Companhia das Letras
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Enrique Vila-Matas: 'temo que a literatura não é uma descobridora de vacinas'

Em quarentena e preocupado, escritor catalão viu um de seus livros chegar à semifinal do International Booker Prize 2020

Entrevista com

Enrique Vila-Matas

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2020 | 05h00

Enrique Vila-Matas, é claro, está preocupado. O escritor catalão de recém completos 72 anos está isolado em sua casa em Barcelona e mesmo as notícias que ainda virão nas próximas semanas provavelmente não vão pacificar de todo o seu ânimo. “Seguimos com a tendência de ir vivendo como se tivéssemos que viver sempre e não dispuséssemos nem de um segundo para nos lembrar de que temos que morrer”, escreveu na sua coluna mais recente no jornal espanhol El País, no último dia 30 de março.

“Ontem mesmo ouvia falar um famoso na televisão que não havia previsto nunca uma tragédia como essa, ‘tão forte e afetando tanta gente’”, escreveu Enrique Vila-Matas. “A tanta gente? Mas se isso afeta a totalidade da humanidade! Mas se não é nada menos que a morte, idiota!”

O livro que o levou à semifinal do International Booker Prize (que teve seus finalistas anunciados no início de abril) foi a versão em inglês de Mac e Seu Contratempo, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Josely Vianna Baptista. 

No livro, Mac, o personagem principal e narrador, se ocupa de ler, analisar e reescrever o livro do seu vizinho, Ander Sanchez, e compartilha o processo com o leitor por meio de um diário. Talvez seja desnecessário o leitor saber que o livro que Mac vai reescrever é, na verdade da vida real, Uma Casa Para Sempre, publicado em 1988 pelo próprio Vila-Matas, porque isso não é mencionado em nenhum momento no novo romance.

Afeito a viagens, reais e literárias, o escritor respondeu às perguntas a seguir sobre o livro, o prêmio e a quarentena forçada.

Em alguns dos seus romances, os personagens se apaixonam muito de repente. Em Mac e seu Contratempo, Mac “se apaixona de novo” por sua esposa, Carmen. Ter essa sensação repentina é um privilégio da literatura?

O amor sempre é repentino. Tanto na vida como na literatura. Nesta última, o arquétipo do amor repentino é o de Dante pela jovem Beatriz na Divina Comédia. Que alguém se “apaixone de novo”, como ocorre a Mac, não significa nada além de que o personagem evolui ou, se me permite dizê-lo, revoluciona, ou seja, que está tão vivo quanto um ser real.

Um escritor brasileiro (Marcelino Freire) disse que quando um autor necessita de uma epígrafe e não a encontra, deve inventá-la e atribuí-la a outro escritor, porque ninguém vai conferir. A atribuição de trechos e frases a outros escritores já causou algum problema a você?

Nunca. Nenhum problema. Por que teria que criá-la? Muitas vezes as citações, as epígrafes inventadas creio que são minhas, que pensei e as escrevi. É como se quisesse dar razão a Wallace Stevens quando disse que “as citações, como as epígrafes, têm um interesse especial, já que alguém é incapaz de citar algo que não seja suas próprias palavras, quem quer que as tenha escrito”.

O senhor foi semifinalista do International Booker Prize. Nesse ponto da sua carreira, o que significam os prêmios literários?

Ser finalista do International Booker Prize – prêmio que se divide entre o tradutor e o autor – não é algo fácil. É um prêmio ao melhor livro do ano traduzido ao inglês. E é difícil porque, de saída, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos se traduzem pouquíssimos autores de outras línguas. Assim que alcançar que Mac & His Problems tenha chegado à final é para mim estar indicado ao Oscar de Hollywood como melhor filme estrangeiro. Por tudo isso, estar na longlist foi uma surpresa muito agradável que atribuo especialmente à categoria de tradutoras do livro: Margaret Jull-Costa e Sophie Hughes.

Você conhece o trabalho dos seus concorrentes?

Li com admiração a obra de Samanta Schweblin, a escritora argentina que, a propósito, tem uma breve e suculenta intervenção em Mac e Seu Contratempo.

Nesse romance, o cinema adquire uma espécie de protagonismo, mais forte do que em outras obras recentes suas. A repetição parece ser mais afeita ao cinema do que à literatura, com suas tramas predefinidas e previsíveis. Está de acordo?

Se falamos de remakes, é certo que na literatura o remake é menos frequente do que no cinema.

Um trecho do romance:  “A calma, a paz da rua foram uma bênção. Nem um ruído. Domingo com todo mundo em casa, dormitando, brincando, transando, sonhando, a maioria na verdade se irritando, porque o domingo cria um vazio que sempre é a nossa ruína”. A quarentena seria um domingo ainda mais obscuro, e contínuo?

Sim, mas aos domingos alguém sempre podia descer à rua e se sentar numa praça e estar na vida, enquanto que agora não há praças nem há vida nas ruas...

O que a literatura pode fazer por nós em tempos de pandemia?

Se eu soubesse colocaria as mãos à obra. Mas temo que a literatura não é uma descobridora de vacinas.

E pelo senhor?

Por mim? A literatura nunca fez nada por mim.

Como está passando pela pandemia?

Sobrevivendo.

TRECHO DE MAC E SEU CONTRATEMPO:

“É estranho, mas um momento atrás, ao transcrever esse trecho dos olhos cor de safira, tive uma sensação súbita e irracional e me apaixonei de novo por ela, como nos primeiros tempos.

Controlamos nosso destino ou forças invisíveis nos manipulam? Eu me pergunto isso enquanto escuto Carmen ir para a cozinha, quase certo que para fazer nosso almoço. Ouço seus passos se afastando no corredor e rememoro outros trechos do relato:

‘Filha insubmissa da egípcia Ast, bela e pálida como a noite, tempestuosa como o Atlântico, Carmen foi se especializando em provocar desesperos.’

Desesperado, levo a mão à cabeça. Não sei bem por que faço isso, talvez seja só amor de perdição, só desespero de tanto amor e de tanto temor de perdê-lo.”

MAC E SEU CONTRATEMPO

Autor: Enrique Vila-Matas

Tradutora: Josely Vianna Baptista

Editora: Companhia das Letras (288 págs., R$ 62,90, R$ 39,90 o digital)

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