Fredrik Sandberg
Fredrik Sandberg

Escritor e jornalista argentino Martín Caparrós participa de festival em SP

Argentino fez ampla pesquisa sobre um infortúnio milenar

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 06h00

O escritor e jornalista argentino Martín Caparrós é um profissional persistente - suas obras de não ficção nascem depois de uma longa gestação, marcada por pesquisas, na maioria das vezes, in loco. Para escrever um de seus livros mais instigantes, Fome (Bertrand Brasil), por exemplo, Caparrós passou seis anos viajando por países da América, Europa e África, onde conheceu pessoas que, por motivos diversos (seca, guerras, marginalização, miséria), passam fome.

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Esse será um dos assuntos que certamente Caparrós vai tratar durante o Festival Serrote, evento promovido pelo Instituto Moreira Salles de São Paulo neste sábado, 21, e domingo, 22. Em sua primeira edição, o evento vai reunir convidados nacionais e internacionais para discutir as conexões do gênero do ensaio com a política, o jornalismo e o urbanismo, entre outros temas. As atividades vão acontecer no cineteatro do IMS Paulista, com entrada gratuita - é preciso retirar senha uma hora antes.

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O escritor de 60 anos - dos quais, 30 de carreira - é um dos destaques do sábado. Autor de mais de 30 livros, Caparrós revela-se um escritor especialista em dramas sociais. Em Contra el Cambio (Contra a Mudança), por exemplo, ele repensa o lugar-comum que há entre a ameaça climática e a resposta ecológica. Mas foi com o ensaio/pesquisa/manifesto Fome, de 2015, que ele ganhou projeção internacional. Ali, Caparrós parte de uma cifra alarmante: cerca de 1 bilhão de pessoas sofre com a falta de alimentos no mundo, apesar de a agricultura planetária ter a capacidade de alimentar, sem problemas, 12 bilhões de seres humanos (segundo dados da ONU), quase duas vezes a população mundial. Mesmo assim, cerca de 25 mil pessoas morrem a cada dia com alguma doença relacionada à falta de alimentos.

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Seria isso um problema técnico ou político? “A fome sempre foi um problema político: sempre houve aqueles que monopolizavam a riqueza da mesma forma que havia outros que não tinham o suficiente”, afirma ele ao Estado, em entrevista por e-mail. “O que mudou, a partir dos anos 1970, é que, pela primeira vez na história da humanidade, somos capazes de produzir alimentos suficientes para todos os habitantes deste mundo. O que não significa que o façamos: a estrutura da produção e do comércio global demonstra que ainda há quase um bilhão de pessoas desnutridas em um mundo onde todos poderiam comer o que precisam. Agora, a fome ainda é um problema político, mas a eliminação não seria mais, se a decisão fosse tomada, um problema técnico. É por isso que costumo dizer que a fome de hoje é a mais desonesta e a mais repugnante da História.”

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O livro abre com o encontro do escritor com Aisha, moradora de uma aldeia no Níger, oeste da África. Com pouco mais de 30 anos, Aisha alimenta-se com uma bola de farinha de milho “todos os dias que pode”. Questionada por Caparrós o que pediria para um mago, a mulher responde: “Uma vaca”. Com a insistência do escritor, que dizia ser possível fazer qualquer pedido, Aisha é direta: “Duas vacas. Com duas, sim, eu nunca mais teria fome”.

O tema já foi tratado em outros de seus livros de não ficção, mas Caparrós teve cuidado ao eleger o assunto como principal daquela obra. “Pensei nisso por muitos anos, mas não conseguia encontrar a forma adequada. Parecia difícil falar sobre algo que transformamos em um clichê: ‘A fome no mundo’. Tive dificuldade para descobrir a forma que acabei utilizando nesse livro: uma combinação de histórias de pessoas - que poderiam nos emocionar - com dados e análises - que devem nos fazer entender por que essas histórias acontecem”, revela.

Em sua argumentação, Caparrós não se vale apenas de dados que, por si mesmos, já seriam alarmantes - ao tentar aproximar o leitor do problema, ele acaba por torná-lo um cúmplice da desgraça. “Se você se der ao trabalho de ler esse livro, se você se entusiasmar e lê-lo em - digamos - oito horas, nesse lapso terão morrido de fome umas oito mil pessoas: oito mil são muitas pessoas. Se você não se der esse trabalho, essas pessoas também terão morrido, mas você terá a sorte de não ficar sabendo”, escreve.

A fome pode ser uma forma de dominação, mas também pode gerar revoluções? Segundo Caparrós, ela fez isso durante boa parte da História. “Vivemos hoje em sociedades mais complexas, com mais mecanismos e mais nuances, mas ainda a pobreza e a desigualdade seguem sendo os principais incentivos para tentar mudá-las.”

No livro, o argentino é taxativo: “A fome tem muitas causas, mas a falta de comida não é uma delas”. E completa: “Os casos mais graves de fome hoje são causados pelas mãos de algum homem ou por ‘uma decisão do poder’”. 

Em pauta, políticas para habitação e lutas feministas

Martín Caparrós será entrevistado pelo editor Paulo Werneck, a partir das 17h deste sábado, 21. Na pauta, os desafios para elaborar reportagens de fôlego. Será o segundo encontro do Festival Serrote, organizado pela revista de ensaios do Instituto Moreira Salles. O evento começa às 15h, com a socióloga Angela Alonso conversando com o jornalista Bernardo Mello Franco sobre a tarefa de registrar e interpretar a política brasileira (mediação do jornalista Conrado Corsalette).

No domingo, 22, às 15h, o arquiteto Francesco Perrotta-Bosch discute com a urbanista Raquel Rolnik políticas para habitação e as contradições das metrópoles brasileiras - mediação do jornalista Leão Serva. Às 17h, a peruana Gabriela Wiener conversa com a jornalista Fernanda Mena sobre temas como sexo, maternidade e lutas feministas. E, às 19h, o ensaísta americano Phillip Lopate fala sobre sua obra com o editor Flávio Moura.

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