Snigdha Kumar
Snigdha Kumar

Escritor Amitava Kumar narra experiência de imigração e descoberta do amor

‘Os Amantes’ é uma incursão no passado de um autor indiano que chega aos Estados Unidos para estudar, e ali descobre os caminhos do desejo e os percalços da imigração; ‘Não há nada como a loucura do amor jovem’, diz escritor em entrevista

Entrevista com

Amitava Kumar

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2019 | 03h00

Quando Kailash – o personagem principal de Os Amantes – chega a Nova York, vindo da Índia, se imagina num tribunal “para indivíduos acusados de agir sob pretextos falsos ou de cometer atos indecentes”. O primeiro deles é a imigração, mas não menos importante é o segundo: querer explorar o próprio desejo. “Você olha para um imigrante de pele escura naquela longa fila do JFK, as roupas novas amassadas pelo longo voo, aquele odor maturado que o acompanha, os olhos assombrados, e você se pergunta se ele sabe ou não falar inglês. (...) Você olha para ele e pensa que ele quer seu emprego e não que quer, simplesmente, trepar.”

Kailash é uma espécie de alter ego de Amitava Kumar, autor desse e de outros diversos livros, professor universitário na Vassar College, em Nova York, e colaborador do The New York Times, The New Yorker, Granta e outros. Esse é seu primeiro livro publicado no Brasil.

Na entrevista a seguir, por e-mail, o autor discute os temas da obra, um “trabalho de ficção, bem como de não ficção”, segundo a definição do próprio.

A imigração é o tema principal do livro, mas também se poderia dizer o mesmo sobre amor. Ehsaan Ali é talvez a pessoa mais citada no livro. É um personagem ficcional, mas você conheceu o professor Eqbal Ahmad (no qual o personagem é inspirado)?

Eu pensei nesse livro como o meu Livro do Amor. E o que significa ser imigrante nesse novo país chamado desejo. Há amor pelas mulheres que meu narrador, Kailash, encontra. Ou o que ele pensa ser amor. E há também o amor por seus pais e pela casa que ele deixou. Mas o amor que parece mais intencional, mais pronunciado, é pelo seu mentor. Nunca conheci Eqbal Ahmad, mas ele era uma lenda nos círculos pós-coloniais. Pessoas como Edward Said dedicaram livros a ele; Noam Chomsky e Howard Zinn eram seus amigos. Sempre me interessei por uma figura como essa, não menos como escritor. Também tenho mentores secretos, como John Berger, Susan Sontag, Philip Roth, Michael Ondaatje. 

A outra coisa é um tipo de amor pelos Estados Unidos. Como é amar esse país?

Amor é sempre complicado. Amo a vastidão dessa terra, sua beleza, oportunidades que me deu. Tenho um relacionamento diferente com seu poder, sua política, seu presidente.

Você era um adulto jovem nas experiências que descreve (no início dos anos 1990). Mas o livro é recente. O interesse por amor desvanece com o tempo?

O amor nunca desaparece com a idade, ele muda de natureza. Isso é tudo. Conforme eu envelheci, descobri que o amor muda. Amo meus filhos com uma fúria que causa ciúmes na minha esposa. Para falar a verdade, quis escrever Os Amantes, um livro sobre amor, porque do meu lugar na meia idade queria relembrar o que significava para mim estar apaixonado daquele jeito. Não há nada como a loucura do amor jovem.

Uma resenha (positiva) do livro aponta a “inabilidade do narrador em dizer as coisas diretamente, conforme ele falha em articular seus desejos, ou entender os dos outros”. Você acredita que isso pode ser o resultado da experiência da imigração?

Acredito que migração sempre significa olhar com novos olhos, e lutar para encontrar um novo entendimento. Essa luta pode envolver aprender uma nova língua. Sinto que meu narrador estava tropeçando em direção à consciência. Seus cálculos imperfeitos frequentemente o deixavam bloqueado no silêncio.

Edward Said, citado no livro: “o exílio é estranhamente atraente enquanto reflexão, mas terrível como experiência”. No fundo, exílio e imigração são o mesmo?

Exílio é uma experiência de migração forçada. A imigração pode ter causas mais benignas, menos coercivas. As experiências podem se sobrepor, mas não são idênticas.

Quando você viveu essas experiências, o muro de Donald Trump era algo que existia apenas nos sonhos loucos dele, talvez, mas mesmo antes dessa ideia os Estados Unidos constantemente elevaram barreiras para imigrantes, certo?

Os Estados Unidos sempre fizeram leis proibindo imigração de países asiáticos. Já em 1882, havia o Chinese Exclusion Act. Depois, o Immigration Act de 1924 introduziu cotas para estrangeiros, e a cota para imigração da Ásia era zero. O banimento de muçulmanos de Trump é novo, mas também existe uma história de exclusão nesse país.

Você vive aí por um par de décadas agora. Como o racismo xenófobo fica pior sob a administração Trump? Ou não fica?

Um insulto berrado no estacionamento, uma garrafa arremessada na rua por alguém em um carro passando. Ou atos mais ordinários, mesmo sutis. Acontecem o tempo todo. Mas quando Trump assumiu, isso me levou de volta para os dias pós ataques de 11 de setembro. Me senti exposto e vulnerável.

Como essas políticas influenciam o trabalho de um escritor?

Essa é a questão imortal para mim. Como pessoas viventes, respirando e pensando, sempre estamos nadando na história. Na política. As notícias nos cercam. Como escrever sobre isso? É o mesmo que perguntar, que nova forma pode dar expressão para o mundo político que habito, ou quero habitar, e, ao mesmo tempo, ser uma forma própria? No meu romance, usei recortes e notas de rodapé para dar um sentimento do mundo real invadindo a vida dos meus personagens.

No livro você conta como Ehsaan chega em Londres e vai direto a Baker Street (o endereço de Sherlock Holmes) e para o túmulo de Karl Marx. Você teve uma experiência assim em NY?

Fui a um parque em Nova York. Ali, havia um jardim de esculturas com trabalhos de diferentes imigrantes. Uma citação era de um italiano, trabalhador, do início do século 20 dizia: “Me disseram que as ruas aqui eram pavimentadas com ouro, mas então vim e descobri que não apenas as ruas não eram pavimentadas com ouro, elas não eram nem mesmo asfaltadas, e eu seria a pessoa a pavimentá-las”. Essa foi a minha experiência.

OS AMANTES

Autor: Amitava Kumar

Tradutor: Odorico Leal

Editora: Todavia (280 páginas, R$ 64,90, R$ 39,90 o digital)

TRECHO

“–Amanhã é sábado. A gente acorda tarde e come o que sobrou da comida.

– Por que você se esforça tanto para fingir? Você não tem que gostar do que não gosta.

Ao fazer aquela pergunta, será que era da minha vergonha que eu procurava me livrar? Mas vergonha do que exatamente? Ou será que só queria encontrar alguma falha no equilíbrio com que Nina se cobria nessas situações? Nina estava parada ao lado da porta, oferecendo seu melhor sorriso. E então o literal traduziu-se no metafórico: na expressão de seus olhos, vi uma porta se fechar. Quando me virei para sair, tive certeza de que ela não ia tolerar nem um minuto a mais dessa aspereza. Ao descer as escadas do prédio de Nina, o sabor da comida na minha boca virou cinza. Eu estava triste, sim, mas também senti uma espécie de alívio. Agora já não haveria nenhuma ocasião em que eu precisasse me perguntar se Nina estava sendo genuína. Se esse relacionamento tinha de acabar, e se era aceitável que essa frívola contenda fosse incorporada como a causa, eu estava agora para sempre livre de toda a culpa.”

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