Escritor português Gonçalo Tavares faz palestra em São Paulo

Escritor português Gonçalo Tavares faz palestra em São Paulo

'Tenho pena que não haja maior intercâmbio', diz o autor sobre as literaturas de Brasil e Portugal

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2017 | 18h38

Em um poema reproduzido à exaustão em provas escolares, Oswald de Andrade provoca: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”. O estranhamento proveniente da ambiguidade do título, Erro de Português, coloca em xeque a confiança que temos na linguagem. Uma sensação parecida de desorientação emana da prosa de Gonçalo M. Tavares em seu novo livro, O Torcicologologista, Excelência, publicado no Brasil pela editora Dublinense. O escritor angolano radicado em Portugal veio ao País para participar da palestra Literatura, Imaginação e Realidade nesta sexta, 23, às 19h, na Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2500, Sumaré). O evento integra o Experimenta Portugal 2017, que é promovido pelo Consulado Geral de Portugal em São Paulo e reúne shows, exposições e debates.

Ao partir de temas do cotidiano para chegar a uma conclusão supostamente absurda, Tavares subverte a lógica da linguagem nos contos que compõem o lançamento mais recente. “O escritor é crente na linguagem, mas absolutamente desconfiado dela, pois não é uma coisa natural do mundo. Um cão não produz a palavra cão, não nascem frutos da palavra árvore”, afirma o escritor em entrevista ao Estado.

Em O Torcicologologista, Excelência, Tavares trabalha com microcontos que se integram em uma unidade. O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) comparava o romance ao cinema e os contos à fotografia, mas Tavares prefere outro caminho: “O cinema é composto de uma sequência de fotografias. Quando vemos um filme de Tarkovski, cada fotograma tem a qualidade de uma foto. Se pararmos e analisarmos uma frase, ela deve ter força suficiente para viver sozinha. Claro que a narrativa vai colocar as frases em sequência, mas a fotografia é a frase e a narrativa visual ou escrita, pode ser o cinema.”

O escritor acredita que a literatura brasileira não é muito difundida em Portugal, e vice-versa. “Tenho pena que não haja maior intercâmbio, não haja editoras comuns, uma língua transnacional, como existe em lingua espanhola, por exemplo”, lamenta Tavares, que superou as fronteiras para ser publicado em outros países, mas tem uma trajetória literária peculiar. Embora tenha começado a escrever muito jovem, passou mais de uma década sem tentar tornar seus escritor públicos antes de lançar a primeira obra, O Livro da Dança (2001). “Acho que sem esse percurso inicial, nada seria possível”, conta o autor. “Foi decisivo, faz parte de uma construção fora do olhar, foi um trabalho essencial de ler muitos clássicos, ler de uma forma quase animal”, completa. 

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