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Escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da Flip é recebida com revolta

Escritora americana manifestou apoio ao golpe militar de 1964 enquanto morava no Brasil, e escritores e leitores criticaram a decisão da Festa de Paraty; curadora Fernanda Diamant defende escolha

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2019 | 18h46
Atualizado 29 de novembro de 2019 | 10h30

A escolha de Elizabeth Bishop como autora homenageada da 18.ª Festa Literária Internacional de Paraty gerou revolta nas redes sociais, com escritores, leitores e críticos definindo a decisão como "insultuosa", "politicamente melancólica" e "lamentável". Houve também manifestações a favor do nome da escritora americana.

O principal motivo das críticas foi o apoio, mesmo que lateral, de Bishop ao golpe militar de 1964, em abril daquele ano. Em cartas ao colega Robert Lowell, Bishop — que vivia no Brasil há cerca de 10 anos na ocasião — disse que o evento "foi uma revolução rápida e bonita" e que "a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pareça".

Embora a política tenha pouco peso na produção estética de Bishop, que poderia ser o tema principal das discussões na Flip, as críticas nas redes sociais questionam o momento em que a organização da Festa escolheu para homenagear uma autora alinhada ao golpe militar no Brasil.

No Facebook, a escritora e acadêmica Luciana Hidalgo classificou a escolha de Bishop como "provinciana". "Dizem por aí que não se deve misturar a obra de um autor com a sua vida – et pour cause. Escritores têm mesmo todo direito de expressar livremente o que pensam. No entanto, por que um festival literário da importância da Flip no Brasil prestaria tributo a uma autora estrangeira capaz de dizer tantas bobagens elitistas, reacionárias e preconceituosas sobre nós, deixando assim de homenagear autores brasileiros de enorme relevância?", escreveu, em um longo texto onde dá exemplos retirados das cartas da poeta americana.

O olhar de Bishop sobre o Brasil, ressaltado pela organização da Flip como um dos motivos para a decisão, também foi criticado por quem não gostou da escolha.

O escritor Joca Reiners Terron sugeriu que a Festa poderia ter homenageado tanto Bishop quanto seu tradutor no Brasil, o poeta e professor Paulo Henriques Britto. "Quanto ao timing da escolha da direitosa, borracha e sapatona poeta, concordo com a grita: não poderia ser pior. Só que a esquerda também precisa se ligar que nem todo culturette pende pro mesmo lado: também tem artista de direita, assim como curador, diretor de festival etc", disse Terron no Twitter.

 


A escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho também criticou a Flip. "Não ponho em questão Bishop como poeta, nem ela pode deixar de ser lida por isso, era o que faltava — que isso fique muito claro. Mas escolhê-la como figura da maior festa literária do país justamente quando o Brasil mais precisa de afirmar a potência, a beleza, a liberdade dos seus criadores, logo quando os nostálgicos da ditadura, agora no poder, ameaçam a criação diariamente, parece-me o maior tiro no pé. Insultuoso mesmo", disse no Facebook.

Por outro lado, como vozes dissonantes no debate das redes sociais, apareceram a poeta Angélica Freitas e o cronista Antonio Prata.

"Amo a Bishop em toda a sua complexidade", escreveu Angélica Freitas. "Uma mulher desenraizada, lésbica, alcoólatra. Teve uma vida trágica. Apaixonou-se por uma brasileira e morou aqui (numa bolha de gente rica, que hoje apoiaria borsalino). Uma das maiores poetas do século XX. Uma das minhas poetas favoritas."

 


Prata contemporizou e disse que é preciso aceitar outras visões políticas. "Sim, E. Bishop elogiou o golpe de 64.   E Nelson Rodrigues tb. E Jorge Amado elogiava a União Soviética (como boa parte de nossos intelectuais). E Vinicius tem uma letra pedófila. Exijam alinhamento político e ideológico e pureza moral de artista e a arte acaba", escreveu no Twitter.

 


Bishop tem uma forte conexão com o Brasil. Em 1951 – ainda antes de ganhar o Prêmio Pulitzer em 1956 – ela aportou em Santos com a intenção de permanecer duas semanas, mas acabou se apaixonando pelo País e pela arquiteta Lota de Macedo Soares (1910-1967), e viveu aqui por 15 anos, entre o Rio e Petrópolis. O Brasil está presente em muitas de suas cartas, e também em uma parte da sua poesia.

Flip comenta a homenagem a Elizabeth Bishop

A curadora Fernanda Diamant respondeu a algumas perguntas do Estado, por e-mail, via assessoria de imprensa.

O anúncio de Bishop como homenageada da Flip 2020 teve uma forte reação nas redes sociais principalmente pelo apoio (mesmo que lateral) da escritora ao golpe militar de 1964. A Flip e a curadoria levaram isso em conta antes de selecionar a autora?

A Flip, em especial a curadoria, levou em conta os pontos sensíveis dessa escolha — o fato de Bishop ser estrangeira e ter feito elogios ao golpe de 64 em cartas enviadas a amigos na ocasião — e considerou que eles não seriam impeditivos, mas que certamente seriam alvo de críticas e reprovações. Decidimos enfrentar o desafio porque acreditamos que as contribuições da autora para a literatura, que incluem a divulgação internacional da literatura brasileira, têm a dimensão necessária para que ela seja homenageada. Ainda assim, sabemos que as outras questões precisam ser debatidas de forma crítica. O mesmo aconteceu com Euclides da Cunha.

Como é que a curadoria analisa a ligação de Bishop com a política? Porque pelo que entendo, a obra em si dela é pouco afeita às discussões políticas.

Há muito conteúdo social nos poemas dela, basta ler A cadela rosada ou O ladrão da Babilônia. A relação dela com a política era doméstica, eram comentários em cartas, no máximo algumas observações na introdução da antologia de poesia brasileira. Ela nunca se posicionou publicamente nem serviu ao governo.

Na opinião de vocês, a Flip pode/deve usar seus espaços (o da escolha de um homenageado/a, por exemplo) para se posicionar politicamente?

Tivemos e temos autoras e autores homenageados e convidados de diversos posicionamentos políticos. O importante, na minha opinião, é estimular o debate político, fazer leituras críticas de obras, resgatar autores e reunir as pessoas em torno da literatura. A Flip é a favor da liberdade de expressão, da cultura, da educação, da ciência e da diversidade, — isso é tomar posição política, especialmente no momento atual.

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