Real Academia Española
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Escritor espanhol Javier Marías lança 'Berta Isla'

Livro mostra como a vida dupla de um espião deixa marcas profundas no afeto e na intimidade

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 06h00

Um dos mais importantes e reconhecidos escritores de língua espanhola, Javier Marías não vive conectado com o mundo virtual – dispensa computadores e celulares. Assim, além de sua própria obra, as entrevistas são o único caminho com o qual compartilha opiniões. Na concedida com exclusividade ao Estado, por conta do lançamento no Brasil de seu romance Berta Isla (Companhia das Letras), o espanhol nascido em Madri em 1951 desanca as redes sociais, “uma das invenções mais estúpidas e malignas do nosso tempo”. Para ele, trata-se de um terreno ocupado por “fofoqueiros e detratores, indivíduos ressentidos, ociosos, e malignos, que com frequência procuram prejudicar os outros para combater sua frustração e sua mediocridade”.

Não se trata de um homem radical – um tanto mal-humorado, mas fiel a seus princípios. Marías professa uma enorme fé na literatura, cujo poder derruba a fronteira com a realidade. É no mundo das letras que ele vê o verdadeiro sentido da existência. Conhecedor profundo da literatura clássica mundial, Marías constrói histórias que se apoiam, de uma certa forma, no pensamento de outros escritores, de Shakespeare a Balzac.

Em Berta Isla, são os versos de T. S. Eliot que ajudam os personagens Berta e Tom Nevinson a lidar com a ausência e a dor. Trata-se de um romance em que a verdade se esconde por trás das aparências. Nos anos 1970, Berta e Tom se casam, mas, antes do matrimônio, ela descobre que o futuro marido trabalha para o serviço secreto britânico. Prudente, não faz perguntas, mas convive com a angústia de jamais conhecer verdadeiramente quem está ao seu lado, o que deixa marcas profundas no afeto e na intimidade. Sobre o assunto, Marías respondeu às seguintes perguntas por meio de laudas datilografadas, que foram digitalizadas por seu agente e enviadas por e-mail. 

O senhor acredita na relação entre romance de suspense e psicanálise?

Meu pai (Julián Marías), que era filósofo e fã de romances policiais, dizia que minha obra tinha mais a ver com a filosofia do que parecia à primeira vista: em ambos os casos, tudo tem a ver com averiguar, indagar a verdade. Eu, pelo contrário, não costumo ler livros policiais, embora existam autores clássicos como Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Patricia Highsmith, Ross Macdonald. Desfruto mais dos filmes; no caso da leitura, tenho menos paciência. Em meus livros, em todo caso, o descobrimento da verdade ocorre o menos possível e, com frequência, nem se produz. No início do meu romance Coração Tão Branco, é afirmado: “Não quis saber, mas soube”. Ou seja, com frequência, meus personagens não querem saber e acabam sabendo algo, que lamentam. Faz falta muita valentia, acredito, para não querer saber e para decidir não contar alguma coisa que pode resultar em dano ou desencadear muitos males. Assim, em meus romances, existe essa tensão entre a conveniência de averiguar ou não, de relatar ou não. Dizer ou calar, olhar ou fechar os olhos. Além disto, muitos autores se valeram de um pequeno mistério ou de uma intriga aparente para falar de assuntos profundos, sem que o leitor ou o espectador fique entediado. Entre eles, estão Shakespeare, Hitchcock, Conrad, Le Carré. Tento não “enganar”: desde a primeira página, o leitor vê que, em meus livros, há uma história, mas que também há reflexão e digressão. Aquele que ainda assim queira continuar a leitura, seja bem-vindo. Aquele que se aborrece, eu entendo, e deve procurar um outro tipo de literatura, de peripécias, por assim dizer. Ou de desgraças autobiográficas, que se apreciam muito.

A maior parte dos seus romances, pelo menos desde O Homem Sentimental, é sobre o presente. Mas em Assim Começa o Mal, a ação transcorre em 1980 e, em Berta Isla, entre 1969 e 1995. Por quê? O senhor acha que as duas tramas não seriam críveis se ocorressem hoje?

Sim, foi o que eu disse quando saiu Berta Isla. O século 21 parece ter se inclinado pelo muito superficial. Os conflitos que tenho interesse em descrever, as ambiguidades morais, não sei se seriam verossímeis no caso de personagens de 2015 ou 2020. Para a maioria das pessoas hoje, esses conflitos, essas dúvidas, essas contradições parecem não ter nenhum efeito. Tenho a sensação, e espero estar equivocado, de que as pessoas se tornaram mais simples, mais monolíticas, menos inseguras que no passado. Tenho a impressão de que hoje elas (claro que generalizo injustamente) não se preocupam com os dilemas que ao longo da história preocuparam a humanidade. Mas continuam me preocupando e não vou perder meu tempo me ocupando de questões bobas que não me interessam em absoluto. Eu me interesso, por exemplo, pela ambição, mas não a avidez, que é o que encontramos hoje: interesso-me pela soberba, mas não o narcisismo de nossa época; pela vingança e a traição, mas não a má-fé gratuita praticada como passatempo; interesso-me pela culpa e o arrependimento, mas não a sua total ausência. Em entrevistas com personagens famosos, com frequência eles afirmam: “não me arrependo de nada do que fiz em minha vida”. É preciso ser muito tosco para dizer tamanha idiotice.

O presidente do Brasil não reconhece o período da ditadura militar; no Chile, há quem ainda simpatize com o ditador Pinochet e, na Espanha, me parece que há quem queira ressuscitar a Guerra Civil. Por que essa negação deliberada do passado?

Se o passado é desconhecido, pode ser inventado, é possível mentir, criar histórias e mitos falsos. Hoje, o passado é desconhecido, deliberadamente, como você diz, e também sem deliberação. Um gosto pela ignorância se desenvolveu, e as gerações atuais acreditam que nada lhes diz respeito antes de seu nascimento. No Brasil, parece-me, o presidente, embora eleito nas pesquisas, é profundamente antidemocrático. Para ser democrático não basta ter chegado legitimamente ao poder. É preciso governar democraticamente todos os dias. Ou seja, expandir as liberdades, respeitando as minorias, levando também em conta aqueles que votaram em outras opções. Não acredito que, na Espanha, exista alguém que queira ressuscitar a Guerra Civil – ao menos, não na população. Há políticos extremistas, de direita ou da falsa esquerda da qual padecemos, mas não passam disso, políticos e seus jornalistas vassalos. Os de direita porque, no fundo, são franquistas; os de esquerda porque gostariam de “vencer” a guerra que perderam. Por enquanto, limitam-se a falsificar o que aconteceu: a direita “empalidece” a ditadura, a falsa esquerda transforma essa Guerra em uma caricatura na qual os bons são boníssimos (republicanos) e os ruins são péssimos (franquistas). Os franquistas eram infinitamente piores, é claro, mas ninguém deveria se orgulhar do comportamento dos dois lados. Ambos eram criminosos. Não igualmente, mas eram.

Em Berta Isla, há um momento em que se coloca em questão a própria imoralidade da figura do espião. Hoje em dia, quando as redes sociais promovem uma falsa felicidade, não está a rede repleta de “espiões”?

As redes sociais, que nunca vejo (não tenho computador nem celular), são uma das invenções mais estúpidas e malignas do nosso tempo. Não estão cheias de espiões (respeito a essa antiquíssima profissão), mas de fofoqueiros e detratores, indivíduos ressentidos, ociosos e malignos que, com frequência, procuram prejudicar os outros para combater sua frustração e sua mediocridade. Claro que um espião é alguém que tem de renunciar a uma certa moralidade: seu trabalho consiste em aparentar, enganar, fingir ser amigo daquele que quer prejudicar. Há os que acreditam, contudo, que essa tarefa é necessária para evitar outros males. Mas nunca se deve perder de vista a “imundície” intrínseca da profissão. Há os que a assumem e os que não. A sociedade não a assume, é hipócrita e quer se sentir “limpa”. Mas, se há um atentado terrorista, ela se exaspera porque os serviços secretos não o detectaram, não o previram e não impediram. Nunca vi uma sociedade tão hipócrita como a de hoje. Quer se apresentar como solidária, “empática”, tolerante e comumente é egocêntrica, desumana, censora, proibitiva e intransigente. Não venho gostando – até o momento – desse século 21. Oxalá mude, amadureça e se torne um pouco adulto. O infantilismo em si não oferece muita coisa.

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