Escritor procura origem de suas cuecas e faz viagem pela China

Alguns viajantes seguem seus corações,outros se guiam pela mente. Mas poucos vão atrás de suascuecas, como fez o escritor neozelandês Joe Bennett. A compra de uma embalagem com cinco cuecas de fabricaçãochinesa levou Bennett a uma viagem reveladora, partindo de umaloja na Nova Zelândia e chegando à China, para decifrar ofuncionamento misterioso do capitalismo global. Ao rastrear o pacote de cuecas de 6,5 dólares até umafábrica em Xangai, os seringais da Tailândia e os campos dealgodão de Xinjiang, no extremo oeste da China, Bennettencontrou as centenas de pessoas que produziram e exportaramsuas cuecas. O autor disse que, embora não tenha descoberto quanto ascuecas de fato custaram para serem feitas, ele aprendeu muitocom sua odisséia, intitulada "Where Underpants Come From" (Deonde vêm as cuecas). Ele conversou com a Reuters recentemente. PERGUNTA: Por que cuecas? Por que não procurar a origem deum iPod, uma mangueira de jardim ou qualquer outro produtoexportado pela China? RESPOSTA: Porque eu tinha comprado cuecas, e não umamangueira. Comprei cuecas, e isso me levou a refletir. P: Sua viagem nasceu de uma ignorância pós-industrialpeculiar: você não fazia idéia de como as cuecas eramproduzidas, nem a que preço? R: Nós no Ocidente vivemos sentados sobre uma almofada deriqueza que poucos de nós podemos justificar, já que nãotrabalhamos nesses processos industriais, comerciais oucientíficos. Algo tão rudimentar quanto produzir algodão -- nãofaço idéia de como é feito. Se a eletricidade parasse de sergerada, não seria eu quem a faria começar outra vez. P: Foi sua primeira viagem à China. Você estava receosoquanto ao que poderia encontrar na fábrica de cuecas? R: Não fui a nenhum lugar em que operários trabalham emcondições desumanas. Acredito que as cuecas em questão sãoproduzidas sob condições as mais próximas de éticas quanto épossível se produzir cuecas na China. É claro que as pessoastrabalham muitas horas e ganham menos, mas é em função de umaeconomia diferente com um mercado de mão-de-obra imenso. P: Você escreve que, quando era jovem, as cuecas eram todassimples e brancas, sendo que hoje existe um arco-íris de corese estilos. O que isso nos revela? R: O boom da promoção da vaidade no Ocidente, e também aenorme ampliação do comércio em qualquer lugar onde é possívelampliar um mercado. As casas de todo o mundo no Ocidente são repletas de coisasredundantes, que as pessoas compraram numa busca frenética porfelicidade, mas nenhuma das quais a proporcionou. Não é porusar cuecas de cetim que você será mais feliz ou terá maissucesso sexual. P: O que isso nos revela sobre os consumidores de hoje? R: São ricos, tolos e sedentos por mais, sempre mais, comoburros correndo atrás de uma cenoura inalcançável. Não secompra a felicidade numa loja de departamentos. Mas essa ilusãoé de importância crucial para a sociedade de consumoocidental.

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