Mauríicio de Sousa
Mauríicio de Sousa

‘Emília era o exemplo que não tive coragem de seguir’, diz Mauricio de Sousa

Criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa se aventura pelo universo de Monteiro Lobato em adaptação de ‘Narizinho Arrebitado’, feito com Regina Zilberman

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 03h00

Mauricio de Sousa teve a chance, muitos anos atrás, de ilustrar os livros do escritor que despertou nele o gosto pela leitura. O convite veio da Brasiliense, editora de Monteiro Lobato (1882-1948) por quase toda a vida, que queria modernizar suas edições – as primeiras são dos anos 1920. 

“Não aceitei. Mexer no que eu tinha lido e adorado, que era uma coisa sagrada para mim, seria um sacrilégio. Não tive coragem de alterar a obra de Lobato – nem que fosse com um desenho bonitinho”, relembra hoje, aos 83 anos, um dos mais bem-sucedidos autores de obras para crianças do País.

Mas o tempo passou, Mauricio ficou mais seguro e famoso e os herdeiros saíram de cena no começo do ano com a entrada da obra de Lobato em domínio público. E eis que encontramos o pai da Turma da Mônica em seu estúdio, em São Paulo, feliz da vida com o livro que tem em mãos: Narizinho Arrebitado. Abaixo do título, seu nome ao lado do nome de Lobato. “Isso não tem preço”, diz, e sorri.

Narizinho Arrebitado foi o primeiro livro que Lobato escreveu para crianças, ainda no início dos anos 1920. É nele que o autor apresenta alguns dos personagens que povoariam a infância de gerações e gerações de brasileiros e que no livro que é lançado agora são representados nas ilustrações pela Turma da Mônica: Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, é a Magali; Emília, sua boneca de pano, é a Mônica. Tem ainda a Tia Nastácia e Dona BentaPedrinho e companhia só aparecerão em outro volume (há pelo menos mais um previsto). 

A editora Girassol optou por fazer uma adaptação do texto que, como escreveu José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, na orelha, “se preocupou em retirar os pontos negativos”. A tarefa ficou a cargo de Regina Zilberman, pesquisadora, historiadora de literatura infantil e leitora de Lobato desde a infância.

“Buscamos dar um tom contemporâneo, trocando palavras que não são mais usadas porque saíram de moda ou porque tinham uma carga de preconceito”, conta Regina. E aqui ela não se refere apenas ao modo como os personagens tratam Tia Nastácia, mas também a questões de idade e de respeito ao próximo. 

“O interessante é que não foi preciso mexer na história. O texto é o mesmo. A integralidade dos conteúdos e da narrativa se manteve. Meu trabalho foi fazer esse ajuste para o contemporâneo. Se Lobato fosse racista ia ter que mexer mais profundamente, e não foi preciso”, diz.

A pesquisadora lembra que o escritor teve seus momentos de muita circulação entre os anos 1920 e 1970, e então aumentou a produção de livro para crianças e “Lobato foi encolhendo”. 

Depois veio uma longa briga entre a Brasiliense e os herdeiros do autor, e suas edições ficaram desatualizadas, antigas. Há 11 anos, com a ida dessa obra para a Globo, o leitor brasileiro se reencontrou com o criador do Sítio do Picapau Amarelo. 

“Agora, em domínio público, ele vai retomar a sua pujança. Vamos ter ofertas de todos os matizes: baratas, caras, longas, curtas, coloridas, em preto e branco, de todo jeito. E vai ter também um revival em outros suportes, como cinema, televisão, HQ”, avalia.

E o que Lobato pode mostrar para essa nossa geração de leitores? “Há coisas muito importantes nele, que são muito atuais e oportunas. Um exemplo: essa presença marcante das mulheres, um protagonismo feminino, na sua obra para crianças. E também a autonomia da criança. Ela tem noção de que pode ser ativa, tomar decisões, arcar com as decisões que ela toma – e isso, ainda hoje, é muito inovador.” 

‘Emília era o exemplo que não tive coragem de seguir’, diz Mauricio de Sousa

Qual é a sua primeira lembrança de um livro do Lobato?

Caçadas de Pedrinho. Depois fui lendo aleatoriamente, tudo. Meu pai lia Lobato e me introduziu. Virei um leitor compulsivo e isso me ajudou muito em tudo o mais que eu fiz na vida. E Lobato me empurrou para diversos assuntos que depois que eu lia eu mergulhava mais fundo para aprender mais.

Seu personagem preferido?

Lógico que é a Emília. Pela molecagem e irreverência. Para um garoto, isso é um prato cheio. Você quer imitar.

Imitou?

Não porque era tímido. Emília era o exemplo que não tive coragem de seguir.

A edição não tocou em questões que poderiam ser polêmicas.

Decidimos que o melhor seria fazer um texto limpo das dúvidas que podiam ser levantadas.

Tirando essas questões ou não contextualizando pode parecer que elas não existiam.

Mas aí entramos numa armadilha. Se coloca o livro como era, você, de algum modo, ressuscita o ambiente e assuntos que já morreram talvez por conta das conquistas sociais. A sociedade já não aceita muita coisa há muito tempo. E a gente escolhe: vou trazer de novo coisas que a gente sabe que a sociedade se negou a trazer para cá? Não, vamos acompanhar a evolução dos hábitos. Às vezes é demorado. No caso do racismo, está demorando muito para acertarmos alguns pontos. Cada vez que fazemos um trabalho como esse, quando damos uma transformada, uma cortada e deixamos para o esquecimento algum tipo de postura, estamos colaborando para melhorarmos um pouquinho a situação social. 

Reler o livro agora causou algum estranhamento que não causou lá atrás?

Para uma família que já sofreu problemas, acho que pode haver um estranhamento e até uma revolta, e eles têm razão de não desejar reler. No meu caso, como não vivi isso, eu passo batido porque eu não entendo, não sinto isso. Eu não sofri as consequências.

As turmas da Mônica e do Sítio já tinham se encontrado, mas agora é diferente: são personagens como os personagens de Lobato.

Já que havia a oportunidade, achei que nós podíamos fazer os personagens se travestir de personagens de Lobato. Ficaria mais forte. 

 

NARIZINHO ARREBITADO

Autores: Monteiro Lobato, Mauricio de Sousa e Regina Zilberman

Editora: Girassol (64 págs.; R$ 34,90)

 

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