Rue des Archives/Keystone
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Escritores brasileiros analisam a literatura policial de Dürrenmatt

A convite do 'Estado', Alberto Mussa, Tony Bellotto, Raphael Montes e Marçal Aquino reafirmam dedicação ao gênero praticado pelo autor suíço, que tem agora lançado 'A Promessa / A Pane'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2019 | 03h00

O conflito que habitualmente existe entre realidade e sua representação artística sempre fascinou o escritor e dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) – apesar de conhecido por suas peças teatrais (A Visita da Velha Senhora é a mais notável), ele enveredou pela literatura policial, à qual conferiu um nível filosófico. É o que se observa com a chegada agora do livro A Promessa / A Pane, reunião de um romance e um conto, pela editora Estação Liberdade.

O que torna especial a publicação de A Promessa é a possibilidade de se observar como Dürrenmatt não apenas apresenta uma trama de mistério como principalmente subverte as convenções do gênero – ali, ele desmerece o que, para muitos, é considerado um feito: a construção de uma trama perfeita. 

Com o subtítulo Réquiem para um Romance Policial, a obra – que inspirou um filme estrelado por Jack Nicholson – começa quando um escritor (o próprio Dürrenmatt) é abordado por um ex-chefe de polícia, logo depois de um debate sobre esse estilo.

“Nunca tive os romances policiais em alta conta e sinto muito que o senhor também os escreva”, diz o homem. “Em seus romances, o acaso não tem vez e, se algo parece acaso, é ao mesmo tempo destino e coincidência; desde sempre, a verdade é jogada aos lobos por vocês, escritores, em detrimento de regras dramatúrgicas.” E completa: “Vocês, da escrita, não tentam lidar com uma realidade que vive escapando entre os dedos, mas montam um mundo que é administrável. Esse mundo talvez seja perfeito, possível, mas é uma mentira.”

Em seguida, o policial oferece uma carona ao escritor na volta para Zurique e, durante o trajeto, passa a narrar a história da derrocada de Mattäi, um experiente inspetor. É aqui que Dürrenmatt se revela original, pois, após apresentar a tese que despreza a forma comum de se escrever uma trama policial, essência daquele discurso do ex-chefe, o autor suíço apresenta um exemplo do que, de fato, é um caso de suspense.

Mattäi é designado para solucionar o brutal assassinato de uma menina. Trata-se da terceira garota morta em semelhantes condições e as suspeitas recaem sobre um caixeiro-viajante que, apesar das muitas evidências que o recriminam, nega veementemente. Ele acaba preso, depois de confessar sob condições pouco lícitas. E, na cadeia, enforca-se. Mattäi, no entanto, não acredita em sua culpa e, contrariando o desejo de todos, satisfeitos com o que acreditam ser um caso solucionado, promete que vai, de fato, desvendar aquele crime.

É o início da derrocada, com o inspetor arriscando sua carreira, princípios e até a própria sanidade. É o suficiente para Dürrenmatt fazer uma reflexão sobre justiça, culpa, virtude e acaso, temas que sempre lhe foram muito caros. Mais: ao embaralhar ficção e realidade, ele propõe a discussão sobre a literatura dentro da própria obra.

O Estado consultou escritores brasileiros de romance policial, todos com obra respeitável. Os quatro que foram ouvidos aplaudiram a tese do colega suíço. “Considero perfeita a ponderação da personagem”, observa Alberto Mussa, autor do Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, conjunto de cinco romances nos quais investiga, por meio de histórias policiais, a confluência das tradições ameríndias, africanas e do Brasil popular na composição do imaginário e do panorama mitológico da cidade.

“É uma crítica a uma longa tradição do romance cerebral, como os de Conan Doyle e Agatha Christie, em que o detetive tem controle absoluto sobre os fatos e domínio sobre o aspecto psíquico das pessoas. Ainda hoje muitos autores seguem essa linha. Vejo muitos policiais no cinema também e essas histórias de serial killers cheias de crimes sofisticados e enigmas mirabolantes estão ainda em moda – e são mesmo universos artificiais.”

Pela mesma trilha segue Tony Bellotto, músico e autor de uma série de livros policiais com o detetive Remo Bellini como protagonista. “Uma das coisas que sempre me incomodaram em algumas histórias policiais foi exatamente essa necessidade de todos os fatos se encaixarem logicamente, como num quebra-cabeças. Convenhamos, nem todos nascem com o talento da Agatha Christie”, comenta ele. “Não concordo com a frase que diz que a realidade não precisa fazer sentido, mas a ficção, sim.”

Raphael Montes, que vem se consagrando como expoente da nova geração brasileira de autores de livros policiais, acredita que já não funciona mais um acordo tácito que havia entre escritor e leitor. “Em sua origem, o romance policial era uma espécie de livro-jogo, um desafio entre autor e leitor”, afirma. “O crime rompia a ‘ordem das coisas’ e o detetive vinha justamente para restabelecê-la. Como? Através do método lógico-dedutivo. Justamente por seu aspecto de ‘jogo’, era inadmissível que o autor se utilizasse de coincidências, encontros ao acaso ou intuições em geral. Seria como ‘roubar’ do leitor a chance de descobrir o criminoso de igual para igual.”

Montes ressalta que, como se observa no dia a dia, as coincidências e intuições vivem servindo a soluções de crimes – e que isso vem também inspirando uma boa parte da literatura policial que se produz no Brasil e no mundo. “Alguns autores já são menos controladores da trama e deixam a história fluir, como na realidade. Aí, o incalculável e o incomensurável têm vez.”

Ele cita, com exemplo, a norueguesa Karin Fossum e a francesa Fred Vargas, além do brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza, criador do delegado Espinosa. “É comum que, nos livros do delegado de Copacabana, o criminoso seja preso, mas algum elemento do crime não fique claro e continue sem resposta mesmo após o final. Segundo Garcia-Roza, existe no crime uma espécie de ‘núcleo inescrutável’, ou seja, algo inatingível até mesmo para o detetive.”

Bellotto aumenta a lista com o inspetor Maigret, criação do belga Georges Simenon. “Ele poderia assinar embaixo das declarações do ex-policial do Dürrenmatt, pois as deduções de Maigret são quase sempre fruto de acasos e revelações que a lógica não explica”, aponta.

“Ainda que seja romance, que o autor tenha controle sobre a trama, creio que seja possível ‘humanizar’ mais tanto os criminosos quanto os detetives”, completa Mussa. “O detetive não necessariamente precisa chegar à verdade e os crimes, em geral, têm motivos simples, são muito mais movidos por questões materiais e passionais do que por cerebralismos.”

Autor de romances e roteiros centrados no policial, Marçal Aquino vê como enfrentar o dualismo entre fato e ficção. “A realidade é o único roteirista realmente livre que existe e é insuperável”, diz. “Diariamente nós, criadores de ficção, somos afrontados por acontecimentos da vida real que nem sonharíamos em colocar no papel. Na ficção, há de se ter um certo pudor com o acaso. Sob pena de não ser levado a sério.”

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