Gabriel Rath Kolyniak/Tapera Taperá
Gabriel Rath Kolyniak/Tapera Taperá

Escritor e professor Raul Fiker morre aos 70 anos

Ligado ao movimento surrealista paulistano dos anos 1960, titular de filosofia da Unesp morreu num acidente no fosso do elevador do prédio onde vivia em São Paulo

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2017 | 12h50

Na antevéspera de Natal, o poeta surrealista Raul Fiker entrou no elevador de seu edifício, no bairro das Perdizes, e só encontrou o fosso. O desencontro pôs fim à sua trajetória, com um único livro de poemas publicado: O Equivocrata. Lançado em 1976 por Massao Ohno, a coletânea de textos em prosa juntava-se a outros volumes fundamentais do surrealismo paulistano, lançados pelo mesmo editor, como Paranoia (1963), de Roberto Piva, e Anotações para um Apocalipse (1964), de Claudio Willer.

Em setembro último, o jovem editor Gabriel Kolyniak, da Córrego – responsável pela Biblioteca Roberto Piva – relançara o volume dos poemas de Fiker, então professor titular de filosofia da Unesp. A bela edição traz textos que ficaram de fora da primeira edição, um agudo prefácio de Claudio Willer e as imagens oníricas da artista plástica Maninha Cavalcante, responsável por aproximar Fiker de seu editor primeiro.

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Entre o saber científico do docente aposentado e o saber analógico do poeta, vão-se 41 anos. A reedição, necessária e bem mais que bissexta, resgata o surrealista Fiker e tranforma O Equivocrata na obra que emoldura sua escrita e sua existência. Literatura e vida se conjugam numa linha do livro: “Foi dentro daquele elevador que ele sempre esteve e ali passará o resto de seus dias.” (p. 76). Nada mais equivocado e, portanto, nada mais certo. “Só há causa naquilo que falha”, dizia o psicanalista e surrealista francês Jacques Lacan, em seu seminário de 1964. 

Quando André Breton e os jovens médicos e poetas franceses procuraram por Freud, em meados dos anos vinte, buscavam no vienense uma chancela para seus experimentos com a escrita automática e o inconsciente, donde acreditavam ter topado com um saber ancestral. Preguntava-se Breton a certa altura de seu Manifesto Surrealista, de 1924: “Quando teremos lógicos e filósofos dormentes?”. Freud, apreciador de literatura e arte clássicas, esquivou-se dos iconoclastas. Lacan, por outro lado, conjugou o rigor freudiano e o saber da literatura, colocando-a no centro de sua práxis: “Só há causa naquilo que falha”.

Pois a trajetória do brasileiro Raul Fiker está intimamente ligada aos preceitos de Breton. Desde sua participação na Primeira Mostra Surrealista de São Paulo, em 1967, com a exposição de trabalhos seus ao lado de obras do próprio Breton, de Duchamp, Magritte, Miró, Arp e Paz até, claro, seu livro de poemas em prosa –  lançado na provocativa Feira Paulista de Literatura e Arte, em 1976, no Teatro Municipal, em plena ditadura –  há escolhas e posturas humanas, mais que apenas estéticas. 

Assim é que Fiker leva ao limite algo que se lê nos surrealistas e em Lacan e funda, nas páginas de seu livro, uma equivocracia, o domínio da equivocidade, e irá sustentar, na escrita literária, a falta de sentido e propor uma realidade falhada. Há momentos em que há sucessão de imagens, alinhavada por um sutil vocativo e uma mera pseudo-explicação: “Senhora, armadilha suave que estraçalha todas as células, delírio de semana passada, marca amorosa na superfície do planeta, última instância do mal-entendido, esconderijo com mil cabines individuais, sua covardia não tem peça de encaixe, é contemporânea” (p. 25). Noutros trechos, o delírio dá lugar ao absurdo, produzindo fragmentos irônicos que atacam em cheio um mundo que ainda é o nosso, como na singela descrição da prisão: “(Há um contrato. Na prisão você entrega seu espaço e recebe tempo em troca. Como prisioneiro, ao receber sua ração de sol, você pode observar as sentinelas nos muros, presas também, aos uniformes, ao salários de terror e à bestialidade da responsabilidade do dinheiro)” (p. 20). Há ainda uma série de pequenos contos muito bem realizados, como “1969 & A conquista da Lua”, em que se narra a chegada do homem à lua em paralelo à pesca de um bagre. Destaque-se também “Hábito”, em que se conta o encontro cheio de consequências do narrador com um rato na Biblioteca Municipal. 

Assim, há que se considerar que, embora haja exemplos acabados de pequenos poemas ou narrativas coesas, O Equivocrata é uma obra que se lê melhor de modo fragmentário, pescando-se frases singulares, das quais a atribuição do sentido caberá ao leitor: “Quebrar tudo ou não tocar em nada” (p. 26), “Escolher uma posição do caleidoscópio e lutar por ela até a morte” (p. 26). Um livro que se pode ler, como um lance de dados, num mundo para o qual, nas palavras do poeta,  impera “A contingência, e não o trágico” (p. 63).  

De tal modo também pode ser lida a pequena hagiografia de São Simeão Estilita, encerrado em seu elevador, não como uma antecipação funesta do desaparecimento do escritor, mas como um lance a mais do jogo: “Desta forma, o santo dá início à sua obra: uma imensa coluna – isto os impressionará sobremaneira, e também ao santo – no topo da qual ele se instalará após a árdua construção. Árdua, porque os materiais usados na empreitada consistem em fragmentos do elevador e dele. São Simeão Estilita” (p. 78). O poeta pode sim escrever-se na juventude para, nos dias finais, confirmar seus votos. Como dizia o chileno Vicente Huidobro, “o poeta é um pequeno deus”.

*Wilson Alves-Bezerra é poeta e professor de Letras da UFSCar

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