Krista Schlueter/The New York Times
Krista Schlueter/The New York Times

Escritor agraciado com Pulitzer é acusado de abuso sexual

Diversos relatos de mulheres inseriram o premiado autor Junot Díaz no recém-deflagrado escândalo sexual envolvendo o meio literário

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2018 | 10h22

O escritor dominicano Junot Díaz, ganhador do prêmio Pulitzer de ficção em 2008, foi acusado nesta sexta-feira, 4, de abuso sexual, no mesmo dia em que a Academia Sueca decidiu não entregar o prêmio Nobel neste ano por escândalos sexuais no meio literário. Díaz, agraciado pelo romance A fantástica vida breve de Oscar Wao (2007), participava de uma roda de debate no Sydney Writers' Festival, na Austrália – evento anual que reúne escritores de todo o mundo -, quando foi colocado contra a parede por uma mulher da plateia, que o acusou publicamente de forçar um beijo, há seis anos.

A mulher que assistia ao painel também é escritora. Zinzi Clemmons, de 32 anos, autora de O Que Perdemos (Minotauro, 2018), se levantou do assento para questionar Díaz sobre um artigo publicado no site da revista americana New Yorker, no qual ele relata ter sido estuprado aos oito anos.

+++ Entenda: O escândalo sexual na Academia Sueca

Após a indagação, Clemmons emendou e perguntou por que o escritor também não admitiu publicamente  que tentou forçá-la brutalmente a beijá-lo quando ela era uma estudante da Universidade de Columbia, em Nova York. De acordo com o The Guardian, a pergunta causou incômodo a Díaz e logo o painel seria terminado pela moderadora do debate. Clemmons saiu furiosa do Seymour Centre, teatro da Universidade de Sidney, e logo depois foi ao Twitter se manifestar sobre o caso.

Ela contou na rede social que convidou Díaz a se apresentar em um workshop de literatura em sua faculdade. “Eu era uma desconhecida de 26 anos. Ele usou aquela situação como oportunidade para me encurralar e, forçadamente, me beijar. Eu estou longe de ser a primeira pessoa que ele fez isso. Recuso ficar em silêncio”, escreveu Clemmons. Em outro tuíte, a escritora diz ter e-mails de Díaz a perseguindo, após o ocorrido.

De acordo com a organização do Sydney Writers' Festival, Junot Díaz deixou a programação do evento após as acusações da escritora. Ele teria uma palestra na segunda-feira.

Outras acusações

Depois da revelação de Zinzi Clemmons, outras mulheres do meio literário se manifestaram e contaram suas histórias como complemento ao relato de Clemmons. A jornalista e também escritora Alisa Valdes contou em seu blog que conheceu Junot Díaz quando era repórter do Boston Globe e estava escrevendo o primeiro livro de sua carreira: The Dirty Girls Social Club (2003). Ela conta um caso que teve com o escritor e situações de abuso, machismo e misoginia por parte do dominicano.

Com a hashtag do movimento #MeToo, onde mulheres divulgam relatos de abuso, violência e machismo, outra escritora resolveu publicar comentários acerca de Junot Díaz. No Twitter e no Facebook, Monica Byrne relatou que um mês antes de publicar seu primeiro livro What Every Girl Should Know​ (2014) teve um encontro com outros escritores em um jantar. Um deles era Junot Díaz. Segundo ela, em uma pequena discordância de ideias, o dominicano teria surtado e gritado de forma efusiva a palavra "estupro" em sua frente. Uma semana anterior ela havia sido abusada sexualmente em viagem ao Caribe, em Belize.

Segundo o movimento de mulheres que vem acusando Junot Díaz, o autor dominicano teria publicado o artigo na New Yorker sobre o estupro na infância e os distúrbios que viriam depois para se eximir da culpa e uma eventual acusação de abuso. Algumas escritoras associaram a ação de Díaz com a revelação da opção sexual de Kevin Spacey, logo depois que foi deflagrado seu escândalo de abuso sexual.

Resposta

Em um comunicado divulgado pelo agente do escritor, Junot Díaz diz que "assume a responsabilidade pelo seu passado". "Esse é o motivo de eu tomar a decisão para contar a verdade do esturpo que sofri e dos danos que isso causou depois. Essa discussão é importante e deve continuar. Estou ouvindo as histórias das mulheres e aprendendo nesse essencial momento de mudança no movimento cultural. Temos que ensinar todos homens sobre consentimento e limites", disse Díaz. 

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