sequência dos versos, ela comenta uma série de leituras, anotando junto com poemas dedicados a Maupassant, Casimiro de Abreu, Edgar Allan Poe, Machado de Assis, Camões, Gonçalves Dias, Tomás Antônio Gonzaga, Cervantes, Berardo Guimarães, Euclides da Cunha, Camilo Castelo Branco, Victor Hugo, Harriet Beecher Stowe, entre outros.

Sua obra está eivada de ligações que revelam sua poética de resíduos enquanto uma aglomeração de discursos como recurso de uma escrita que visa catalogar tudo que leu e viveu. Carolina de Jesus tem como eixo a bricolage que, desde As Nascentes de Levi-Strauss e depois, vem sendo transposta; e a bricolagem como uma apropriação que se move na maior liberdade porque conserva, transfere e muda campos. Ao analisar Macunaíma, Gilda de Mello Souza observa que esta obra não foi construída a partir da mimesis, e sim “a partir da combinação de uma infinidade de textos pré-existentes, elaborados pela tradição oral ou escrita, popular ou erudita, européia ou brasileira”. O mesmo podemos observar entre o bricoleur de Levi-Strauss e o processo de criação de Carolina de Jesus. A literatura de Carolina de Jesus é uma literatura entre discursos, literaturas e oralidades em sua composição de cárater repetitivo e acumulativo.

Seu legado literário, composto por mais de cinco mil páginas manuscritas e datilocritas, é uma avalanche de papéis desmembrados de seu espólio, e ainda está por se compreender sua dinâmica, seu modus operandi. A bricoleur Carolina de Jesus recolhe e mobiliza seus recursos com aparente objetivo de revelar as dicotomias da sociedade, sobretudo, em relação ao meio rural e meio urbano, ao racismo estrutural e às desigualdades sociais. Esses temas estão presentes nos diversos gêneros literários experimentados por ela, seja nos romances, peças teatrais, poemas, diários, cartas, composições musicais ou provérbios. Uma alquimia muitas vezes venenosa para a crítica de linhagem mais tradicionalista, que privilegia os ditames do cânone, ou um antídoto entusiástico para as aberturas críticas, sobretudo os estudos pós-coloniais, de gênero ou raciais. E para todos aqueles que reduziram sua escrita a subliteratura, Carolina de Jesus deixou o seguinte recado poético:

"Os pássaros cantam na linguagem certa, na linguagem correta e sincera que a própria Mãe Natureza lhes deu; falar é bonito quando se fala certo. A linguagem só tem valor quando se trata de nominações estranhas. Digo estranhas para voces mas não para nos esquecer os dissabores é o nosso dever, pois, nos consideramos isto como uma estrada em que viajamos e se estamos chegando no local designado, não vejo motivo para lembrar e comentar no trecho da estrada ruim."

Apesar de todo seu esforço literário Dona Carolina de Jesus e sua escrita somente vêm recebendo seu devido cuidado e respeito na atualidade com o advento da entrada das camadas populares e negras nas universidades, com o reconhecimento da literatura inventanda por mulheres negras e com o avanço dos estudos da crítica genética e da crítica textual voltados para sua obra.

*Raffaella Fernandez é doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp e pesquisa a obra de Carolina Maria de Jesus há cerca de 20 anos

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Catadoras se inspiram em Carolina Maria de Jesus para produzir sua própria literatura

Processo de formação da Festa Literária das Periferias (Flup) sobre a autora de 'Quarto de Despejo' contempla uma turma exclusiva de catadoras de material reciclável; trabalho vai gerar um livro

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

A Festa Literária das Periferias (Flup) realiza em 2020 um processo formativo sobre a obra de Carolina Maria de Jesus, focado em mulheres negras. Com o processo atravessado pela pandemia, as oficinas se tornaram online e receberam cerca de 500 inscrições de 87 cidades do Brasil, de países africanos e da França. A ideia, segundo a produção, é propor reescrituras de Quarto de Despejo no aniversário de 60 anos do livro, e publicar um volume com a produção resultante, selecionada por uma banca de jurados.

Acontece que em uma parceria com o Ministério Público do Trabalho, a Flup decidiu estender o processo formativo para cooperativas de catadoras de material reciclável, e um grupo de 20 mulheres foi escolhido para compor uma turma. Desde abril, elas participam das palestras e trocam ideias em encontros virtuais, com orientação do professor Eduardo Coelho. A ideia é, ao fim do processo, publicar um livro com as histórias delas, escritas por elas mesmas.

"Olhando com uma espécie de banzo: todas elas tiveram uma avó ou mãe que tiveram um 'quarto de despejo'", diz o curador da Flup, o escritor Julio Ludemir. "Mas elas já estão na 'casa de alvenaria'", compara o escritor, citando os dois primeiros livros de Carolina, sobre dois momentos de vida diferentes para a autora.

As oficinas têm gerado comoção. "Essas mulheres nunca foram ouvidas em sua história. São histórias de muito sofrimento, de muita dor. Ninguém quer ser catadora de lixo. Nenhum dos filhos, inclusive os da pobreza, sonha isso. Depois de alguns desafios da vida, elas vão se reciclando, por intermédio dessa grande novidade que são as cooperativas, que reciclam a vida dessas mulheres. Elas vivem no entorno dessas cooperativas, as Carolinas pós-modernas já não estão revirando lixo para comer."

O ministrante da oficina é o professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro Eduardo Coelho. "Elas já têm muitas ferramentas narrativas por conta da relação com uma literatura oral", explica o professor. "Meu papel é dar consciência que elas já possuem narratividade. Aponto diálogos, ideias de conversar com o leitor… Certos recursos literários que elas já têm e usam intuitivamente. Procuro dar consciência de recursos que elas já podem explorar. Porque apenas a experiência não é necessariamente literatura. Experiências elas têm e muitas. Epopeias, histórias inacreditáveis de superação, dificuldades que elas passaram. Fora o fato de que a língua é poder: ter mais domínio da escrita é um aspecto muito poderoso."

Três das alunas da turma das catadoras da Flup compartilharam seus pensamentos e trajetórias. Role para baixo para ler essas histórias.

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Edilaine Gonçalves, a Naná: ‘Obra de Carolina e as discussões em grupo tocam na minha alma’

Presidente da Coopercata em Mauá, ela diz estar vivendo que nunca imaginou, com o contato com a obra da escritora e com os relatos das colegas de oficina da Flup

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

Quando tinha 13 ou 14 anos, na metade dos anos 1980, Edilaine Gonçalves, hoje conhecida pelos amigos espalhados pelo mundo que sua simpatia conquistou como Naná, frequentava a Biblioteca Municipal de Santo André. No espaço que mais tarde ganhou o nome de Nair Lacerda (intelectual e jornalista que levou o Jabuti por uma tradução de As Mil e Uma Noites), Naná buscava os escritos de pensadores para entender a matemática, ciência pela qual se apaixonou ainda criança e com a qual manteve relação durante toda a vida.

De Sócrates (fundamental para a construção inicial da filosofia da matemática) a Descartes (“nunca esqueço o 'penso, logo existo', tenho isso guardado dentro de mim”, diz Naná, em uma das ligações com a reportagem nas últimas semanas), a garota que estudou em escolas municipais e participou do movimento estudantil numa época em que o Brasil saía das garras da ditadura militar, misturava essas leituras com a de livros da coleção Sabrina — os romances populares que sua mãe trazia para casa e a deixava ler aos fins de semana. As leituras se espraiavam também pelas princesas clássicas do irmãos Grimm, passou por Monteiro Lobato e mais tarde também por atualidades, orientada por professores da escola, que forneciam a ela (sob um sigilo necessário por conta de perseguições políticas) matéria prima para os protestos em favor da democracia.

“Eu estava muito política nessa época, na quinta ou sexta série”, conta Naná. “Já estávamos no final do militarismo. Na escola, eu jurava a bandeira, usávamos o uniforme de meia até o joelho, sainha godê azul marinha, camiseta branca. O cabelo tinha que estar impecável, assim como as unhas, os professores olhavam. Eu me recordo bem. Saíamos e juntamos todos os colégios. Eles queriam que eu entrasse na juventude do PT, mas na época eu resisti um pouco. Já gostava de escrever. Mas percebi também que tínhamos que fazer alguma coisa. Batíamos nos colégios e íamos a pé fazer protestos, em busca de direitos constitucionais, direitos trabalhistas, direitos da mulher, direitos de voto.”

Naná demonstra uma compreensão generosa da vida, apesar — ou mesmo por conta — dos traumas que viveu. Sua família veio da classe trabalhadora, do campo, do interior de São Paulo. A mãe é de Pacaembu (cidade a 617 km de São Paulo), o pai de Tupã (a 435 km da capital). Há 50 anos o pai se mudou para o ABC em busca de trabalho na metrópole, chegou a amassar barro para fazer tijolos e dormiu na Estação de Santo André tendo como cobertor folhas de jornal. A educação, porém, foi uma prioridade em se tratando de seus filhos. “Ele sempre nos ensinou a estudar, crescer com dignidade trabalho e honra. Era o mínimo para ele”, conta Naná.

“Eu não nasci catadora”, diz — com o maior respeito pela profissão que a levou à presidência da Cooperativa de Catadores de Papel, Papelão e Material Reciclável de Mauá, a Coopercata. “Foi no término do meu casamento que iniciei a catança e fui parar na Coopercata. Iniciei como triadora, e foi lá que tive as inspirações para retomar minha formação.”

Antes disso, foi babá, cozinheira, empregada doméstica. Por insistência de um dos antigos patrões, da "aristocracia" de São Bernardo do Campo, foi fazer um curso de secretariado. Foi onde aprendeu a datilografar e operar as facilidades tecnológicas de escritório. “Só que mesmo assim, com as oportunidades, infelizmente o racismo aparece, e poucas portas se abriram. Ainda consegui trabalhar num escritório.” No meio tempo, casou-se. Teve sua história, na qual não entramos em detalhes, mas o divórcio foi muito difícil e Naná foi tomada pela depressão.

“Não consegui voltar a trabalhar por um tempo”, conta. “Depois desse período, fiquei sem nada, nem casa, só tinha um filho pequeno. Tive fome. Aí descobri a catança. Bati na porta da Coopercata, eles me deram a oportunidade de trabalhar. Acabei me apaixonando pelo ambiente. Trabalhava com materiais que desconhecia, isso me trouxe de volta a motivação de estudar.”

O presidente da cooperativa na época era Armando Octaviano Júnior, uma das inspirações que Naná encontrou pela vida. Ele a incentivou a buscar um sonho antigo: estudar engenharia. Com a vida em melhores termos, ela então prestou o vestibular para engenharia ambiental e sanitária, conseguiu uma bolsa de estudos de 85% e agora está no quarto ano do curso na Universidade Estácio, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo.

“Continuo catadora e sou feliz”, resume. “É a profissão que abracei. Já fui empregada doméstica, babá, a gente vê na vida muitas diferenças sociais. Quando você é doméstica, você é colocado apenas como um servo da casa. Passa humilhações, come restos debaixo da escada. Como catadora, nunca precisei comer resto de comida.”

As duas histórias de vida de Naná — entre as muitas que a reportagem conseguiu vislumbrar em conversas com a mulher de 49 anos, mãe do Gustavo, ele mesmo prestes a completar a faculdade também — se encontram então com uma emoção singular na sua participação nas oficinas literárias da Festa Literária das Periferias (Flup). Na turma das catadoras, Naná aprende ferramentas não só para colocar suas histórias ricas no papel, mas também contempla um exercício contínuo de alteridade.

“Nas oficinas, não consegui deixar de chorar um dia”, diz. “Todas as catadoras que estão participando têm histórias extremamente marcantes. São histórias de vida, de transformação, histórias que é impossível não chorar. As pessoas passaram por momentos extremos, como morar no lixão. Isso mexe muito. Estou vivendo um momento que nunca imaginei na minha vida. Essa aproximação com a obra de Carolina Maria de Jesus e com as outras mulheres da oficina é uma situação que toca na minha alma. Que toca uma essência que eu nem sabia que existia.”

Ela conta que o processo de colocar as histórias no papel — uma parte da orientação da Flup é se inspirar no método de escrita da própria Carolina — passa por um momento de reviver as experiências, o que muitas vezes não é fácil. “Quando é dado abertura para a gente trabalhar essa história, é a hora de sentar, pegar a caneta, e desabafar. Vai contar tudo que aconteceu, detalhar aquilo. Ali na verdade, é viver a realidade pela segunda vez. É tão real, e por isso que estou dizendo que é impossível não chorar. Mas além de estar revivendo, é também viver histórias que não vivi na minha própria pele. Ouvir as amigas contando é também viver as histórias delas. São experiências que motivam a lutar, a não desistir, a não parar. Não desistir do sonho, não desistir da vida. Tem sido muito marcante.”

Nesse momento da entrevista, quando a reportagem pede para ela ler um texto de sua autoria, ela vai até o quarto ao lado e traz um caderno, no qual uma de suas cartas destinadas a Carolina Maria de Jesus, cujo alcance, porém, transcende as barreiras do tempo. Na leitura, ela chora e faz chorar.

“Tenho escrito coisas sim”, explica, depois. “Ontem mesmo escrevi duas histórias. Hoje não escrevi ainda, mas vou sentar e escrever. Estou inspirada.”

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‘Carolina Maria de Jesus vivia num tempo mais difícil, com ainda mais preconceitos’

Na turma de catadoras de material reciclável da oficina literária da Flup, Viviane Conceição de Souza diz que conhecer a obra de Carolina foi uma revelação

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

Quando Viviane Conceição de Souza, de 42 anos, aceitou a proposta de se juntar às mais de 500 mulheres que se inscreveram no processo de formação da Festa Literária das Periferias (Flup), ela ainda não conhecia a obra de Carolina Maria de Jesus. Com a parceria da Feira com o Ministério Público do Trabalho e as cooperativas, ela topou participar da  turma exclusiva de catadoras, e o que veio a seguir foi uma revelação.

“Fiquei apaixonada”, conta Viviane, em ligação com a reportagem. “Não conhecia. Quando comecei a ler, percebi que era uma mulher incrível. Realmente, por ter vivido tanto tempo atrás e relatado essas situações. Com todos os problemas que ela tinha, com tantas dificuldades, a missão de caçar o pão do dia… ela, ainda assim, tinha toda uma esperança de que alguma coisa diferente ia acontecer. Ela desenhava e escrevia no dia a dia, sempre visando que a vida não seria só aquilo. Pelo menos para os filhos dela, foi mesmo diferente. Ela sempre visou um futuro diferente. Sempre trabalhou para isso.”

A visão de mundo de Carolina não foi o único aspecto com o qual ela se identificou. Catadora há 11 anos, Viviane percebeu nos relatos da escritora a mesma vontade de “querer ir além” que marcou sua vida, desde cedo. “Sempre tive a vontade de procurar estar em outro lugar, não necessariamente físico, mas um lugar melhor na vida. Ao mesmo tempo, preciso levar outras pessoas para lá, não posso ir só. Para Carolina, era com a família. Para mim, sinto que meu trabalho não é de ser só, meu trabalho é em conjunto.”

Nascida em Guarulhos, Viviane tem raízes no Ceará. Seu avô, Miguel Bento de Souza, saiu do estado depois que as consequências de uma seca levaram para um outro mundo sua mãe e seis de seus irmãos, e acabou com seu trabalho na roça. Embarcou num pau de arara para São Paulo, onde conseguiu trabalho no Departamento Aeroviário do Estado, servindo cafézinho. Segundo a neta, saiu de lá com outra formação. Chegou a fazer três faculdades, uma de teologia (ele foi pastor da Assembleia de Deus), e passou o amor pela música para os filhos. 

O pai de Viviane, Gerson, estudou no Conservatório Villa-Lobos, foi maestro e também teve uma vida na igreja. “Era um homem muito bom”, diz a filha, emocionada pela perda recente. Quando ela cresceu, percebeu que a musicalidade era no seu caso hereditária. “Quando aprendemos a ler, tínhamos que aprender música também”, conta. Passou a tocar instrumentos de sopro, e seu contato frequente com a cultura durante sua formação foi mesmo com o gosto eclético pela música, ouvindo álbuns musicais de gente tão diferente quanto Xuxa, Bee Gees e clássicos da MPB.

Quando Viviane entrou na Cooperativa de Trabalho de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de São Bernardo do Campo (Cooperluz) em 2009, as condições eram menos favoráveis. “A gente carregava 300 kg de material no caminhão no braço”, relembra. “Hoje carrega em meia hora com empilhadeira. A transformação foi acontecendo, de maneira mais aguda de uns 10 anos para cá. Nos mandatos do Lula, isso foi se tornando uma prioridade, tirar essas pessoas, nós, da invisibilidade.” Hoje ela é diretora financeira da cooperativa.

Esse é outro ponto de contato de sua vida com a de Carolina Maria de Jesus, uma pessoa que fez de tudo para tirar de cima de si mesma a capa de invisibilidade que a sociedade atirou contra ela. “Ainda nos sentimos invisíveis”, diz Viviane. “As cooperativas têm que ser isoladas da sociedade, colocadas onde os olhos não veem, porque trabalhamos com lixo. O poder público fala da cooperativa apenas quando convém. Nós temos condições de trabalhar toda a coleta seletiva: fazer a coleta na rua, triar e comercializar. Mas eles dão o processo na mão das grandes empresas. Pensam que não temos direitos, dizem: ‘eles são só catadores, não podem ganhar três salários mínimos’. Eles fazem questão que fiquemos na invisibilidade.”

Um dos sonhos de Antonio Candido (1918-2017), o crítico literário mais importante do Brasil, era que a literatura (e as artes) também ocupasse o lugar de direito humano fundamental e inalienável. Viviane é uma das pessoas que estão levando o desejo do crítico adiante.

“Tenho escutado, na oficina, as histórias das pessoas, tenho ouvido muito”, conta, exaltando o processo de empatia que a literatura pode produzir. “Também sinto vontade de ler mais, entender melhor as coisas. Tem muitas coisas que ainda não li. Se eu olho a Carolina e olho para mim hoje, como mulher, catadora, homossexual, ela viveu muito disso, há muitos anos. O que ela fala lá, algumas coisas vivemos também. Dificuldades.”

Para ela, passar a frequentar as aulas virtuais oferecidas pela Flup foi uma salvação no contexto confuso da pandemia. Um método de escrita, para buscar a troca da literatura, já vai se desenhando: ela escreve à caneta, rabisca, depois passa para o computador. “Várias coisas que Carolina começou lá atrás, hoje já fazemos diferente, no mundo da catação. Ela vivia num tempo mais difícil, sofria mais preconceito, mais machismo, os filhos sofriam mais: hoje não precisamos pegar brinquedo do lixo, com o dinheiro da catação. Conseguimos melhorar. Fico muito emocionada.”

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'Carolina Maria de Jesus colocou uma mensagem na garrafa'

A catadora de material reciclável Claudia da Silva é uma das participantes das oficinas da Festa Literária das Periferias (Flup)

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

Aos 39 anos, a catadora de material reciclável Claudia da Silva hoje enxerga na obra de Carolina Maria de Jesus novos olhares para situações com as quais se acostumou. Nascida em Rio das Pedras e criada em Ourinhos, no interior de São Paulo, Claudinha, como é conhecida, vem de uma família envolvida com a catação há mais de uma geração. Ela terminou o colegial e hoje está há 18 anos no movimento de catadores, na cooperativa Recicla Ourinhos, mas se envolvendo com projetos regionais e nacionais.

Trabalho, renda e família: os temas que fazem parte do cotidiano de Claudinha são temas abordados na forma literária de Carolina, e a catadora, agora postulante a escritora via oficina da Festa Literária das Periferias (Flup), enxerga nos textos da colega mais antiga “simplicidade e riqueza”, na maneira com que Carolina detalha o dia a dia de uma catadora em São Paulo nos anos 1950 e 1960.

“Muitas vezes fazemos um trabalho invisível”, diz Claudinha. “A coleta é tida como serviço essencial, mas quantas pessoas estão nesse serviço essencial e ainda são muito invisíveis? A pandemia acentua isso.”

Nas páginas de Carolina, Claudia diz encontrar uma espécie de guia por questões fundamentais do mundo, mesmo atual — sua vontade nos próximos meses é montar grupos e oficinas em outros locais e repassar os conhecimentos adquiridos na oficina adiante. “É interessante que eu vejo a história dela e sei que muitas catadoras fazem isso: escrevem relatos, diários. A Carolina tinha que sair para a luta todo dia, correr atrás do seu pão e ainda ter um olhar de chegar em casa e falar consigo mesma. Eu imagino que ela soubesse que deixava algo para frente. É como colocar uma mensagem na garrafa.”

Claudinha conta que era nas aulas de português na escola em que ela percebeu um gosto pelos livros e uma vocação para espalhar a importância da educação. Com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e com o Instituto Paulo Freire, ela lutou pela implantação e depois trabalhou no programa de Educação de Jovens Adultos. Pelas dificuldades da vida, um de seus irmãos foi mandado para um presídio. Nas visitas, percebeu nas mulheres visitantes uma demanda por “empoderamento”.

“Eu também faço essa formação com as companheiras que estão esperando na visita dos presídios”, conta Claudinha. “A gente sempre se reúne, conversa, tenta ajudar. Meu plano, ao compartilhar os aprendizados da oficina, é ajudar essas pessoas que também são marginalizadas. A sociedade discrimina muitos as mulheres e familiares dos presos. Há uma questão do abandono também.”

O trabalho de leitura, especialmente da literatura, corre para ela no mesmo sentido. “Quero empoderar essas mulheres para que elas olhem a vida de outra forma, para que não se sintam culpadas, isso também é importante. Às vezes a leitura faz a pessoa pensar em outras possibilidades. A Carolina tem esse poder, o de trazer uma visão diferente. Ela chama atenção para coisas que passam despercebidas.” 

Da vivência constante no ambiente das cooperativas, Claudinha sente a necessidade de buscar a raiz dos problemas — e vê em Carolina uma análise exemplar de si mesma, bem como das condições sociais que regem a sociedade onde está inserida, a saber, o dinheiro e o poder.

“Atualmente a gente passa por um retrocesso muito pesado no nosso ambiente, que depende das políticas públicas para o terceiro setor”, explica com clareza. “Não temos respaldo de ninguém, só do trabalho das cooperativas. Aí eu me questiono: a Carolina idealizava um trabalho coletivo, ela sempre falou isso.”

A pandemia obviamente afetou o trabalho na região paulista, e veio daí a necessidade de reinventar processos, inclusive os de formação educativa, dos quais ela fala com entusiasmo. “Eu sento, organizo formações, faço relatórios, vou para coleta, faço reunião, vou para a esteira. O bom líder é o que conhece todo processo, tem que estar atuando em todos os espaços.”

O poderoso espaço que a literatura de Carolina já abriu para tanta gente, em diversas posições de trabalho e de sobrevivência, passa agora a ganhar uma importante aliada paulista.

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