arquivo pessoal
O jovem Giuseppe Frateschi, de 24 anos, que alivia o estresse através da escrita arquivo pessoal

Escrever sobre sentimentos pode ser terapêutico e ajudar a lidar com o luto

Museu da Língua Portuguesa promove projeto online que incentiva escrita sobre emoções na pandemia do coronavírus

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que também se dedicou às ciências naturais, dizia: “Escrever a história é um modo de nos livrarmos do passado”. Para muitas pessoas, a escrita pode ser terapêutica. É assim que se sente Giuseppe Frateschi, de 24 anos. “Escrever pode ser libertador de várias formas. No meu caso, comecei a escrever meus diários em 2013, quando tinha 17 anos, e de início, não era sincero comigo mesmo, algo que apenas o tempo e a leitura destes mesmos diários revelou. É curioso, mas a falta de sinceridade só ficou evidente quando reli o que tinha colocado no papel e percebi que não condizia com a realidade. Depois de refletir a esse respeito, pude escrever sobre meus sentimentos de maneira mais honesta. Aliás, escrever um diário, não se trata apenas de falar sobre sentimentos, mas sobre desenvolver pensamentos que, apesar de parecerem aleatórios, registram um pouco de nossas reflexões e opiniões sobre cultura, ética e visão de mundo, por exemplo. Hoje tenho 24 anos, e fazer um retrospecto sobre tudo o que escrevi no passado, me ajuda muito”, declara.

Quando sentimos alguma emoção, mas não conseguimos dar nome à ela, nos sentimos angustiados ou ansiosos. Nomear sentimentos é importante para nos ajudar a diminuir o sofrimento. A fala e a escrita podem ser bons mecanismos. “Ao escrever, sem censura e sem preocupação com as normas gramaticais ou ortográficas, damos vazão aos nossos pensamentos, impressões, preconceitos, valores, medos, que muitas vezes nem nós mesmos conhecíamos, sem a preocupação de sermos julgados. Esse movimento nos ajuda a organizar nosso mundo interno. É por meio da escrita que melhor conversamos conosco mesmos. Ao escrever, registramos as ideias e dessa forma as externalizamos de uma forma concreta, quase palpável”, analisa a neuropsicóloga Gisele Calia. 

O Museu da Língua Portuguesa lançou na segunda-feira, 13, o projeto virtual A Palavra no Agora. O objetivo é estimular ajudar as pessoas a lidar com sentimentos decorrentes da pandemia a partir de exercícios de escrita. Disponível gratuitamente online, o site propõe que os internautas escrevam sobre suas vidas antes da quarentena e a respeito dos próprios sentimentos atuais. O trabalho é realizado com o apoio das professoras Maria Helena Franco, do Laboratório de Estudos do Luto – LeLu, da PUC-SP, Ivânia Jann Lun, do Laboratório de Processos Psicossociais e Clínicos no Luto - LAPPSIlu, da Universidade Federal de Santa Catarina, Fabio de Paula, da Faculdade Cásper Líbero, Mariana Valente, da InternetLab, e da psicóloga Fabíola Mancilha Junqueira, arteterapeuta.

O que dizer (ou não) para uma pessoa que enfrenta o luto?

O programa surgiu da constatação dos múltiplos prejuízos causados pelo coronavírus: isolamento social e os traumas causados pela perda de pessoas queridas, além da impossibilidade de realização dos rituais tradicionais de luto. “Vivemos um momento de perdas físicas e simbólicas. A incerteza, a morte, o adiamento de planos, a doença, o isolamento, a crise econômica, a distância – tudo isso tem um impacto enorme na vida de todos os brasileiros. Na ausência do acolhimento físico, do contato, o que nos une hoje são as palavras - ditas e escritas”, explica Marília Bonas, diretora técnica do IDBrasil, organização social de cultura que gerencia o Museu da Língua Portuguesa.

E foi justamente em um momento de luto, com a morte da mãe há dez anos, que Giuseppe Frateschi começou a colocar suas emoções no papel. “Na época, vivia coisas muito conflitantes, carregava o luto por minha mãe, falecida em 2009, vítima de câncer, me sentia muito sozinho e não me sentia bem em falar sobre a minha vida amorosa. Poucas vezes me senti bem para falar abertamente sobre o assunto. É estranho dizer, mas no início só conseguia falar sobre esses e outros assuntos comigo mesmo, por meio das páginas de meus diários. Aos poucos me sentia bem para mostrar certas páginas a alguns amigos, e assim, derrubar barreiras e derrotar medos”, afirma.

A neuropsicóloga Gisele Calia ressalta que escrever é um dos atos mais complexos para o cérebro, mas registrar os próprios sentimentos em palavras é ainda mais desafiador, na medida em que a pessoa precisa identificar, simbolizar, significar, rejeitar, aceitar e transformar um pensamento. “Diferentemente de simplesmente copiar uma palavra qualquer, exprimir nossos sentimentos por meio da palavra escrita, exige o uso do córtex frontal, nossa parte do cérebro responsável pelo pensamento abstrato. Aí reside a beleza e a magia de escrever sobre os sentimentos: colocamos em uma forma concreta – a palavra escrita – a parcela mais abstrata de nosso ser, o sentimento”, conclui.

Depois de perceber perceber o quão positivo foram os benefícios de escrever um diário, Giuseppe começou a recomendar aos amigos que escrevam sobre o que sentem. “Contudo, acho importante recomendar para quem escreve ou deseja iniciar um diário que não permita que outras pessoas decidam o que deve escrever ou não. Para mim, escrever é um processo natural e o ponto de partida pode ser qualquer coisa: um pensamento, um sentimento bom ou mau e até uma lembrança”, diz.

Como falar sobre a morte com crianças e adolescentes?

Museu da Língua Portuguesa segue fechado em meio à pandemia

Enquanto está fechado por causa da pandemia do novo coronavírus, o Museu da Língua Portuguesa segue com o projeto virtual A Palavra no Agora. Os exercícios de escrita podem ser feitos por qualquer pessoa, mesmo quem nunca escreveu. São roteiros com perguntas simples, que servem como referência para fazer pensar sobre esse momento. Quem desejar, pode enviar seu texto para compartilhamento no site, para fazer uma homenagem ou para ajudar as outras pessoas.

Para estimular e inspirar o público, o projeto também disponibiliza trechos de obras literárias que falam sobre o sentimento de perda, além de resenhas de livros e filmes que de alguma maneira abordem o assunto. São áreas abertas para a contribuição de escritores, editoras e do público. O site também disponibiliza informações sobre serviços de apoio para pessoas que estão tendo dificuldades para lidar com o momento da pandemia. 

O Museu da Língua Portuguesa, um dos primeiros do mundo totalmente dedicado a um idioma, está em processo de reconstrução. O local é uma iniciativa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, em parceria com a Fundação Roberto Marinho. 

 

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Ferreira Gullar lança biografia que trava diálogo emocional

A poesia persegue Ferreira Gullar e não o contrário. “Posso passar anos sem criar um verso, pois necessito do espanto que ela me provoca para então escrever”, conta o poeta, que completa 85 anos no dia 10. A criação literária é apenas um dos temas tratados em Autobiografia Poética e Outros Ensaios (Autêntica), que Gullar lança nesta quarta-feira, 2, à noite, na Livraria Travessa do Shopping Leblon, no Rio.</p>

Entrevista com

Ferreira Gullar

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2015 | 03h00

O livro reúne entrevistas, artigos e um ensaio inédito. Nele, descobre-se que Gullar também é cronista, crítico, pintor, mas são meros ofícios para garantir a sobrevivência – é na criação de poemas que Gullar se sente realmente um homem livre. Basta observar sua obra mais conhecida e divulgada, Poema Sujo. Considerada por muitos como uma das principais realizações poéticas do século passado, foi escrita em 1975, quando o poeta ainda vivia forçosamente exilado em Buenos Aires. Uma rápida leitura e a constatação de que o poema é um doloroso canto em favor da liberdade. 

Jamais imaginei que me tornaria um poeta. Eu era um moleque de rua. Vivia jogando pelada, em São Luís, na rua. Jamais pensei porque na minha casa ninguém era poeta nem tinha livro de poesia. Acredito que as pessoas nascem com determinadas qualidades. O cara nasce com a tendência de ser um bom administrador. Assim como outro nasce jogador de futebol, pois traz internamente algumas qualidades que o tornam isso. Há também quem tenha tendência para ser ladrão, independentemente de ser rico ou pobre – a Operação Lava Jato não me deixa mentir.

Não. A poesia é algo incontrolável. Se alguém vive de poesia, ou morre de fome ou começa a escrever bobagens porque não é fácil assim. A poesia, como vejo, nasce do espanto, de alguma coisa que surpreende e que você tem necessidade de comunicar aos outros. É uma experiência de vida especial, não acontece todo dia. Isso é o que move o poeta a escrever. Sem isso, é possível até manusear bem as palavras, mas o poema fica vazio. É meu caso. Outro dia, disseram que eu garanti que não mais escreveria poesia. Nunca fiz isso. Algumas vezes, a poesia se arrancou, se negou a comparecer e fiquei perplexo, mas reconheci que parecia que não mais escreveria. Publiquei meu último livro há vários anos (Em Alguma Parte Alguma, de 2010), o que me deu a impressão de que não vou escrever mais. Claro que não é bom. Não é escolha minha. Mas as coisas não são eternas e, como isso não se controla, não digo que farei de qualquer jeito, ou que não vou fazer. Só constato que faz tempo que não faço.

Acredito que, se me comovo, outros também vão se comover. Passo no poema a emoção que tive. Às vezes, a situação é mais complicada e o poema saía menos acessível, dependendo do motivo que me levou a escrever. Minha preocupação é chegar a dizer aquilo que foi novo na vida, que experimentei ali, e encontrar a melhor maneira de expressar. O acaso é decisivo não só na vida pessoal, mas também na arte. Quando vou escrever um poema, a folha surge em branco, ainda não sei o que vai surgir ali. Qualquer coisa pode acontecer, a probabilidade é total porque a página está em branco. Quando coloco a primeira palavra, reduz a probabilidade, agora já não é o acaso. Quando se escreve o primeiro, o segundo verso, aí o poema vai deixando de ser fruto da probabilidade e do acaso e vai se tornando necessário. Ele próprio começa a determinar o que entra ali ou não. Você não sabe o que vai resultar daquilo. É um jogo entre acaso e necessidade. Cada poeta tem seu modo de se expressar. Com isso, aumenta a segurança de se expressar. E, com a experiência, é possível se tornar mais capaz de expressar o que se deseja.

Há quem acredite que os poetas sofrem muito para escrever. Não é verdade – no momento da escrita, surge uma felicidade. Escrever é uma alquimia, pois transformo sofrimento em alegria, em beleza, em emoção que o outro vai sentir. No Poema Sujo, eu realmente vivia um impasse, pois não sabia o que ia acontecer comigo. Eu já tinha saído da ditadura chilena e, na Argentina, preparavam outro golpe. Não tinha para onde ir porque em volta só havia ditaduras e, como meu passaporte estava vencido, não conseguia ir para a Europa. Tentei renovar na embaixada brasileira, mas me foi negado e ainda cancelaram o que eu tinha. Então, escrevi o Poema Sujo como se fosse a última coisa da minha vida, daí essa relação de emoções: eu estava no limite. Isso ninguém inventa. Eu preferia não ter vivido daquela forma, mas a vida é incontrolável. A situação era insuportável, mas o fato de eu ser capaz de expressar aquele impasse me ajudava. O pior é aquele que não consegue se expressar.

Não releio, mas essa Autobiografia Poética foi o caminho que encontrei para voltar àqueles momentos, desde quando publiquei A Luta Corporal, em 1954, quando descobri a poesia moderna, até Poema Sujo e outros poemas. Eu queria reviver aqueles momentos sem o sofrimento daquela época, sem um general na esquina para me fuzilar.

Acho que emociona. Claudia (Ahimsa, sua companheira, que conheceu em 1994) soube que foi criada uma banda de rock chamada Poema Sujo. Isso é legal, pois expressa a vida e beleza dentro do sofrimento. Cada qual tem suas perdas. Então, quando a pessoa se defronta com um poema que a comove é como se ela estivesse vivendo isso. É o melhor da literatura: compartilhar com o autor o sofrimento, mas de forma sensorial. É a tal alquimia: transformar sofrimento em alegria estética.

Nasceu de imediato, praticamente junto com o poema. Às vezes, escrevo um poema e não sei o título. No caso do Poema Sujo, eu não só tinha o título como sabia que teria de 70 a 100 páginas. Escolhi esse título porque sabia que ia falar de assuntos sofridos, de pobreza, que foi minha experiência de vida. Ele é sujo ao mesmo tempo que é poesia e tenta superar o sujo da vida, trazendo impregnada essa experiência. Eu não aceitava estar longe do Brasil, havia pessoas dispostas a passar anos na Europa, mas não era o meu caso – eu queria voltar a todo custo. Assim que pude, voltei, mesmo correndo riscos. Aí entra o Poema Sujo, que foi trazido ao Brasil pelo Vinicius de Moraes. A publicação me deu uma notoriedade que, praticamente, impedia qualquer ação dos militares contra mim. Quando cheguei ao aeroporto do Rio, havia uma ordem de prisão para José de Ribamar Ferreira, mas havia uma multidão me esperando e não puderam fazer nada. Ou melhor: me prenderam no dia seguinte, mas logo fui solto.

Como a poesia ocupa hoje a vida das pessoas?

AUTOBIOGRAFIA POÉTICA E OUTROS TEXTOS. Autor: Ferreira Gullar Editora: Autêntica (160 págs., R$ 44,90) 

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Escrever se torna recurso para manter o equilíbrio na quarentena

O texto a seguir foi pinçado do Diário do Isolamento, que está sendo escrito pela professora Cynthia Rachel Esperança, 36 anos

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

“13/4 – Dia de terror! Mercado, hortifrúti, farmácia... aglomeração. As pessoas não estão levando o vírus à sério. Enfim, hoje eu saí de máscara. Tá difícil encarar as ruas sem proteção. Mas, o pior de tudo é a volta das compras. Eu queria ter uma máquina de lavar compras. Só isso. É uma maratona de higienização que cansa... muito. Ah, hoje faz um mês que a quarentena começou. Falta um mês para o meu aniversário.”

O texto aí de cima foi pinçado do Diário do Isolamento, que está sendo escrito pela professora Cynthia Rachel Esperança, 36 anos. “É relatar para não surtar. Estamos vivendo um período em que não podemos fazer as coisas simples da vida. Se alguém tosse do meu lado, tenho vontade de chorar. Tudo isso é um impulso para escrever. Tento transformar fatos dolorosos e tristes em algo engraçado”, disse. 

Assim como Cynthia, muitas pessoas voltaram a escrever diários durante a pandemia da covid-19. Em alguns casos, trata-se do velho e simpático caderno de anotações, escrito à mão, resistindo ao lado da cama ou escondido dentro de gavetas. Mas, na maioria das vezes, os diários da quarentena estão disponíveis para o julgamento público, em páginas de Facebook, Instagram e outras redes sociais.

A doutora em escrita criativa e escritora Julie Fank aponta que em épocas de crise ou guerras as pessoas costumam recorrer aos diários – como uma tentativa de deixar uma marca. “Vem da necessidade de se inscrever no mundo, um marco de individualidade e, ao mesmo tempo, de pertencimento à sociedade. As pessoas usam uma moldura artística na própria vida com medo de colapsarem psicologicamente”, afirma.

Julie também explica as diferenças entre os diários do passado e aqueles forjados agora, em meio à pandemia: “Os diários tinham um caráter testamentário. Era algo que, imaginava-se, só seria lido depois da morte do autor. Hoje, ao contrário, os diários são escritos para reafirmar a vida”.

Miriane Peregrino, 39 anos, é coordenadora do projeto Literatura Comunica!, que atua no incentivo à leitura e na difusão de obras literárias na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro. No início do ano, com a pandemia, o jornal literário produzido pelo coletivo abriu espaço para o chamado Diários da Emergência Covid-19. “Escrever e produzir tem a ver com saúde mental, com nosso estado emocional. Criamos uma comunidade afetiva em torno dessa experiência de escrever um diário”, conta.

Um dos participantes do Diários da Emergência Covid-19 é o estudante Carlos Alberto dos Santos Gonçalves, 29 anos. “O meu diário fala das minhas experiências no conjunto de favelas da Maré. Por exemplo, conto do meu aniversário que comemorei por zoom (aplicativo); sobre o pastor da igreja perto de casa que pedia para as pessoas não ficarem em casa; histórias de moradores que estão cortando o cabelo na calçada, de máscara.”

A própria Miriane, que está fazendo pós-doutorado na Alemanha, também mantém um diário. Nele, descreve suas experiências em um país estrangeiro em meio ao isolamento: “19 de março de 2020 – A chanceler alemã Angela Merkel acabou de falar que o coronavírus é o maior desafio do país desde a Segunda Guerra Mundial. Eu penso que é uma Terceira Guerra, com um inimigo comum atacando o mundo todo. Acho que o meu ‘plot twist’ com o coronavírus rolou quando vi uma placa de ‘proibido apertar as mãos’ na mesa de um banco, no último dia 6. ‘Wir begrüssen Sie mit Herz – nicht mit der Hand’ fui digitando no celular para procurar a tradução na internet”.

Ordem no caos. Uma das justificativas recorrentes de quem se entregou ao exercício de escrever um diário é o de colocar ordem no caos. “É uma tentativa de construir um significado neste contexto, estabelecer uma certa rotina e não se perder em uma bad vibe”, disse a professora Mariana Duccini, 40 anos. Mariana, que tem um diário à moda antiga, um caderninho vermelho, afirma que não se impõe regras para a escrita. “Não tenho pretensões, vou no ritmo das minhas necessidades subjetivas”, completou.

Sentimento parecido move o VJ Spetto, 45 anos. Ele começou o seu diário no Facebook para “marcar os dias da quarentena”. “Nasceu da necessidade de marcar uma rotina, ordenar os dias. Como eles (os dias) são muito parecidos, às vezes fica difícil arrumar assunto”, conta. “O curioso é que muita gente se identifica com reflexões totalmente pessoais”, disse.

Identificação também é o que tem provocado o diário de Ricardo Gaspar, dono de uma agência de cicloturismo. “Tive coronavírus, fiquei em casa 14 dias, mas tento tirar situações engraçadas da minha rotina na pandemia. Meu diário é baseado no filme A Vida é Bela, em que o personagem tenta passar por todo aquele horror da melhor maneira possível.” 

Os diários da quarentena nem sempre são exatamente diários. O dramaturgo e escritor Mario Bortolotto, 57 anos, tem se dedicado, entre outras coisas, a uma espécie de álbum de recordações. Em seu Instagram, ele tem postado fotos de um passado recente, brindando com amigos, em mesas de bar. “Tem sobrado bastante tempo para escrever. Estou escrevendo um romance sobre solidão, uma peça de teatro... Acho que nesse momento as pessoas estão reavaliando, lembrando tudo o que já aconteceu com elas. Claro, lembrar das besteiras que fez nem sempre é bom”, observou.

Além de imagens, um diário pode ser menos descritivo e mais poético. É o caso do diário da poetisa e pedagoga Cláudia Vetter, 29 anos. “Meu diário aflorou da necessidade de dizer coisas que estavam engasgadas, uma forma de desafogar. Nossos pensamentos importam nesse momento”, disse. Em um dos poemas de seu diário, Cláudia diz: “É difícil se manter por inteiro quando a inconstância é a única certeza do momento”.

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