LAURA CAPELHUCHNIK/ESTADÃO
LAURA CAPELHUCHNIK/ESTADÃO

Escritor sírio é vaiado na Flip ao criticar intelectuais e organizações de direitos humanos

Abud Said não quis responder a questões relacionadas à guerra civil na Síria e ao Estado Islâmico; autor dividiu a mesa com Patricia Campos Mello

Guilherme Sobota - Enviado Especial, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2016 | 13h03

PARATY - A mesa da Flip deste domingo, 3, chamada "Síria mon amour", teve de tudo, menos amor. O escritor sírio Abud Said dividiu o espaço com a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello, especializada em coberturas de conflitos - e a primeira frase que Said falou foi: "eu não quero falar sobre a guerra". Depois, ao criticar organizações de direitos humanos, meios de comunicação e intelectuais, Said foi vaiado (o que se repetiu ao fim da mesa).

"Não quero ficar aqui a falar do Estado Islâmico", disse Said, em árabe. "Não tenho medo, mas não quero. Não existem direitos humanos, não existe jornalismo, o que existe são pessoas que querem ganhar dinheiro. Eu sou egoísta. Não quero ser a voz da Síria. Faz três anos que cansei. Não há uma sociedade mais doente do que a sociedade intelectual e de quem trabalha com direitos humanos", opinou.

Elegante, Patricia disse concordar que os jornalistas, nessas coberturas, contam experiências pessoais, que não necessariamente refletem a realidade. "Só espero que o relato não seja muito deturpado, com a ajuda de vocês", disse, se referindo ao povo sírio. Ela está escrevendo um livro que conta a história da guerra contra o Estado Islâmico e a história de um casal que sobreviveu ao cerco a cidade de Kobani em 2014 (Lua de Mel em Kobani, que a Companhia das Letras deve publicar ainda este ano).

"Não tenho direito de ter medo", explicou. "Há gente que mora lá, elas estão lá todo dia. Eu ter medo é uma coisa um pouco absurda", comentou, sobre suas coberturas.

Said veio a Flip com o seu livro O Cara Mais Esperto do Facebook (Editora 34), que reúne alguns de seus posts - uma mistura de diário, comentários sarcásticos sobre a vida e observações irônicas. "Esses jornalistas e o pessoal da cultura só falam da guerra", disse. "Estou feliz de estar aqui, é serviço cinco estrelas. Me levam para jantar e almoçar, ontem fiz sauna. Estou muito feliz. Sou sírio, mas não tenho nada a ver (com política)."

Ele conta que abriu uma página no Facebook e começou a escrever um diário. "Não sabia que ia virar escritor e vir para o Brasil", brincou. Ao contar histórias relacionadas à família, fez o público rir. "Comecei a escrever e aí o pessoal mais preparado me explicou que era literatura."

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