Gracia Lam/The New York Times
Gracia Lam/The New York Times

Ensinamentos da filosofia sobre a morte podem ser a chave para os dias de hoje

Sabemos desde Aristóteles que o medo é a nossa reação a uma ameaça real no mundo

Simon Critchley, THE NEW YORK TIMES

15 de abril de 2020 | 05h00

Estamos aterrorizados. Incapazes de nos concentrar. Não conseguimos encontrar foco. Nossa mente gira e perambula de uma notícia atualizada para outra. Seguimos as notícias porque achamos que devemos e depois gostaríamos de não ter feito isso, porque tudo é apavorante e triste. Os cochilos de dia são involuntários e esporádicos. O sono à noite com frequência não vem. 

E, quando dormimos, às vezes acordamos com um pânico mortal, sintomas hipocondríacos que sentimos serem reais, mas sabemos que não são; e então nos sentimos egoisticamente estúpidos por nos sentirmos assim. Tomamos nossa temperatura. Esperamos. De novo. E assim por diante. A sensação de impotência e de tédio descamba para uma raiva frágil com o que está sendo feito e, sobretudo, o que não vem sendo feito ou vem sendo realizado de modo medíocre, irresponsável e desonesto.

A ideia de morrer sozinho por uma doença respiratória é horrível. Saber que isso é o que está ocorrendo com milhares de pessoas aqui e agora é insuportável. Vidas vêm sendo perdidas e os meios de subsistência, devastados. Metáforas de guerra parecem obsoletas e fraudulentas. A estruturas sociais, os hábitos e modos de vida que tínhamos como certos estão se dissolvendo. Outras pessoas são fontes possíveis de contágio, assim como nós. Caminhamos de máscaras e mantemos distância.

Cada um de nós está à deriva nos nossos próprios navios-fantasma. E está sinistramente silencioso aqui na cidade de Nova York. Memes cômicos circulam. Rimos por um momento, compartilhamos com nossos amigos e depois voltamos a ficar separados, os dentes ligeiramente cerrados. Depois de algumas semanas nesta nova situação, a febre inicial de comunicação e a novidade de longos papos ao telefone com amigos próximos ou distantes aos poucos se tornaram mais sombrias, mais taciturnas, mais graves. Sabemos que estamos nesta situação por um longo prazo. Mas não sabemos o que isso pode significar.

Como podemos, ou devemos, superar isso? Os filósofos têm um longo e torturado caso de amor com o distanciamento social, começando por Sócrates confinado em sua cela; René Descartes se retirou dos horrores da Guerra dos 30 Anos (da qual foi um participante) e se recolheu num quarto com um fogão na Holanda para ponderar sobre a natureza da certeza; outros como Boethius, Thomas More e Antonio Gramsci também fizeram parte dessa longa tradição de isolamento e reflexão.

Mas e quanto à filosofia em si? Há muito tempo, ela tem sido escarnecida por sua prática inútil, seu registro histórico de três mil anos não conseguindo resolver os problemas mais profundos da humanidade. Assim, pode ela nos ajudar neste momento imensamente difícil? Pode a filosofia oferecer alguma forma de iluminação, até consolo, nesta nova realidade devastada, marcada pela ansiedade, pela dor e pelo terrível espectro da morte?

Talvez isso: filosofar é aprender como morrer. Foi assim que Michel de Montaigne, ensaísta francês do século 16 – inventor do gênero ensaio, definiu, citando Cícero, ele próprio pensando em Sócrates condenado à morte. Montaigne diz que desenvolveu o hábito de ter a morte não apenas na sua imaginação, mas constantemente em sua boca – no alimento que ele comia e na bebida que tomava. 

Para aqueles de vocês que estão cozinhando e bebendo um pouco demais em seu isolamento isso pode soar mórbido. Mas não é. Montaigne conclui seu pensamento com uma frase surpreendente: “Ele que aprendeu como morrer desaprendeu como ser um escravo”. Essa é uma ideia assombrosa: a escravidão consiste na servidão ao temor da morte. É o terror da nossa aniquilação que nos mantém escravizados.

A liberdade, ao contrário, consiste em aceitar nossa mortalidade, o fato de que estamos destinados a morrer. A liberdade somente é verdadeira no conhecimento de que nossas vidas são moldadas pela aproximação inelutável e inevitável da morte, dia a dia, hora a hora. Nessa perspectiva, uma vida vivida bem, uma vida filosófica é uma vida que aceita a aproximação da morte. A existência é finita. A morte é certa. Isso não é nada novo. Mas uma vida filosófica tem de começar a partir de uma afirmação veemente da nossa finitude. Como disse T.S. Eliot do dramaturgo jacobino John Webster, temos de ver o esqueleto sob a pele.

Mas ainda estamos aterrorizados. Ainda estamos tensos. Vamos pensar nisso em termos de uma distinção entre medo e ansiedade. Sabemos pelo menos desde Aristóteles que o medo é nossa reação a uma ameaça real no mundo. Imagine que eu tenho um medo peculiar de ursos. Se um urso enorme aparecer na porta do meu apartamento, ficarei aterrorizado (e possivelmente surpreso). E se o urso repentinamente voltar para a rua, meu temor vai desaparecer.

Ansiedade, ao contrário, não tem um objeto particular, nenhum urso. É um estado em que os fatos particulares do mundo desaparecem da vista. Tudo de repente parece insólito e estranho. Uma sensação de estar no mundo como um todo, de tudo e nada em particular. Eu diria que o que muitos de nós estão sentindo neste momento é esta profunda ansiedade.

A natureza peculiar da pandemia é que o vírus, embora seja muito real, é invisível a olho nu e onipresente. A covid-19 se formou na estrutura de realidade: uma doença que está em toda a parte e em lugar nenhum, imprecisamente conhecida e, até agora, intratável. E muitos de nós temos a sensação de estar nadando num mar de vírus por muitas semanas e possivelmente meses. Mas talvez por baixo do tremor do medo persista uma ansiedade mais profunda, a ansiedade da nossa mortalidade, nosso ser sendo empurrado para a morte. E é isso que devemos tentar apreender.

É crucialmente importante pensar, aceitar e afirmar a ansiedade e não esconder, fugir, se evadir ou procurar explicá-la em relação a algum objeto ou causa. Essa ansiedade não é somente uma doença que precisa ser tratada, sem falar em ser medicada ou anestesiada. Ela precisa ser reconhecida, moldada e aperfeiçoada para se tornar um veículo de libertação. Não digo que é isso é fácil. Mas podemos tentar transformar a sensação básica de ansiedade de algo devastador em alguma coisa que permita e seja capaz de dar coragem.

Muitos de nós, na maior parte do tempo, somos encorajados pelo que é visto como normalidade a viver numa eternidade falsa. Imaginamos que a vida seguirá e a morte é algo que acontece para outros. A morte é reduzida ao que Heidegger chama de inconveniência social ou descarada falta de tato. 

O consolo da filosofia nesse exemplo consiste em abandonar o hábito de negar a morte e encarar a ansiedade da situação com coragem e sóbrio realismo. Permitir esse fato como a base para uma resposta compartilhada, porque a finitude é relacional: não é somente uma questão da minha morte, mas as mortes de outros, aqueles com quem nos preocupamos, próximos ou distantes, amigos e estranhos.

Há algumas semanas, eu me vi falando sobre literatura da peste: Decameron, de Boccaccio, A Journal of the Plague Year, de Defoe, A Peste, de Camus. Achei que era inteligente quando percebi que muitas pessoas estavam dizendo as mesmas coisas. Na verdade, o pensador ao qual mais tenho recorrido é o brilhante matemático francês do século 17 e teólogo Blaise Pascal, em particular os seus Pensamentos.

Pascal nos seus escritos fala da incapacidade de se manter silenciosamente numa sala como a fonte de todos os problemas da humanidade; da inconstância, do tédio e da ansiedade como traços definidores da condição humana; do poder mecânico do hábito e o ruído corrosivo do orgulho humano. Mas, principalmente, o pensamento de Pascal de que o ser humano é um junco, “a mais frágil natureza” que pode ser eliminada por um vapor – ou uma gotícula que está no ar – que me agarra.

Os seres humanos são precários, Pascal nos lembra. Somos fracos, frágeis, vulneráveis, criaturas dependentes. Mas e esse é o ponto vital – nossa precariedade é nossa grandeza. O universo pode nos esmagar, um pequeno vírus pode nos destruir. Mas o universo não sabe nada disso e o vírus não se importa.

Nós, pelo contrário, sabemos que somos mortais. E nossa dignidade consiste nessa ideia: “Lutemos”, diz Pascal, “para pensar bem. Esse é o princípio da moralidade”. Vejo essa ênfase na fragilidade, fraqueza, vulnerabilidade, dependência e precariedade humana como o oposto da morbilidade e qualquer pessimismo vão. É a chave para nossa grandeza. Nossa fraqueza é nossa força. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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