EFE/EPA/NEIL HALL
EFE/EPA/NEIL HALL

Em vez de eleger apenas uma palavra para 2020, Oxford analisa impacto da pandemia na língua inglesa

A pandemia tornou familiar termos outrora obscuros de saúde pública como 'distanciamento social' ou 'achatar a curva', assim como palavras e frases como 'lockdown' e 'ficar em casa'

Jennifer Schuessler, The New York Times

23 de novembro de 2020 | 17h55

A escolha da palavra do ano pela editora Oxford Languages é geralmente um tributo à criatividade multifacetada do inglês e à realidade das constantes mudanças linguísticas, destacando neologismos contemporâneos como "selfie", "vape" (cigarro eletrônico) e "unfriend" (desfazer amizade).

Claro, nem tudo no mundo lexicográfico é divertido e brincalhão. O ano de 2017 viu o triunfo de “tóxico”. No ano passado, a vencedora foi “emergência climática”.

Mas então veio 2020, e você sabe o quê.

Este ano, a Oxford Languages, editora do Oxford English Dictionary, desistiu de selecionar apenas uma palavra e decidiu destacar o efeito linguístico rápido e repentino da pandemia do novo coronavírus na língua inglesa.

“O que mais impressionou a equipe em 2020 foi a escala e o escopo da mudança”, disse Katherine Connor Martin, chefe de produto da empresa, em uma entrevista. “Este evento foi vivenciado globalmente e por sua natureza mudou a maneira como expressamos todas as outras coisas que aconteceram este ano.”



A palavra do ano é baseada em evidências de uso retiradas do corpus continuamente atualizado da Oxford com mais de 11 bilhões de palavras, coletadas de fontes de notícias em todo o mundo de língua inglesa. A seleção tem o objetivo de "refletir o ethos, o estado de espírito ou as preocupações" do ano anterior, ao mesmo tempo que tem "potencial duradouro como um termo de significado cultural".

O relatório de 2020 destaca algumas novidades interessantes, como “Blursday” (que se refere a sensação de todos os dias da semana parecerem os mesmos), “covidiotas” (você sabe quem são) e “doomscrolling” (quem, eu? - pessoas que não se cansam de ler notícias negativas sem levar em conta sua saúde mental). Mas, principalmente, isso salienta como a pandemia tem dominado totalmente as rodas de conversa e nos dado um novo vocabulário coletivo quase da noite para o dia.

Considere, para começar, pandemia: o uso do termo aumentou mais de 57.000% desde o ano passado. Coronavírus - uma palavra cunhada em 1968, mas até este ano pouco usada fora de contextos médicos - também surgiu, ultrapassando o uso de outras palavras mais comuns.

Em janeiro, estava lado a lado com "impeachment", devido aos processos contra o presidente Donald Trump. Mas em abril, “coronavírus” havia se tornado um dos substantivos mais comuns em inglês, ultrapassando até mesmo palavras rotineiras como “tempo”.

E isso, disse Katherine, não é nada comum, talvez até mesmo seja algo sem precedentes (outra palavra, a propósito, cujo uso disparou, de acordo com o relatório). Normalmente, quando surge uma palavra atual, ela disse, “torna-se mais comum em relação a outras palavras do tema, mas não em relação às demais palavras que todos dizemos em inglês o tempo todo”.

O relatório da Oxford também destaca palavras e frases relacionadas às manifestações por justiça social, incluindo "Black Lives Matter" (Vidas negras importam), "Juneteenth" (dia em que se comemora a emancipação dos escravizados nos estados confederados no sul dos EUA), "descolonizar" e "allyship" (processo vitalício de construção de confiança e oportunidades daqueles que estão no poder para os que são marginalizados), algumas das quais aumentaram dramaticamente a partir do fim de maio, em meio aos protestos após o assassinato de George Floyd sob custódia policial. Mas esses aumentos, embora notáveis, não chegaram nem perto dos termos relacionados ao novo coronavírus.

E a pandemia pode ter realmente reduzido a frequência de outras palavras da atualidade. No ano passado, a Oxford lançou uma lista de palavras relacionadas ao tema clima, encabeçada por "emergência climática". Mas em março, quando a pandemia se espalhou, a frequência da palavra “clima” caiu abruptamente em quase 50%.

(O uso desde então se recuperou um pouco, e o relatório também sinalizou o surgimento de alguns novos termos relacionados ao tema como "antropausa", proposto em um artigo na revista Nature em junho para descrever a redução drástica e repentina na mobilidade humana e seu impacto no mundo natural.)

A pandemia tornou familiar termos outrora obscuros de saúde pública como “distanciamento social” ou “achatar a curva”, assim como palavras e frases como “lockdown” e “ficar em casa”. Mais sutilmente, também alterou os padrões de uso de palavras entediantes como "remoto" e "remotamente".

Anteriormente, as colocações mais comuns (como os lexicógrafos chamam as palavras que aparecem com mais frequência juntas) de "remoto" eram "aldeia", "ilha" e "controle". Este ano, disse Katherine, as palavras que mais acompanhavam o adjetivo eram “aprendizado”, “trabalho” e “mão de obra”.

O relatório da Oxford também destaca o uso crescente de “presencial”, muitas vezes em retrônimos, termo usado pelos lexicógrafos para se referir a um neologismo para uma coisa existente que se distingue do original de uma nova variante. (Por exemplo: “linha fixa” ou “fralda de pano”.) Em 2020, tornou-se cada vez mais necessário especificar votação, aprendizado, adoração “presencial” e assim por diante.

Na maioria dos anos, a parte interessante da lista de favoritas da Oxford vinha pela composição ou mistura de palavras, como "mansplain" (quando um homem tenta explicar algo de modo condescendente a uma mulher) ou "broflake" (um homem que se  incomoda ou se sente ofendido por atitudes progressistas conflitantes com seus pontos de vista). Mas neste ano, até os neologismos foram um pouco pessimistas. Para cada “covidiota” e “blursday”, havia uma “twindemia” (a simultaneidade de duas epidemias) e uma “infodemia” (uma explosão de informações relacionadas à pandemia que despertou ansiedade).

Então ... é justo dizer que em 2020, até as palavras foram, bem, meio terríveis?

Katherine se recusou a ser tão negativa. Mas ela confessou alguma nostalgia dos dias de neologismos lúdicos e ousados para se colocar em um dicionário, como "lumbersexual", da lista de finalistas de 2015 da Oxford.

Ela disse esperar que 2021 traga mais "palavras positivas e divertidas que não deem a impressão de se estar carregando o peso do mundo nas costas".


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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