Valéria Gonçalves/Estadão
Valéria Gonçalves/Estadão

Ensaios de história cultural do humor são reunidos em livro por Elias Thomé Saliba

'Crocodilos, Satíricos e Humoristas Involuntários' traz textos sobre o humor soviético e o humor no 'país da piada pronta'

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

14 Junho 2018 | 06h00

Uma piada pode ter diversos propósitos, usos e efeitos. Para um pesquisador da História Cultural do Humor, esta prima mais nova, e, por isso, mais pobre da História Cultural, as piadas e os chistes, estejam eles numa revista, num livro ou num espetáculo, servem como caminho de acesso ao inconsciente coletivo de uma sociedade. “É isso, o historiador cultural do humor estuda a piada. Na verdade, estuda o que está por trás dela. As piadas têm estruturas que se repetem e nós estudamos os usos sociais que são feitos delas, usos que muitas vezes seus próprios criadores desconhecem”, explica Elias Thomé Saliba.

Pioneiro neste estudo, professor do Departamento de História da USP, coordenador do Grupo de Pesquisa em História Cultural do Humor na universidade e membro da International Society of Luso-Hispanic Humor Studies, ele apresenta nesta quinta-feira, 14, às 19h30, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, seu novo livro sobre o tema: Crocodilos, Satíricos e Humoristas Involuntários (Intermeios). 

A obra traz quatro ensaios, todos com ponto de interrogação no título, que fazem parte de um projeto maior de pesquisa, que vem sendo desenvolvido pelo historiador e outros autores: O Riso e os Dilemas de uma Ética Emotiva: Perspectivas Para uma História Cultural do Humor, 1880-1960.

E você chama isto de vida? O riso do Krokodil e as dimensões controversas do humor soviético é o texto que abre a coletânea e analisa a revista humorística Krokodil, que circulou, com algumas interrupções, entre 1922 e 1989. Com a abertura da União Soviética, conta o historiador, seus arquivos também foram abertos e o acesso de pesquisadores a esse material, incluindo as piadas censuradas nas ruas desde que o código penal de 1926 criminalizou qualquer propaganda ou agitação antissoviética, levou à publicação de coletâneas de anedotas da tradição oral. 

“Foi possível fazer um ensaio sobre as piadas que circulavam livremente e as caricaturas da Krokodil mostrando como o humor tinha tanto a função de subverter, de gerar um momento de gratificação, de confrontar a propaganda do regime soviético, quanto de servir ao poder. Stalin intervinha muitas vezes nas caricaturas da revista”, explica o historiador, que, nos textos seguintes, se debruça sobre temas brasileiros.

Saliba é autor, também, de, entre outros, A Dimensão Cômica da Vida Privada na República, texto que integra o terceiro volume da série História da Vida Privada no Brasil, e, mais importante, Raízes do Riso. No segundo texto do novo livro, Por que ninguém quer ser humorista? Sérgio Buarque dos Países Baixos e o corredor do humor no modernismo brasileiro, ele aprofunda uma descoberta feita em 2002 e que já aparece, mas de forma breve, justamente em Raízes do Riso: duas crônicas publicadas por um tal Sérgio Buarque dos Países Baixos, um pseudônimo (de Sérgio Buarque de Holanda, que tinha 22 na época?), na revista humorística A Banana, em 1923. 

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O historiador explora questões sobre por que se esconder atrás de um pseudônimo e o humor no modernismo. Para o autor, os modernistas usaram, sim, do humor, mas no formato da vanguarda, não de uma forma que poderia chegar ao povo no momento que a cultura de massa estava nascendo.

No terceiro ensaio, Envolvidos na vida, nós a vemos mal? A sátira humorística nas crônicas de Lima Barreto (1907-1922), Saliba levanta a questão: qual é o papel da sátira em sociedades em que a esfera pública não funciona muito bem ou ainda não se formou, como é o caso do Brasil? Ele usa como exemplo as crônicas de Lima Barreto.

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“O último ensaio é uma espécie de sopa de referências. Em Brasil: Um país de humoristas involuntários?, retomo algumas questões levantadas no Raízes do Riso, adiciono novas fontes e levanto registros pouco conhecidos – inclusive sobre alguns escritores brasileiros que renegaram sua produção humorística, como Murilo Mendes, que fez um livro chamado A História do Brasil, cheio de poemas humorísticos, que ele nunca reconheceu como uma obra importante dele”, comenta o autor.

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Uma frase de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto (1923-1968), abre o capítulo: “É difícil precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País”. Ainda vamos conseguir rir de tudo o que nos tira o humor?

“Uma tese que venho tratando é que o brasileiro sofre uma espécie de déficit em relação ao viver em sociedade, à civilidade. E a vida pública exige um recuo para o universo privado. O riso é parte de uma ética emotiva e de intimidade,”, diz o historiador. “Mas claro que o brasileiro pode rir mesmo da tragédia – isso porque há vários tipos de riso. Pensamos no riso como um sentido de alívio e catarse. Mas às vezes o riso é o contrário da catarse, é a catexia, a exasperação das energias nervosas. Temos o riso nervoso também. É rir para não chorar”, completa Saliba, para quem, neste mundo nervoso, em que a sociedade vive uma crise de valores e enfrenta a onda do politicamente correto, é cada vez menor o espaço para um humor mais livre. 

CROCODILOS, SATÍRICOS & HUMORISTAS INVOLUNTÁRIOS - ENSAIOS DE HISTÓRIA CULTURAL DO HUMOR

Autor: Elias Thomé Saliba

Editora: Intermeios (126 págs.; R$ 35)

Lançamento: Hoje (14), às 19h30, no CPF Sesc (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, 4º andar)

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