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Escritor Jeremías Gamboa lança o livro 'Contar Tudo'

Peruano chega ao País com aval de Vargas Llosa e Carmen Balcells

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 18h51

Jeremías Gamboa desembarca no Brasil com status de fenômeno literário: apadrinhado por ninguém menos que Mario Vargas Llosa, com críticas elogiosas em jornais de diversos países (do El País, espanhol, ao Clarín, argentino), respaldado pela agente literária do boom Carmen Balcells, best-seller no Peru, encarando de frente E.L. James (50 Tons de Cinza), George R. R. Martin (Guerra dos Tronos) e Dan Brown.

Gamboa nasceu em 1975 em Lima, estudou comunicação por ali, fez mestrado nos EUA e trabalha desde muito jovem com o jornalismo, pelo menos até quando decidiu se dedicar totalmente à literatura - caminho bastante parecido com o de Gabriel Lisboa, protagonista de Contar Tudo (Objetiva), que faz um esforço danado para cumprir a promessa do título.

O furor sobre Gamboa foi primeiro causado por seu livro de estreia, Punto de Fuga, de contos, ainda não publicado por aqui. Contar Tudo já nasceu famoso. Sobre o livro - que se apresenta com o risco de ser ofuscado pela expectativa que criou -, Gamboa respondeu às seguintes questões por e-mail.

Você disse em outra ocasião que a ironia é supervalorizada hoje em dia. Contar Tudo parece um romance sem ironia alguma.

Sim, é um livro sem ironia. Depois de algum tempo escrevendo, me dei conta que não era o tipo de autor com humor ácido ou com uma visão irônica das coisas. Pelo contrário. Acredito ter sido testemunha de uma sobrevalorização da ironia e da presença potente de artistas que não a usam, mas que se aproximam à mais pura sinceridade e fé, como os músicos do Arcade Fire. Nesse sentido, estou próximo de uma ideia do escritor israelense David Grossman, que advoga por uma “ingenuidade adquirida”. Parece que em um tempo tão acossado pela ironia, e, sobretudo, pelo cinismo, podemos fazer do romance um campo de resistência para esse tipo de ingenuidade.

A frase utilizada na orelha da edição brasileira, retirada do El País, diz que a sua literatura busca uma luz no fim do túnel. Mas há alguns rastros que a aproximam dos beats, por exemplo, como a prolixidade. O ‘malditismo’ é algo que o preocupa?

É verdade que meu romance tem fortes ecos de Henry Miller (sobretudo no início) e de Jack Keroauc, escritores que geraram seguidores “malditos”, mas (minha literatura) não é maldita no sentido de que não se justifica em contar experiências escandalosas ou extremas, das quais não se extrai um conhecimento. Me interessa que a literatura ofereça também luzes dentro do contraste da experiência humana, que tente vislumbrar possibilidades de entendimento ou de relações entre pessoas.

Sei que Gabriel Lisboa não é você (e que é, ao mesmo tempo), mas depois de passar por uma viagem tão grande, e agora que é um escritor de sucesso, acredita que encontrou o que procurava?

Ele sim encontrou e creio que eu também: a possibilidade de escrever. Acredito que o êxito era para ele encontrar-se na literatura e consegue no romance, ainda que não saiba o que lhe espera. Eu creio que me encontrei também graças a ele, e graças à repercussão de Contar Tudo obtive certa calma para me dedicar ao projeto do romance seguinte.

E do que ele trata?

Posso dizer que será provavelmente de fôlego e que explora as pegadas do passado familiar. Por isso, a trama enlaça a história de dois meninos que crescem até se converterem em pais: um deles é filho do outro. É uma história que implica vários tipos de viagem, e que inclui cenários de Lima e de Ayacucho, um espaço no interior dos Andes peruanos em que surgiu o Sendero Luminoso, o movimento terrorista mais sanguinário da história contemporânea do Peru. Um romance sobre os laços filiais, certa violência social e do meio, a passagem do tempo e a paternidade.

O personagem Gabriel gosta muito da música de Caetano Veloso, de Lou Reed, e de outros artistas de música popular. Qual é a relação entre esse tipo de música e a literatura que pretende fazer?

Caetano Veloso foi determinante para mim em certo momento da minha vida. Eu era um garoto mestiço de Lima, bastante complexado com minha maneira de ser e de sentir e que escutava todo dia Gustav Mahler e se regozijava na dor quando descobri a música de Caetano, e com ele muitíssima música brasileira. Caetano abriu uma janela de percepção de minha condição mestiça que era gozosa, e que me fez muito bem. Me ensinou que a arte pode ser desfrutada, e que um pode falar de coisas como a dor ou a perda sorrindo. E que alguém pode amar seu corpo e sua pele escura e desfrutá-las. Fiquei encantado de fazê-lo dançar no quarto de Gabriel, junto com Gabriel. É o grande homenageado do meu livro com Lou Reed, que foi um mestre da liberdade para mim. Creio que a esses músicos devo tanta ou mais influência do que a certos escritores que admiro. A música popular é absolutamente importante para mim porque nela formei minha sentimentalidade. Do Brasil me encantam Milton, Chico, Gil, Adriana Calcanhotto, Lenine... Foi uma ilusão ler a edição brasileira.

CONTAR TUDO

Autor: Jeremías Gamboa

Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo

Editora: Objetiva (536 págs., R$ 59,90)

TRECHO INICIAL DE CONTAR TUDO

Agora, sim, a música inunda todo o aposento. O disco gira, daqui vejo-o se mover, gira a todo o volume e por isso quase não me escuto, não escuto os sons violentos que produzo unicamente com meus dedos indicadores golpeando o teclado, nu e sentado diante do computador do meu quarto esta manhã. O golpe que desatou a maré foi uma guitarra partindo-se em duas, o som de um prato que fustiga o ar, o baixo que se lança como um colchão sobre todas as coisas. Depois tudo foi dele. E meu. O que ele diz eu uso como epígrafe, escrevo na página, assim. O que ele diz é o que eu sinto ou que agora creio sentir dentro de mim. O que ele diz me parece bobo e talvez eu também o seja. Bobo por acreditar em tudo, imaginar que isto é tudo o que eu precisava para fazê-lo, sair do banho, sentir a água gelada no corpo, ligar o computador, colocar o disco dele, golpear o teclado, sentir que sou capaz de dizer o que me der na telha. Escrever...

Durante muito tempo tentei inutilmente me tornar alguém que escreve um livro, ou viver como alguém  que escreve um, ou como eu acreditava que alguém assim teria de viver, mas durante mais de dez anos não escrevi uma só linha que me agradasse. Até hoje. Agora há um sol morno lá fora, é setembro, é quarta-feira, e eu estou em Santa Anita, vestido com uma camisa qualquer e um short, de sandálias. E agora, recém-saído do chuveiro, me dou conta perfeitamente de que isto é, por fim, o início de algo, ou de tudo, a chegada do dia ideal para que algo assim sucedesse, para contar tudo. O livro que alguns segundos atrás se abriu em meu cérebro e se alinhou perfeitamente em minha cabeça e em minhas vísceras... Que já tem título, dedicatória e epígrafe, e também seus dois primeiros parágrafos, e que se narra a si mesmo. Ele sozinho. Apesar de mim.

Então, afinal, tudo era assim. Consiste simplesmente em colocar na tela que eu me chamo Gabriel Lisboa e que não se trata de um nome parecido com o meu ou de um alter ego produzido pela combinação de nomes e sobrenomes de outros personagens que me agradaram de outros livros e que significam algo especial para mim. Meu nome não significa nada. Simplesmente me chamo Gabriel Lisboa e tenho vinte e nove anos. Ou, melhor ainda, estou muito perto de completar os trinta e sinto de repente que afinal perdi o medo de completá-los. E também direi que agora, com esta libertação e esta energia que me dispara os dedos sobre as teclas, tenho a sensação de que por fim começo a ver as coisas e a entendê-las, de que posso tocá-las. Por que me bloqueei durante tantos anos?, me pergunto. Por que agora tenho vontade de me sentar para escrever isto e simplesmente me sento e escrevo? O que me permite unir cada uma destas palavras agora com a sensação de que enfim venci alguém ou algo dentro de minha cabeça e de que cada letra que coloco é pertinente e cai justa e para sempre na página? Sem dúvida, parte da razão deve ser de Lou Reed. Ele cantando I'm So Free, mas sobretudo Beginning to See the Light. Lou Reed gritando como um energúmeno dissociado de si mesmo, desafinando. Talvez se trate simplesmente disso, de que finalmente aprendi que o negócio é fazer e não me julgar. É isso. De me vencer escrevendo. E pronto.

Então o faço. (...)

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