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Escrita caudalosa de ‘Paradiso’ ganha duas versões caprichadas

Imbróglio judicial fez duas editoras (e tradutoras) enfrentarem o desafio de traduzir o cubano José Lezama Lima

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 03h00

A obra do escritor cubano José Lezama Lima (1910-1976) tem ficado à margem do debate literário brasileiro ao longo dos últimos anos. Responsável por um dos principais ensaios poéticos de interpretação do continente – A Expressão Americana (1957) – e por um romance cujo impacto estético é comparável ao de seus contemporâneos Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, e Cem Anos de Solidão, de García Márquez (1967), Lezama tem agora retraduzido no Brasil o seu Paradiso (1966). É seu livro máximo, espécie de romance de formação poética de José Cemí, que passa pela descoberta da poesia e da linguagem, a morte do pai, o domínio do universo materno, a escritura e a maturidade; uma obra na qual a linguagem e as imagens poéticas ocupam lugar central.

Tanto Paradiso quanto A Expressão Americana têm traduções – esgotadas – publicadas nos 80, pela Brasiliense. Em catálogo, atualmente, o Brasil dispõe apenas de Fugados, bem cuidada edição de contos do autor pela Iluminuras, com apresentação de Haroldo de Campos. Infelizmente, nos últimos anos, Lezama não tem sido autor corrente no mercado editorial brasileiro. Nos meios jornalísticos, o caso é parecido. Em se tratando de Cuba, o debate literário predominante é aquele em relação ao governo de Fidel. Ao longo dos anos, foi-se formando um cânone de autores que orbitam em torno à figura de Castro. Ensaiar esta lista não é sem interesse: Guillermo Cabrera Infante (Três Tristes Tigres, 1964); Jorge Edwards (Persona Non Grata, 1973), Guillermo Rosales (A Casa dos Náufragos, 1987); Reinaldo Arenas (Antes que Anoiteça, 1992), Roberto Ampuero (Nossos Anos Verde Oliva, 1999); Pedro Juan Gutiérrez (Trilogia Suja de Havana, 1999) e Yoani Sanchez (De Cuba, Com Carinho, 2009) compõem este rol. Dificilmente tais autores estariam juntos em qualquer catálogo por afinidades estéticas ou literárias, mas o tema comum os une: variações em torno ao tema da vida social e psíquica sob a égide de Castro.

O compreensível interesse pela vida na Ilha terminou por ofuscar, no âmbito brasileiro, a obra de autores como Lezama, cuja política contemporânea não era o centro dos interesses. Alejo Carpentier (1904-1980), Virgilio Piñera (1912-1979) e Severo Sarduy (1937-1993) passam, entre nós, por silenciamento parecido. Felizmente, no caso de Lezama, o silêncio se rompe de forma retumbante, com um prosaico acontecimento judicial: a publicação de duas novas traduções do romance Paradiso. Os direitos “exclusivos” de publicação foram negociados pelas paulistanas Martins Fontes e Estação Liberdade, respectivamente – e de modo independente – com a família de Lezama e com a Agencia Literaria Latinoamericana, órgão estatal que negocia direitos de autores cubanos no estrangeiro. 

A Estação Liberdade encomendou da poeta Josely Vianna Baptista a tarefa de traduzir o clássico de Lezama. Josely, que já traduzira o próprio Paradiso, contrariamente ao que se poderia supor, não revisou sua tradução. Foi radical, abandonou-a: “Deixei totalmente de lado a tradução de 1987 e aventurei-me novamente à selva selvaggia do Paradiso, mas agora com a experiência de mais de 50 obras traduzidas (várias do próprio Lezama) e com a bagagem de duas viagens de prospecção a Cuba de Lezama e a suas eras imaginárias”. 

Já a Martins Fontes escalou a experimentada poeta Olga Savary; responsável ao longo das últimas décadas, por versões brasileiras de García Lorca, Pablo Neruda e Octavio Paz, entre muitos outros. Paraense estabelecida no Rio, Savary faz parte da tradição de tradutores autodidatas e tem sido, ao longo das décadas, importante difusora das letras hispânicas no País.

O leitor saiu ganhando. As duas editoras acertaram ao escolher tradutoras experientes e que são também poetas. Enfrentar a escrita caudalosa de Lezama – que já foi qualificada pela crítica brasileira Chiampi como “texto ilegível” – é tarefa para quem pode reconhecer a importância da dimensão do significante e a eloquência de imagens poéticas e metáforas muitas vezes incompreensíveis. O desafio, enfim, é o de traduzir a obscura proliferação de Lezama e recriar-lhe a beleza e o enigma em português. Ambas as tradutoras saíram vitoriosas, em textos fluidos e não poluídos com constelações de notas de rodapés ou glossários. Elas optam, muitas vezes, por legar ao leitor a dúvida. Um trecho do romance indica uma boa aproximação ao métier de Lezama: “Terminou o Coronel rindo, como se tivesse se abandonado mais à exaltação verbal do que à sua veracidade”. 

No primeiro capítulo, surgem o cozinheiro Izquierdo e seu patrão, o Coronel. Num espaço de poucas páginas, encontramos as seguintes imagens associadas a eles, que contam a demissão do mulato pelo Coronel (tradução de Baptista): “Aproximava-se o Coronel (...) com o mesmo gesto da burguesia situada num cancã pintado por Seurat” (p. 59); “O melão debaixo do braço era um dos símbolos mais explosivos de um de seus dias redondos e plenos” (p. 59); “Izquierdo, hierático como um vendedor de caçarolas no Irã” (p. 60); “todo seu rosto metamorfoseado em gárgula começava a soltar lágrimas pelas orelhas, pela boca, escorrendo pelas narinas como um filete esquecido” (p. 60).

Em Lezama, a imagem pode ser metáfora, ou pode ser descrição literal, tomando o lugar da realidade. Dito de outra forma, uma imagem pode ilustrar uma comparação ou pode realizar-se, criando o que o autor chama de sobrenatureza. Entrar no Paradiso é celebrar o reino da forma, uma experiência estética ímpar. Muita sutileza em tempos de se discutir política? Sim, e o nome disso é literatura. Aquela que finalmente os brasileiros são de novo convidados a conhecer.

WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR, TRADUTOR E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR

COMPARE AS VERSÕES

Original de Lezama:

"El hermano de la señora Rialta, que ya exigirá, de acuerdo con su peculiar modo, penetrar en la novela, decía de él, zumbando las zetas: Es como la cerveza que quitándole el tapón se le va la fortaleza."

Tradução de Olga Savary:

“O irmão da senhora Rialta, que agora exigia, como lhe é peculiar, participar do romance, dizia dele, zumbindo os zês: É como a cerveja que, tirando-lhe a tampa, zarpa sua fortaleza.”

Tradução de Josely Baptista Vianna:


"O irmão de dona Rialta, que já irá exigir, à sua peculiar maneira, penetrar no romance, dizia dele, zumbindo os zês: É como a cerveza que sem a tampa, perde a fortaleza." 

PARADISO

Autor: José Lezama Lima

Tradutora: Josely Vianna Baptista

Editora: Estação Liberdade (616 págs., R$ 74)

PARADISO

Autor: José Lezama Lima

Tradutora: Olga Savary

Editora: Martins Fontes (624 págs., R$ 74,90)

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