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‘Escala Richter’, de Leonardo Gandolfi, exemplifica o bom momento poético

Com linguagem ágil e saborosa, obra faz retrato surpreendente e hilário de um artista em crescimento

Sérgio Medeiros, Especial para O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2015 | 04h00

Ao longo deste ano, a poesia brasileira surpreendeu com ótimos títulos, contrariando assim, a meu ver, algumas apreciações pessimistas que vieram à tona em 2014, quando um prêmio foi negado a poetas nacionais sob a alegação de que faltavam bons títulos que o merecessem. Entre os jovens poetas que se destacaram em 2015, citarei, entre outros, Douglas Diegues, Fabio Weintraub, Júlia Studart e Ronald Polito. Mas, se tivesse de escolher um só livro para exemplificar o bom momento atual dessa poesia, não hesitaria em citar Escala Richter (68 páginas, 7Letras, RJ), de Leonardo Gandolfi, professor de literatura portuguesa na Universidade Federal de São Paulo.

Trata-se de uma coletânea que se lê de uma assentada, em razão da agilidade da sua linguagem, invariavelmente saborosa, com a qual o autor faz o retrato surpreendente e não poucas vezes hilário de um artista em crescimento, da infância à maturidade. Vários ícones da infância assombram a sua memória, como, na ordem em que aparecem no livro, os Trapalhões, o monstro do Lago Ness, Daroyhy, Totó, Wendy Darling... Antes que essas imagens comecem a povoar os versos, o poeta, sentado numa lanchonete qualquer, à espera da companheira, consome sem parar sachês de açúcar. A partir daí ele vai se sentindo mais pesado e mais sozinho, e a certa altura conclui: “quem engorda um quilo engorda dois”. Um símbolo nefasto é a barriga “nababesca” de um estranho que lhe vem ao encontro com seus dois filhos atléticos. O mal-estar cresce, até que ele desabafa, falando de si mesmo em terceira pessoa: “Você detesta fotos pela simples razão / de sempre parecer mais gordo do que realmente / acha que é”. 

A sensação do envelhecimento precoce que se pode vislumbrar nesses dois quilos a mais, ilusórios ou não, remetem, de modo paródico, ao famoso poema The Love Song of J. Alfred Prufrock (A canção de amor de J. Alfred Prufrock), de T.S. Eliot, no qual o poeta, na flor da idade, vai emagrecendo e definhando antes da hora. Não por acaso, uma das seções do livro de Leonardo Galdolfi se intitula A canção de amor de J. Pinto Fernandes. Mas é preciso esclarecer que o poeta que ganha peso continuamente não é J. Pinto Fernandes (que não é poeta), mas um certo Leonardo, como os últimos versos do livro o revelam. Num outro poema de Escala Richter, narra-se o encontro do poeta com uma graciosa dançarina, e no diálogo entre ambos a questão da comida e do peso vêm à tona, pois ela, que já dançou com Pina Bausch, despede-se assim: “tenho de ir, o feijão está no fogo.”

Na seção do livro chamada Piquenique, o poeta apresenta a tese de Samuel Butler segundo a qual Nausícaa, a mocinha que acolhe o náufrago Ulisses e lhe oferece casa e comida (perigosamente abundante, como se sabe), é na verdade o próprio Homero. Essa estranha tese ecoa, invertida, em outra seção do livro, intitulada Crocodilo, onde somos apresentados ao drama interno de Gancho, vilão que é o potencial almoço do monstro que o persegue incessantemente. A diferença entre o herói antigo e o vilão moderno reside talvez no tipo de prato que coube a cada um, em suas respectivas aventuras.

Entre Ulisses e Gancho, o poeta contemporâneo busca cumprir, na seção que encerra o livro, Sem título, 2012, seu próprio destino. Tendo devorado pouco antes um pacote de biscoito recheado, o poeta Leonardo agora se vê sozinho na rua com uma mala e, para concluir seu périplo, toma “um táxi cujo homem ao volante / deve ter lá os seus oitenta anos” e enxerga e ouve mal. É talvez o personagem mais fascinante do livro. O táxi gira como uma barata tonta pelas avenidas cariocas, levando o poeta pelo caminho errado, mas ele, nos últimos versos de Escala Richter, parece reencontrar o rumo. Da deriva carioca à profissão de fé paulistana, o jovem poeta com alguns quilos a mais cumpriu seu rito de iniciação, após devorar o banquete poético que lhe fora servido no início do século 21. Sob esse aspecto, os poemas finais do livro são a melhor reflexão que li ultimamente sobre a situação atual da poesia brasileira. 

ESCALA RICHTER. Autor: Leonardo Gandolfi. Editora: 7Letras (68 págs.; R$ 29)

* Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e ensaísta. Entre outros livros, publicou A Formiga-Leão e Outros Animais na Guerra do Paraguai (Iluminuras, 2015) 

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