Lara Ronsino
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Escritor Hernán Ronsino traz metáforas subterrâneas da Argentina em livro 'Glaxo'

"O romance surgiu como necessidade de contar uma história que se distanciou do modo de ser do meu primeiro romance, 'La Descomposición'", diz o autor

Entrevista com

Hernán Ronsino

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2017 | 06h01

Em uma modorrenta cidade industrial no pampa argentino, a monotonia é quebrada pela narrativa de quatro homens que descrevem a história de uma traição silenciosa. O curioso é que a trama é contada em quatro momentos distintos (1973, 1984, 1966, 1959), formando um coro de vozes que apresenta perspectivas fragmentárias do ambiente dessa cidade (pacífica apenas na aparência). Essa estrutura de saltos temporais é um dos vários trunfos de Glaxo, pequeno romance do argentino Hernán Ronsino, agora publicado pela Editora 34.

Glaxo é o nome da fábrica daquela cidade, marcada também pela retirada dos trilhos do trem para a construção de uma estrada. E os narradores são o resignado filho do barbeiro, o açougueiro cinéfilo, o funcionário da estação ferroviária e o suboficial transferido. 

A solução de um crime logo fica em segundo plano quando o leitor observa a hábil escrita de Ronsino: austera, mínima, redonda, apresenta vozes muito bem diferenciadas pela sintaxe e pelo ritmo, cuja fala revela uma violência reprimida, que só explode em poucos, mas marcantes momentos. Como observou Carolina Esses, do jornal La Nación, “a meticulosidade poética com que ele constrói o ritmo de cada frase, somada ao lento colapso que inunda suas novelas, resulta em uma prosa particular e claramente reconhecível”. Fiel à tradição de seus escritores admirados (William Faulkner, Samuel Beckett, Juan José Saer e Rodolfo Walsh), Ronsino conversou por e-mail com o Estado

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Sua literatura dialoga com o mais típico da tradição argentina, mas também com Samuel Beckett e William Faulkner. Como essa mescla literária interfere com sua escrita?

Em Glaxo, em particular, há uma intertextualidade clara com Operação Massacre, de Rodolfo Walsh. Eu diria que é um livro central na literatura do século 20 na América Latina. E um livro central na literatura argentina. De lá, emerge uma espécie de fragmento que articula a narrativa em Glaxo e outras formas da tragédia. Além disso, os autores que você mencionou me marcaram fortemente. O mundo de Faulkner, seu poder narrativo e, no caso de Beckett, a liberdade de explorar, com o idioma, as profundezas do ser.

A epígrafe de Glaxo, aliás, traz um belo trecho de Operação Massacre. Como se conecta com a escrita fascinante de Walsh?

A relação entre a escrita de Glaxo e Walsh, acredito, não está tanto no plano de uma influência na escrita – embora eu realmente goste de suas histórias, sua brevidade e condensação –, mas sim na referência a certos episódios políticos que são fundamentais na história argentina. A queda de Perón em 1955 e a perseguição sistemática ao movimento operário e popular após o golpe militar. Walsh narra, em Operação Massacre, de que forma o estado militar avança sobre os direitos dos cidadãos, subjuga-os, os suprime; há nesse episódio que Walsh conta um precedente do que, em 1976, será organizado na forma sistemática de um genocídio e do qual Walsh, como tantos outros, foi vítima.

Glaxo tem uma trama que leva você a avançar uma vez que há um trabalho muito delicado com a frase. Como foi o trabalho de escrever esse romance?

O romance surgiu como necessidade de contar uma história que se distanciou do modo de ser do meu primeiro romance, La Descomposición. Essa novela tinha uma estrutura mais dispersa, mais fragmentada. E, em Glaxo, em vez disso, queria contar uma história que, embora montada em fragmentos datados de forma desordenada, era uma história que se concentraria em certos eixos de articulação. Portanto, dessa lógica se desprendeu também uma construção específica da frase. Frases curtas. Concretas. E é, de sua parte, um romance de várias vozes. Isso também me interessou muito: trabalhar com pontos de vista.

Os romancistas têm uma obrigação moral para seus personagens e seus leitores?

Não creio que, na hora de escrever, o autor tenha de ordenar sua busca em função de certos princípios morais. Na verdade, em Glaxo, um dos quatro narradores é um personagem sinistro. Um policial da repressão. E ele narra na primeira pessoa. Estou interessado em suspender qualquer tipo de julgamento de valor e entrar na literatura a partir de personagens que sejam os mais opostos e distantes da minha maneira de pensar.

Que tipo de relação existe entre os escritores e as pessoas que criam nas páginas?

Os personagens, no meu caso, funcionam e os sinto como esquemas perceptivos que me permitem expressar o mundo com outro olhar, diferente do meu. São esquemas, construções.

Provocar simpatia e compreensão pela dor humana é mais fácil por meio da literatura?

Não sei. Como eu disse antes, no meu caso a pesquisa literária passa por uma experimentação com o idioma.

Quão importante é a perspectiva do narrador? Há uma conexão entre a perspectiva e a verdade?

No caso de Glaxo, eu estava interessado em trabalhar com quatro narradores. Quatro pontos de vista diferentes. Nesse sentido, o romance não tem um narrador clássico que tudo conhece e tudo conta. Aqui, cada ponto de vista conta a sua verdade ou a sua mentira. E há silêncios, segredos, e o que não se diz é justamente aquilo que o leitor deve articular. A verdade é sempre subjetiva e, quando é apresentada como absoluta, estamos frente à verdade do poder.

TRECHO DE GLAXO

“Agora é uma tarde quente de sábado. Por isso, os operários não estão trabalhando aqui em frente. Nada além dos latões, enegrecidos, onde arde um foto que, de dia, parece não existir. Tomamos mate com meu pai. A ambulância municipal dobra com velocidade a esquina do açougue do Souza e para na frente da casa dos Barrios. Olho, com o mate na mão, por detrás da porta. Os médicos descem. Um deles entra na casa e é recebido pela mãe do Miguelito. O outro baixa a maca e entra, empurrando-a. Meu pai, arqueado num canto, ausente e velho, consumido como um osso exposto, solta: Rápido aí com o mate. Alguns minutos depois, saem os homens segurando a maca. A mãe do Miguelito tem um ataque de choro. Quem a acalma, com um abraço, é Juan Moyano. Miguelito Barrios agora viaja, outra vez, na ambulância, rumo ao hospital.”

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